quarta-feira, 1 de março de 2017

TOCAR - um ato revolucionário

TOCAR – um ato revolucionário


Sabemos que a nossa pele é um órgão de comunicação. Mas até onde estamos livres para tocar verdadeiramente com consciência, qualidade e, através deste toque, plasmar a realidade?

Tato é diferente de contato e diferente de carícia. É, também, diferente de carinho. Em Biodança, tratamos de identificar claramente estes signos, seus significantes e significados. Aqui, uma brevíssima reflexão sobre cada um deles.

TATO é uma função apenas sensorial. Diz respeito ao veículo que levará uma coleção de estímulos percebidos pela nossa pele para que sejam processados e identificados pelo nosso cérebro. É através dele que identificamos o que é quente, frio, mole, duro, macio, crespo e o que mais pudermos lembrar, em sequência. Assim, os receptores captam, as sinapses transportam os estímulos e o cérebro identifica. Voilá!!!

CONTATO é uma sofisticação do tato. Ele inclui a atenção à outra presença que gera o tato, conferindo-lhe importância. Por exemplo: frio DO GELO. Não mais apenas um frio anônimo. Quando pensamos em seres humanos, isto ganha qualidade: pele macia DE...   Então já não se trata de uma pele qualquer. Isto distingue, qualifica, identifica e aprofunda o que antes era apenas uma resposta do cérebro. Componentes emocionais começam a ser incluídos. Aqui, o processo de identificação do humano começa a se estabelecer, pois só conseguimos estruturar nossa identidade na presença do outro. O contato se estabelece, então, como uma necessidade. Podemos observar como sua privação afeta profundamente uma pessoa, bastando imaginar o quanto a “solitária” é apavorante até mesmo para quem está no sistema prisional. Este castigo busca domar comportamentos inaceitáveis socialmente, confinando a pessoa ao limite da sua própria pele – sem outra referência. Assim, inúmeras dimensões da existência começam a definhar. É fácil observar que este castigo – a solitária, é utilizado por um breve período de tempo. Isto porque ele pode provocar o esfacelamento da identidade por falta de referência sensorial semelhante. Em outras palavras: falta de contato.

Diz José Ângelo Gaiarsa:

“Montagu acredita que a capacidade de um ocidental se relacionar com seus semelhantes está muito atrasada em comparação com sua aptidão para se relacionar com bens de consumo e com as pseudo necessidades que o mantêm em escravidão. A dimensão humana encontra-se constrangida e refreada. Tornamo-nos prisioneiros de um universo de palavras impessoais, sem toque, sem sabor, sem gosto. A tendência natural é as palavras ocuparem o lugar da experiência. Elas passam a ser declarações ao invés de demonstrações de envolvimento; a pessoa consegue proferir com palavras aquilo que não realiza num relacionamento sensorial com outra pessoa.“

Segundo Roberto Shinyashiki a CARÍCIA é uma unidade de reconhecimento humano. Ela vai além do contato, almejando o interior do outro, o bem do outro, a cura. Tem consciência de reciprocidade e intenciona a revelação mútua pela ressonância provocada. É um gesto considerado terapêutico, carregado de significado, poderoso reorganizador da saúde que alcança camadas muito profundas e sutis da identidade, restaurando e resignificando memórias traumáticas e enfermidades decorrentes da falta de contato qualitativo.  O corpo responde à carícia liberando hormônios reguladores do stress e otimizadores do bem-estar.

Leonardo Boff escreveu:
“carícia é essencial quando se transforma numa atitude, num modo-de-ser que qualifica a pessoa em sua totalidade,  na psiqué,  no pensamento, na vontade, na interioridade, nas relações. 
O órgão da carícia é, fundamentalmente, a mão: a mão que toca, a mão que afaga, a mão que estabelece relação, a mão que acalenta, a mão que traz quietude. Mas a mão é mais que a mão. É a pessoa inteira que através da mão e na mão revela um modo-de-ser carinhoso. A carícia toca o profundo do ser humano, lá onde se situa seu Centro pessoal. Para que a carícia seja verdadeiramente essencial precisamos cultivar o Eu profundo, aquela busca do mais íntimo e verdadeiro em nós e não apenas o ego superficial da consciência sempre cheia de preocupações.”
O CARINHO tem componentes de ludicidade e leveza. Nele, a intenção é de alcançar a porção tenra do ser, a criança interna e mantê-la acolhida, protegida e cuidada.


Os exercícios de encontro, em Biodança, promovem o desenvolvimento consciente do contato humano para que ele chegue à qualidade de carícia. Esta é uma proposta revolucionária. Progressivamente, as danças vão permitindo a abertura de espaços internos antes impossíveis de serem visitados, numa atmosfera de cuidado e natural vinculação com a espécie. Desta maneira o indivíduo vai renascendo num ambiente seguro, movido a vínculos profundos que celebram a vida como o fenômeno mais importante do universo.