segunda-feira, 13 de junho de 2016

BRUXISMO? NEURALGIA? AGRESSIVIDADE REPRIMIDA?



BRUXISMO? NEURALGIA?

CONSIDERAÇÕES SOBRE A ARTICULAÇÃO TEMPOROMANDIBULAR




Todos nós convivemos com nosso corpo sem, na maioria das vezes, sequer percebermos que ele está ali vivo, sentindo e nos informando elementos importantes a serem considerados. Você que está lendo pode observar agora, neste instante como, por exemplo, a planta de seu pé está aí e nem ao menos havia sido percebida até que seu cérebro se concentrasse nela. Portanto, também podemos imaginar que, caso haja alguma informação a nos ser transmitida, ela precisa incomodar ou até doer. Enquanto estivermos lidando com um cisco no olho ou um espinho no dedo, poderemos resolver com simplicidade esta prática de ausência sensível do nosso próprio corpo, essa ausência que privilegia o cérebro.  A questão complica quando as informações são sutis, não as percebemos e, muitas vezes, tomamos caminhos equivocados para sua solução.

Neste momento vou construir algumas considerações sobre a ATM – articulação temporomandibular, a partir da última sessão de Biodança que realizamos no Grupo Primavera nos Dentes .

Esta articulação, com o nome enorme e talvez complicado, é muito nossa conhecida. Ela está ali, onde nossa mandíbula termina e se une ao nosso crânio. Justamente ali onde temos um “parafuso imaginário” que junta as duas estruturas ósseas. Ela  tem a função de controlar a mastigação e, o que na maioria das vezes não sabemos,  está associada à maneira como dosamos e articulamos nossa agressividade. Seus movimentos (abrir, fechar e balançar)são controlados por três músculos: o masseter, o pterigoide e o temporal. Importante saber que os músculos estão no nosso corpo com a função de transformar energia em movimento. Ora, se eles recebem uma carga informando que precisa ser descarregada e não o fazem, onde irá parar esta energia represada?

A partir de agora, divagarei sobre a metafísica desta articulação.

Pesquisadores como Alexander Lowen,  Stanley Keleman, Rudiger Dalke, Evaristo de Miranda, Jean Yves Leloup entre outros, comparam nossa boca a um castelo, a uma fortaleza onde está guardado nosso arsenal de guerra - nossos dentes. A ideia de arsenal pode começar a ser concebida a partir da observação do esmalte dentário que é o material mais resistente e tecido mais mineralizado do corpo humano. O primeiro que é constituído com este perfil, quando ainda somos um feto em formação e o último que desaparece depois que morremos. Portanto, um símbolo de resistência. Os dentes representam a disposição para defender nosso ponto de vista e enfrentar as situações da vida. O termo "agarrar com unhas e dentes" demonstra a disposição em usar a vitalidade, força e agressividade para conseguir um intento, para realizar a própria escolha.  A grande consistência da dentina e do esmalte do dente é um referencial orgânico de firmeza e força que nos impulsiona a agir com garra e determinação.

Alguem consegue imaginar que existem pessoas que travam seu maxilar de tal forma que não conseguem abrir a boca quando tentam relaxar? O que isto poderia significar? Os estudiosos nos levam a pensar que, em casos assim,  podemos avaliar a proporção da raiva reprimida, chegando ao ponto de não permitir o uso dos dentes (reais ou simbólicos) num processo imprescindível à vida. Outras pessoas, ao contrário,  deslocam o maxilar com muita facilidade. Podemos imaginar que estes casos nos falam de tanta raiva reprimida que implica na perda do tônus necessário levando a este controle? Sim, porque o mérito da chamada adptação social implica na repressão aos instintos.  A repressão não é um acordo. É uma interdição diretamente ligada à culpa. Para a maioria das pessoas, a palavra agressividade é assustadora e se confunde com violência. A meritocracia do “bom moço” suprime a expressão saudável da agressividade e o grande perigo reside no risco do seu retorno na forma de uma enfermidade que acabará afetando a comunidade que o individuo tentou preservar. Isto porque, se existe um estímulo enviado a um músculo e um comando inverso inibe a sua expressão, é preciso pensar o que será feito com a carga de energia disponibilizada para um movimento que não aconteceu. Assim, se o desejo primitivo de “morder” não encontrou como se expressar, podemos imaginar que a ATM tenderá a travar-se como uma forma de conter o impulso que precisa ser sustado, ou poderá negar sua tensão, tornando-se hipotônica e inútil.

