sábado, 19 de março de 2016

DAR E RECEBER COLO VERSÃO ADULTO



DAR E RECEBER COLO VERSÃO ADULTO

Sim. Adultos precisam de colo. E muito. E se esse colo for nutracêutico, regado a afetividade, carinho e silencio suficiente para que as batidas do coração sejam ouvidas, vai ficar muito melhor. Ele é um dos movimentos que, quando bem construído, é capaz de restaurar danos produzidos pela brusca supressão das necessidades do bebê, em nome de uma sociedade veloz e organizada por uma objetividade doentia.

O colo de qualidade facilita a dissolução de couraças, reduz a velocidade do tráfego sináptico, leva o indivíduo na direção das suas protovivências e constrói o meio necessário para a entrega de resistências. Neste âmbito vinculado, seguro e acolhedor, o ser humano pode revisitar sua matriz essencial, base da sua identidade.

Dar colo também é muito importante.  O gesto necessário implica em abrir os braços, expor o peito e oferecer-se como um útero temporário para que o outro possa desfrutar dessa dança trazendo sua entrega. É proteger, curar choros antigos e renovar a alegria para que ela dissolva dores atemporais.  É praticar o cuidado, permanecendo na prática do bem direcionado ao outro.

Se dar colo é aconchegar, receber é aconchegar-se. Como nossos antepassados mamíferos, enroscados uns próximos aos outros para minimizar o frio real, também nos aninhamos no colo para aquecer nosso frio simbólico.

Desde a infância aprendemos a não acreditar nos nossos instintos. Aprendemos, isto sim, a validar as fórmulas que vão nos fazer “perfeitos”, na assepsia de um comportamento padrão que falsamente nos garantirá que seremos aceitos no meio e na importância de vencermos o tempo. “Isto é para isto” – nos dizem.  “Consequentemente, não é para aquilo” – e balançamos nossas cabeças. A ansiedade é a tônica dos nossos dias. Se não estamos produzindo bens, algo nos parece errado. Assim, seguimos dividindo, compartimentalizando, fragmentando nossa capacidade de achar, enquanto perdemos tempo procurando lendo mapas que nos foram legados e, a partir desse raciocínio moderno e líquido, acreditamos que colo é uma perda de tempo só para crianças. Desta maneira,  bloqueamos nosso desejo de aconchego em alguém para não parecermos infantilizados ou estar perdendo tempo. 

Eis a sociedade contemporânea: fartamente tecnologizada, potencialmente infeliz. Sabemos hoje o que vai acontecer amanhã, mas não conseguimos identificar o que sentimos. Preservamos o olfato e perdemos o faro.  Aprendemos que tudo que há de mais importante reside no cérebro, encerramos nosso instinto num labirinto e lutamos todos os dias para matá-lo.


A Biodança propõe que façamos as pazes com nossos instintos e, como Picasso desenhou, possamos ser inocentes como uma criança e colocá-los no colo. Isto através de música, movimento e vivências integrativas em grupo. Dar e Receber colo é um dos exercícios dessa teoria de conhecimento humano, criada pelo chileno Rolando Toro Araneda.

segunda-feira, 14 de março de 2016

O CÍRCULO VICIOSO DA DÚVIDA E O BAMBU CHINÊS








A cada dia nos deparamos com uma enorme exigência psicofísica para nos mantermos de pé tanto no sentido estrito quanto no figurado. Vinda de todos os lados, uma pressão gigantesca sinaliza que há um risco no ar e, dentro de nós, o medo, a raiva e a culpa, sentimentos “primos entre si”, iniciam uma roda que promete não parar de girar tão cedo! Trago, então, uma reflexão sobre dois símbolos: o Vestíbulo do Inferno de Dante Alighieri e as Qualidades do Bambu Chinês.

Nesse vestíbulo, habitam os Indecisos. Eles não sabem o que fazer e nem se arriscam a fazer nada. Permanecem reclamando sem servir a ninguém. Querem todos os ganhos de uma vez, principalmente o já usual “não fazer ninguém sofrer”. São os conhecidos “em cima do muro” que, em breve, por não decidirem, serão lançados no próximo círculo, o da Luxúria – onde não vão poder escolher seus prazeres. Desse último rolarão sem alternativa para o círculo da Gula, onde vão pastar o que vier pela frente... e assim por diante num processo de auto-destruição que, em breve, mudará seu foco para culpar os outros pelo seu infortúnio.

Ora, é infantil imaginarmos que nossas ações não provocarão consequências. O reino de Peter Pan só existe nos livros. Mas, de fato, neste vestíbulo estão aprisionadas muitas e muitas pessoas que sofrem dentro dele caminhando no gramado da culpa. E deste vício, felizmente ou não, cada um só pode sair com suas próprias pernas. Assim, imersos na força que mantém este movimento, tontos, é necessária uma boa dose de coragem para romper o sentido infinito e iniciar um novo caminho. Arriscar-se.

Entendo que, encontrando o poro de saída, uma ante-sala aguarda a chegada aos caminhos abertos. Nela, crescendo a partir do chão, um enorme tufo de bambus se projeta para além de um teto que não existe. Aí, neste momento, à beira de trilhar novas estradas, vale lembrar que esta maravilhosa planta leva cinco anos para estruturar suas raízes brotando subterraneamente e, só depois, ela brota. Todo o processo é invisível já que nosso olhar não consegue adentrar a terra. Mas lá está ele se fortalecendo, até romper! Tendo rompido, apoiado em fartos alicerces, no bambu vai crescer até 25 metros de altura.

São sete as verdades do Bambu:

Humildade – ele só permanece de pé porque sabe se curvar diante das tempestades.

Profundidade das raízes

Sentido gregário – ele cresce ao lado dos outros

Desapego – o bambu não cria galhos que possam embaraçá-lo em nada

Respeito – os nós do bambu representam as marcas das adversidades

Vazio – o oco, o vazio de si é de fundamental importância para ouvir a verdadeira voz inetrna e saber para onde ir.

Consciência da direção – ele só cresce para o alto, na direção do sol.

Acho importante que possamos lembrar que nossa coluna vertebral guarda alguma semelhança com o bambu e um dos maiores pavores que podemos ter é de que ela venha a enrijecer.

"É preciso muita fibra para chegar às alturas e, ao mesmo tempo,
muita flexibilidade para se curvar ao chão”.
Nada como podermos dançar livres de círculos que nos aprisionem, antes que os anjos do céu não saibam o que fazer conosco (parafraseando Santo Agostinho).

Em tempos de dúvida, melhor decidir. Inclusive porque, mais adiante, você pode decidir novamente. Sem parar de dançar!

Hilda Nascimento