terça-feira, 26 de maio de 2015

LOWEN E A LOUCURA NOSSA DE CADA DIA





"Para entender plenamente o medo da insanidade que existe em tantas pessoas, precisamos estar conscientes do papel que nossa cultura representa para enlouquecer as pessoas. Vivemos numa cultura hiperativa que superexcita e super estimula todos os que estão expostos a ela. Há movimentos demais, barulho e som demais, coisas demais e sujeira demais. Uma capa recente da revista New York demonstrava um homem atormentado tapando seus ouvidos e gritando: "O barulho está me deixando louco". Podemos sobreviver sem nos tornarmos literalmente insanos, mas para tanto temos de amortecer os sentidos par que não ouçamos o barulho ou vejamos a sujeita ou percebamos o movimento contínuo. Mas uma hiperatividade similar continua nos lares de hoje com seus televisores e aparelhos eletrodomésticos. Nesta cultura, não podemos reduzir a velocidade ou nos acalmar. A hiperatividade é abastecida pela mesma frustração que impulsiona a criança hiperativa - ou seja, a incapacidade de ficar em contato  com o núcleo íntimo e profundo do próprio ser, a alma ou espírito. Nossa cultura é direcionada para o exterior, no sentido de que estamos tentando encontrar o significado da vida em sensações, não em sentimentos; em fazer, não em ser; em possuir coisas, não o próprio self. É louca e nos deixa loucos porque nos dissocia de nossas raízes na natureza, do chão sobre o qual nos apoiamos, da realidade.

Mas acredito que o pior elemento nessa cultura seja o foco excessivo sobre a sexualidade e sua exploração. Somos continuamente expostos a imagens sexuais, que são excitantes mas também frustrantes, pois não há possibilidade de descarga imediata. Essa super estimulação sexual obriga o indivíduo a eliminar seu sentimento sexual para não se dominado ou ficar fora de controle. Mas, como o sentimento é a vida do corpo, o indivíduo neurótico cujos sentimento sexuais foram reprimidos é impelido a atuar (act out) sexualmente em busca de excitação e sentimento. isso geralmente assume a forma de estupro, abuso sexual de crianças ou pornografia. Não conseguimos lidar com esse problema através de sermões ou lições de moral, pois decorre de uma perda de contato com a natureza e com a nossa própria verdadeira natureza - a vida do corpo."

Alexander Lowen - Alegria - pg. 183

terça-feira, 5 de maio de 2015

EXISTE SAÚDE PERFEITA?





A definição de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra-se ultrapassada e difícil de ser redefinida. Isto porque, já não podemos mais compreender este conceito apenas como “a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social”. O tempo passou e a atualidade nos convida a compreender o corpo humano como um complexo indissociado de vários outros corpos, incluindo o social – o que não é é uma tarefa simples.


A modernidade questiona o que poderia ser considerado “perfeito”. A resposta é NADA. Então, a própria definição traz, em si, uma utopia. O ser humano, em suas nuances e expressões, é um organismo vivo de extrema complexidade em todos os seus aspectos e, seu melhor estado é o de equilíbrio dinâmico, nele incluídos os desvios dos considerados eixos padrões.

Há muitos anos, trocamos nossa liberdade por um acordo de segurança e, assim, criamos o que hoje chamamos de civilização. Entretanto, esta permuta nos trouxe uma constante insatisfação que, queiramos ou não, vai manifestar-se no físico. Desta maneira, nos sentirmos tensos, angustiados ou expectantes seriam elementos constitutivos da nossa idéia de saúde. O que devemos apreciar é a maneira como lidamos com estas sensações e reagimos a elas. Nenhum padrão vivo mantém-se rigorosamente equilibrado. Sejam nossos batimentos cardíacos, até nossos reflexos, nossa freqüência respiratória, todos os aspectos que contribuem para percebermos nossa saúde, são dinâmicos. O corpo humano movimenta-se criativamente a cada segundo para gerar novas possibilidades de relacionar-se com o que está acontecendo em si mesmo, no trato com seus semelhantes e com o mundo ao seu redor. Podemos, ainda, imaginar que “não estou sentindo nada” seria indicador de saúde, mas este é um grave equívoco.