A doença é um campo de batalha onde a pessoa se encontra com um sintoma e entra em luta com ele, já que não pôde fazer frente à questão originária e expressar sua agressividade. Quando nos referimos a esta articulação, duas enfermidades são nossas principais conhecidas: o Bruxismo e a Neuralgia do Trigêmeo.

O Bruxismo é o famoso  ranger dos dentes, sinônimo reconhecido de agressividade impotente. É um !comer a si mesmo”.  Nele, a pessoa que durante o dia não pode ceder ao desejo de morder ou “rasgar nos dentes”, range os dentes durante a noite quando o sono aparece para livrá-la da ação consciente em seu próprio corpo. Em alguns casos, o Bruxismo manifesta-se diuturnamente, sem que a pessoa possa controlar ou dê-se conta. Entre outras consequências, o ato de ranger os dentes desgasta-os até que percam sua função original: rasgar, furar e triturar.

Além disto, provoca tensões desnecessárias na ATM, gerando desgastes ósseos assustadores que destroem os dentes, cartilaginosos, stress muscular, que podem derivar em Neuralgia – uma patologia do nervo trigêmeo.

O trigêmeo é um nervo triplo responsável pela expressão de delicadas sensações através do rosto. Durante uma crise de neuralgia, as pessoas dão a impressão de querer uivar, gritar e vociferar ao mesmo tempo, como se estivessem prestes a ter um ataque de fúria ou algum outro tipo de ataque aterrorizante. É, ao pé da letra, a perda de controle a partir de uma dor (considerada amais forte do mundo). A pessoa afetada pela neuralgia do trigêmeo sente-se golpeada, e a situação em que se encontra é de fato a de alguém que está sendo esbofeteado pelo destino. Golpes contidos por uma vida reprimida terminam por golpear a própria pessoa em algum momento. Quem sempre se contém e mantém a mesma aparência, deve contar com que a situação se volte contra ela e provoque contragolpes. Este será o preço a pelo mérito do “bonzinho” que resultou de um acordo forçado, muitas vezes premiado.

“O fato de que a chamada forma essencial do sintoma afete com maior freqüência mulheres com mais de 50 anos de idade ajusta-se bem a essa imagem. Em uma sociedade de resultados dominada pelos homens, é mais difícil para as mulheres mostrarem seu verdadeiro rosto e distribuir as agressões que elas realmente não podem engolir. Com medo de serem elas próprias engolidas ou serem postas de lado, elas tendem ao keep-smiling até mesmo nas situações em que internamente têm vontade de urrar. Com a idade mais avançada, quando a pressão se torna insuportável elas, em vez de ter ataques externos de fúria, têm ataques internos de dor que só muito raramente chegam a ser visíveis.” Rudiger Dahlke


Socialmente a prescrição social para a agressividade é muito mais agressiva que ela mesma. Tudo propõe que ela seja colocada para dentro, numa forma macabra de proteger o meio ambiente, como se a pessoa enraivecida não fosse, ela mesma, parte desse ambiente. A medicina apresenta os analgésicos e psicofármacos. Estes últimos restringem a psique que torna-se ainda mais restringida. A  ideia é que a pessoa não chame a atenção para que ninguém fique escandalizado. Enquanto isto, o ser essencial se recolhe e o que resta é uma metáfora do si mesmo, perfeita e pronta para um convívio vazio e estéril. Enquanto isto, cirurgias e obliterações podem aparecer como propostas para resolver a dor. A pergunta é: e a causa?

A maioria das enfermidades conhecidas pelo ser humano nasce da repressão aos instintos, sendo os principais: a agressividade (luta/fuga) e sexualidade. Com isto não defendo a ideia de sairmos pela rua batendo em quem desejarmos e, muito menos, arrastando para o sexo quem não o consinta. Mas não acredito que respeito e o conhecimento de si mesmo aconteça pela dor. Para mim, o que se alcança nesta barganha é o convívio com a raiva e o medo. Ao invés de reprimir nossa agressividade e nossos sentimentos “sombrios”, precisamos experimentá-los. Só assim será possível integrar conscientemente tais aspectos como partes da nossa identidade saudável. A agressividade reprimida apenas serve para alimentar a sombra com a qual teremos de lidar mais tarde quando ela se apresentar sob a forma pervertida de doença. A agressividade integrada é energia e vitalidade a serviço da identidade sem riscos de mansidão inerte ou explosão desmedida.

A Biodança autoriza o contato com destas pulsões instintivas propondo danças yang, danças de conexão com animais sagrados que expressem sua agressividade enquanto energia vital e sustenta um campo de liberdade para que as pessoas possam integrar suas qualidades no sentido de viver bem numa comunidade plural, descobrindo o tônus certo para poder estar junto com o outro, tão necessário à saúde da sua identidade.