segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Sobre a "nostalgia do amor"




Tempos “líquidos”. Desejamos, cada vez mais, uma solidez relacional que, parece, não poderá ser alcançada. Um paradoxo. De repente, nada nos parece mais antiquado do que longas amizades, amores duradouros e vínculos que permanecem para além do tempo em que o computador esteja ligado. Há uma pergunta no ar: - Como assim? Contudo, ansiamos pela resposta. Pela fórmula.

O risco de sermos deletados da vida do outro sem que sejamos avisados gera, a cada momento, camadas e mais camadas de uma defesa que cuida de acalentar nosso sonho e nos defender de uma dor re-conhecida a cada novo início de relação. Essas camadas atravessam todos os nossos corpos, desde dos mais sutis até o físico, configurando-se em enfermidades atualizadas a cada dia.

O regulador das relações parece ser os bens e consumo e a satisfação que eles prometem. Mas, a cada novidade digerida, uma nova se apresenta, “reiniciando” a vida na busca de um novo enquanto fonte de prazer.  Segundo Bauman:

“O amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele. “

Um desejo de amor regulado pela linha do horizonte (que nunca chegará) manifesta-se no físico como ansiedade patológica, e o conjunto de fobias tão conhecidos na atualidade: terrores vazios, tensão elevada, síndrome de pânico, entre outras enfermidades da civilização em que vivemos. O devir tornou-se apavorante se não pudermos controlá-lo. Como, então, arriscarmo-nos no amor, sabendo-se que a vulnerabilidade é sua qualidade essencial e não podemos construí-lo nem desfrutar dele senão na vivência do abismo?

Ao lado disto temos a velocidade a sensação de urgência, de imediatez. Os dias contribuem para nos tornarmos intolerantes a várias coisas, entre elas, a frustração. Não damos conta. Em algum ponto, continuamos atuando como crianças. Precisamos da solução para tudo, imediatamente, ansiamos uma bula, um “google da alma” que nos aponte todas as respostas ou um lugar onde poderemos “baixá-la” ou compra-la. Precisamos estar felizes todo tempo. Afinal, o próximo tempo pode não estar lá, para ser consumido.

Então deletamos. Então adoecemos.

Todo inegável benefício da atualidade não consegue dar conta de um corpo que evolui lentamente através dos milhões de anos. E não vai adiantar a criação de protótipos alcançáveis pelas cirurgias ou pela nossa renda mensal: a fome da nossa alma não será aplacada.

A Biodança é uma abordagem que convida ao encontro humano como base para todo e qualquer processo evolutivo, nele incluída a relação com a tecnologia e o mundo moderno. É um trabalho que desenvolve a consciência corporificada para que possamos estar atentos ao que pensamos, sentimos e à forma como agimos. Assim, esses aspectos passam a habitar nosso físico de maneira integrada, gerando saúde. Biodançar nos leva à expressão legítima daquilo que estamos sentindo, clareando papéis, estimulando o abandono da vitimação para assumir o lugar de agente dos nossos próprios dias. Tudo isto absolutamente “na presença”, olhando de frente, lidando com a sombra e a luz de tudo que somos nesta dimensão.

Coragem para VINCULAR profundamente consigo mesmo, com o outro, com o universo. Este é o grande exercício. E que venha mais vida a ser vivida e que, nela, possamos dançar (antes que os anjos não saibam o que fazer conosco... rs).




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