sexta-feira, 29 de dezembro de 2017





AS PALAVRAS DO SILÊNCIO  

Carlos Fregtman


A linguagem da sabedoria não são as palavras, mas o silêncio. Ele encerra o ensinamento mais perfeito.

Na tradição hindu, Shiva, o instrutor do mundo, inicia os quatro Rishis – filhos de Brahma – nos segredos da vida espiritual mediante o “conhecimento de si mesmo”. Como seus discípulos se mostram pouco aptos para a compreensão intelectual racional, Shiva decide mergulhar no silêncio. Desse modo. Ele leva os Rishis a se observarem e a se conhecerem, silenciando o pensamento e a palavra. Qual é o melhor método de comunicação? Pregar em voz alta sem obter resultados ou guardar silêncio, difundindo em volta de si uma corrente de forças espirituais que atuem sobre os outros? O conhecimento transcendental não manifestado, o conhecimento supremo abstrato, é transmitido num instante de silêncio. Esse silêncio é o útero dos pensamentos e das palavras, necessárias e eficazes, mas inválidas sem a sua contraparte criadora. O silêncio é um impulso que engendra os sons, as linguagens, as músicas.

Muitas vezes, permanecer em silêncio numa sessão de terapia vale mais do que mil palavras ou sons. Estabelece-se um profundo vínculo, uma empatia em ressonância. Os nossos sentidos se tornam mais agudos. O silêncio também é música. Quando penetramos no âmbito do silêncio, começamos a ouvir outras realidades mais profundas, e não apenas as palavras, conceitos ou notas vazios. ... Capra diz que chegará um momento em que, se se quiser avançar, será preciso deixar de falar, escrever ou pensar racionalmente. A arte é a única área do conhecimento do homem que o impele a outros domínios. É uma forma de comunicação presente, uma linguagem mais ligada à emoção. E se encontra inextricavelmente unida com o silêncio,pois entrar em contato com o espaço vibracional do som puro é por em evidência o silêncio que o cerca, os intervalos entre as notas com que se constrói a melodia. É como a “tela em branco”  para um pintor.

A melhor iniciação, a mais poderosa, ocorre através do silêncio. O silêncio iniciático muda o coração de todo homem. É a instrução espiritual mais significativa. A verdade transcende as palavras, embora estas possam muitas vezes indicar uma direção.

O caminho para a criação, para a mutação verdadeira, não passa pela porta de uma igreja, nem por um livro, um guru ou uma música, mas pela porta da tomada de consciência daquilo que se é. ...  Toda mudança exige que um buscador dotado descubra aquilo que não pode ser dito com palavras.

O que provoca uma mutação, um impulso criador, é simplesmente ver, descondicionando o nosso cérebro que nos leva a condenar, hierarquizar, dividir ou justificar.

Segundo Norman Brown, religar a consciência com o inconsciente é religar as palavras com o silêncio. Se a consciência for só palavras, sem nenhum silêncio, o inconsciente permanecerá inconsciente. Cego. Surdo. Cheio de si mesmo.

Diz Krishnamurti que, quando há compreensão de si mesmo, quando há suspensão de si mesmo, a eternidade pode entrar na existência. Nesse  momento nossa música transcende as fronteiras do ego, transforma-se numa corrente transpessoal que ultrapassa o nosso ser individual.

A partir do silêncio, a partir da benevolência desse  sábio mestre luthier que fabrica “moradas do espírito” , a sua música torna-se universal. Sem fronteiras.

*    luthier é como se chama o profissional especialista em criação e restauração de instrumentos musicais.


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