terça-feira, 1 de agosto de 2017

"RELAÇÕES PURAS"




"RELAÇÕES PURAS"






Quando a capacidade do objeto de gerar prazer cai abaixo do nível prometido ou aceitável, chegou a hora de se livrar daquela coisa chata e desinteressante, aquela pálida réplica ou feia caricatura do objeto que um dia abriu caminho para o desejo por meio do brilho e da tentação. É moderna, simples e líquida a ação do descarte.  Vai-se, então, em busca de um novo objeto atualizado, melhor equipado, para proporcionar novas sensações, todas elas exibidas numa vitrine, num canal de relações ou na prateleira de uma loja. É a chamada “fadiga do prazer”, especialmente reinante porque, aquilo novo que está prometido, ainda não foi experimentado, conhecido, comprovado. Entretanto, se foi criado, deve ser superior e dotado de maior poder de atração. Assim, o artigo anterior é dirigido ao lixo, seja ele uma coisa ou uma pessoa.

Neste segundo caso, a atualidade nos confronta com as chamadas “relações puras”, baseadas apenas na satisfação delas extraída ou seja,  sem compromissos e alcance indefinidos. Nelas, quando a satisfação diminui, é sobrepujada pela disponibilidade para uma satisfação ainda mais profunda, isto contemplando a perspectiva de, apenas, UM parceiro. Assim, cada cada um dos dois parceiros de uma "relação pura", separada ou simultaneamente, tentará fazer o papel de sujeito, tendo o outro como objeto. É claro que um pode se deparar com um objeto que se recuse a aceitar o papel de “coisa”. Isto acontecendo, tentará seduzir seu parceiro(a) a essa condição, por uma falta de estrutura interna particular para desenvolver um relacionamento onde a reciprocidade seja real.

Eis o paradoxo insolúvel  da chamada “relação pura”: cada parceiro presume seu direito à condição de sujeito e, ao mesmo tempo, a redução do outro à condição de coisa. Entretanto, o sucesso de ambos em transformar esse pressuposto em realidade representa a ameaça de término da relação. Esta proposta é, portanto, uma tentativa previamente fadada  ao fracasso por sua própria natureza ficcional e ambos os parceiros estão condenados a conviver com o medo de uma possível rejeição e um pavor constante de despertar dentro de um pesadelo chamado solidão.

Essa relação replica o padrão consumista da modernidade e sua tentativa de dominar os relacionamentos humanos. Martin Bubber há muito derrocou essa premissa nos falando do substancial avanço da qualidade de relação humana para EU-TU. Mas, nesta última, há o exercício muitas vezes fadigante de falar/escutar, dar/dar-se/pedir/receber, confrontar a própria fragilidade com o medo de ser fraco, tornar-se vulnerável para absorver a própria vida.

Outro equívoco substancial dá-se ao confundir a “relação pura” com o significado profundo da liberdade e da reciprocidade. O simples fato de haver satisfação de ambos os lados de um relacionamento não cria, necessariamente, reciprocidade. Significa apenas que os dois indivíduos em relação se satisfazem ao mesmo tempo.

Para que aconteça reciprocidade, é necessária a intenção do vínculo com interação de conteúdos, razões explícitas e ajustadas, retroalimentação e intenção de sustentação. Esta qualidade é cuidadosa, permeável à afetividade e à sensibilidade cenestésica – não apenas à satisfação pessoal em detrimento do outro.  É um estado de ressonância afetiva, de construção dialética.

Muitas vezes, consideramos como necessidade de vínculo, apelos dissonantes da voz interna do nosso ser essencial. Esses apelos vêm do meio onde estamos inseridos e nele somos reconhecidos. Quanto mais exercitarmos nossa sensibilidade e refinarmos o padrão de conhecimento próprio, mais teremos respostas sobre aquilo que é verdadeiramente nosso e atende ao que vem da nossa intimidade e nos leva à autonomia.

As chamadas “relações puras” são exemplos de insensibilidade moral. Criam um território defensivo, morbidamente neutro, proclamador do “nem bom nem mau”, disfarçado de “não julgante” para escusar-se de opinião e comprometimento. São relações transpostas de consumidor-mercadoria: no final do uso, descartamos e nem lembramos mais. As situações de vínculo são mais complexas. Envolvem riscos com sensações e sentimentos apavorantes como culpa e escrúpulo. Muitas pessoas, na tentativa de sanar tais sensações, recaem no ambiente líquido moderno, tentando compensar sua negligência com presentes e outros objetos que tamponam o desejo de vinculação mais profunda. São tranquilizantes, dopantes, anestésicos, todos à disposição de redimir os efeitos das dores não físicas, até que isto se torne um vício e, com ele, uma segunda natureza batize este novo homem.

Tal comportamento leva o ser humano a ser um consumidor, antes de ser um amante, um parceiro, um amigo ou qualquer outra denominação que implique em vínculo e reciprocidade genuínas.  Está criado, assim, um  mundo assustadoramente instável, composto apenas por desejos, isento de realidade, onde a vontade não faz sentido.

Com-prometer-se. Cuidar como um modo de ser no mundo. Conhecer e dar-se a conhecer. Vulnerabilizar-se para a relação. Integrar-se com a totalidade. Estes são os efeitos reguladores das experiências em Biodança que propõe vivências inspiradoras de relações e vínculos profundos. Nada “puros”. Mas estruturadores e essenciais.