Ações de confronto, divergências, expressões de extremo afeto, de alegria esfuziantes, são perfeitamente desejáveis para identificarmos uma pessoa que está realmente viva e lida com o mundo no qual está inserida. Por ser indissociado dos demais aspectos, seu corpo irá somatizar as curvas de percepção que resultarem de suas ações e isto é sinal de saúde, sim! Se você está esperando alguém muito querido ansiosamente, é justo que seu coração bata acelerado e você precise tomar um pouco de água para abrandar a respiração presa no peito. No entanto, esta reação estaria fugindo ao padrão dito normal dos seus batimentos cardíacos.

Assim, não existe saúde perfeita, nem corpo perfeito, nem felicidade perfeita quando nos referimos a um ser humano. Na verdade, a grande perfeição é não ter perfeição alguma. Da mesma forma quando nos referimos a relações interpessoais e à nossa relação com o meio. Como num jogo, estaremos sempre aguardando e lidando com o que vai aparecer e precisar de elaboração.

Podemos observar como é danosa a “Síndrome da Felicidade” ou as “Normopatias” resultantes de uma civilização enferma que preconiza o rosto sorridente e a ausência de problemas como paradigma do bem viver. Somos seres dotados de instinto. Não há como desprezar o conteúdo que habita em nosso cérebro reptiliano, que nos capacita para lutarmos ou fugirmos, para buscarmos guarida, para protegermos nosso território e nossa cria. A excessiva adaptação ao estado intermediário de sentir os dias, anestesia os sentidos. Passamos, então,  a valorizar o “não estou sentindo nada” para não gritarmos, confrontarmos e garantirmos nosso lugar no bloco dos civilizados. Adotamos o sorriso eterno para que não precisemos falar das nossas dores ou dos nossos medos. O preço que algumas pessoas pegam por esta excessiva adaptação, por este disfarce, recai sobre sua vida, tornando-a empobrecida, temerosamente plácida, morna. Dá-se um amortecimento dos planos, dos sonhos e consequentemente a criatividade torna-se inútil (conquistar o quê? Pra quê?). Fica fácil perceber como uma identidade fortalecida para encontros e confrontos é sinal de saúde e integração.

Se olharmos um pouco adiante de nosso próprio corpo, quem estará disposto a revisitar seu trabalho e perceber o quanto respondemos a sua forma de organização somatizando uma excitação que não pode ser revelada senão como uma doença? Sentir azia porque comemos amendoim demais é uma coisa. Engolir sapos cotidianamente no trabalho acreditando que não temos jeito, é outra bem diferente, especialmente porque no segundo exemplo seremos levados a reagir à “azia dos dias” com silêncio e sorrisos, promovendo uma dissociação entre o que pensamos e sentimos. Então, adoecemos e fugimos. O plano somático salva nosso instinto de luta. Ele é amortecido e somos recompensados até com cuidados especiais.

Em Bioética podemos aprender que “qualidade de vida” é algo subjetivo e intrínseco a cada sujeito. A palavra “paciente” começa a ser olhada com alguma desconfiança. O indivíduo é chamado, cada vez mais, a assumir as rédeas de sua própria vida e promover os aspectos que gerem sua saúde. Deixa-se de ser paciente para ser agente.


Acredito que, a maneira mais atual de refletir sobre o conceito de saúde seja compreendendo-o como uma dança. Uma dança de sincronização harmônica entre uma pessoa e sua realidade, considerando-se todas as nuances melódicas e a construção criativa do indivíduo para manter o movimento continuado, integrado e pleno de sentido! Mas... isto aí já é Biodança. E Biodança... não é uma outra história!