quarta-feira, 30 de setembro de 2015

CRISE DO VAZIO






Entendo que a pós modernidade, com sua falta de elementos articuladores de percepções e vivências, faz de nós um “aparelho digestivo sem enzimas”, já que confundimos a experiência do viver aqui e agora com o imediatismo, o isolamento social e a desimportância do outro. Ao lado disto, substituímos valores que orientavam nossa existência, por ícones que se esgotam em si mesmos: dinheiro, corpo ideal, drogas, programas de computadores. Desta maneira, o instante vivido é confundido como um desrespeito ao passado e uma irrelevância do futuro. Os seres que derivam deste mal estar são, cada vez mais, limitados em sua capacidade de lidar com o universo simbólico e representacional, tornando-se apáticos e mergulhando no que, atualmente, chamamos de Crise do Vazio. Já não creem em nada alem de si mesmos e acabam achando que, apertando um botão, serão capazes de resolver tudo, sozinhos.

A virtualização nos parece concreta e o distanciamento da alteridade afeta nossa capacidade reflexiva. Como em Otávia e Leônia (cidades citadas em Marco Polo), vivemos cercados de montanhas de lixo ou estamos tão vazios que não conseguimos mais lidar internamente com nada que seja realmente consistente. Perdemos, progressivamente, a capacidade de nos dobrarmos sobre nós mesmos, já que nosso repertório simbólico carece de significação e caminha, dia a dia, para um esvaziamento do seu repertório, arriscando a condição humana. De repente,  não estamos “nem aí”.

O não estar “nem aí” aponta o drama da condição humana na pós modernidade sendo, ao mesmo tempo, uma resposta emblemática que protege o indivíduo do drama da individualidade desnutrida mental e afetivamente. Ele se percebe protegido de si mesmo e dos outros. Assim, não sentir nada, não envolver-se em nada, não posicionar-se, acreditar que pode dar conta de tudo, sozinho, livra o homem de intimar, de arriscar-se junto a sua única possibilidade de saber-se vivo - o outro, confundindo este outro com as imagens e os bens que pode adquirir.
O não questionamento desses novos valores atrofiam a capacidade criativa e simbólica, esvaziando a força das formas, em nome de torná-las livres. Esta falta de contorno, de elementos estruturais de contraposição, geram um vazio representacional que são atolados a todo instante por uma enxurrada de estímulos que confundem a capacidade de pensar com o automatismo de decisões. O imediatismo é a lei. A lei parte de cada um. O Ethos adoecido não oferece, mais, moradia para as almas. E caminhamos em multidões, vagamente iludidos de que estamos acompanhados.

Nesta pasteurização do sentir, na busca da forma sem força, habita uma neutralidade mórbida que traz o “meio termo” como regra do bem viver. Então, os sentimentos intensos tornam-se “independentes” e pertencentes a um script de respostas prontas, sujeitos a gestos, expressões e sons empacotados. Neste formato, sucumbe a dinâmica libertária do Eros e o Ódio,  independente, vai buscar eliminar tudo que causar desconforto, gerando prazer. Temos, assim, uma perigosa substituição do prazer na balança da homeostase dos dias. De repente, o Ódio pode provocar prazer. Neste momento, os grupos antes integradores que, por sua dinâmica orgânica interditavam e elaboravam a destrutividade, passam agora a nutrir o primitivismo e o contato com expressões que não qualificam a vida. Não recalcamos o que nos afasta do outro, não fazemos acordos para bem viver e, hipnotizados pelas teclas e pela liquidez moderna, chegamos a acreditar que a existência pode ser mediada por contl+alt+Del. Tudo isto, por um punhado de “tempero” nos dias...


A Biodança é uma teoria criada a partir da importância do encontro humano.

“O outro é presença que nos confere presença.” Rolando Toro


Assim, seguimos no fluxo e, ao mesmo tempo, na contra mão da era do Vazio, numa empreitada pretensiosa, acreditando na revolução afetiva como estruturadora do tempo vindouro. Validamos todos os sentimentos, todas as implicações e consideramos que é mais valoroso um contato qualquer do que contato nenhum. O ser humano é gregário por natureza. Buscará sua tribo até que possa, nela, sentir-se acolhido. O princípio Biocêntrico é o grande norteador. A vida é o centro do universo – nada mais! Dançar a dança da vida convida a rever os paradigmas da pós modernidade em seu vazio tácito. Definitivamente, não somos sobreviventes e, se vem por aí um novo tempo, que seja fundamentado no encontro humano e na nossa capacidade de promover, enfim,  a grande revolução: a amorosa! Gritamos “Sim!” ao estarmos intensamente “aí”.

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