domingo, 12 de abril de 2015

O QUE É VITALIDADE?



O QUE É VITALIDADE ?






A vitalidade é um conjunto potencial que abarca o corpo do indivíduo como um todo. Em Biodança este conceito é abordado segundo uma perspectiva sistêmica, resultando de múltiplos fatores que se integram para manter a estabilidade funcional, permitir a expressão genética e conservar a harmonia do sistema vivo, a despeito das modificações do ambiente. É a energia que o individuo possui para enfrentar o mundo e neste conjunto estão compreendidos os instintos de conservação, de fome, de sede, assim como as respostas de luta, de fuga e as funções de regulação da atividade e do repouso. O corpo é o elemento fundamental para a expressão dessa potencialidade enquanto experiência viva e fundamental que dota o indivíduo de singularidade e ancora a sua identidade sobre o nosso planeta dual.

Nascer, é diferente de existir. Existir é o resultado de uma consciência intensificada de si mesmo presente no movimento pleno de significado no aqui e agora. Portanto, podemos compreender que, quando nascemos, estamos vivos mas não nos “sentimos” assim. O que nos leva a tal sensação é o conjunto de experiências vividas que conferem sentido a nossa existência. Viver é, então, uma dança que se define pela manutenção do ato de dançar a vida e do que registramos em nossa memória existencial.

A desconexão com o corpo promove um efeito que Winnicott denominou de despersonalização, levando o indivíduo a sentir que não é real para si mesmo. Isso pode se manifestar de várias formas e com muitas nuances. Com grande freqüência se produz um desalojamento no qual a energia corporal, com todas as suas qualidades expressas em  movimento, colapsa em regiões diferentes desse corpo impedindo o livre fluxo da vitalidade. Em casos assim, há a possibilidade do indivíduo fixar-se em seu trabalho, como expressão da sobrevivência, confundida com ato de viver, numa tentativa ilusória de sentir-se realmente vivo. Em outros casos, ele também pode construir com outra pessoa uma relação parasitária para ter a impressão de estar realmente vivo, projetado numa vitalidade que não é a sua. Isto porque a reprodução de movimentos sem significação própria está distante de ser considerado como saúde vital. Na verdade, não passa de um acordo de sobrevivência, por vezes dificílimo de ser acessado pois, em algum ponto, a pessoa passa a correr o risco de já não reconhecer mais aquele conjunto de gestos como não sendo seu.

Vale entender que manter-se vivo nem sempre é sinal de vitalidade. Às vezes, também, a falta de vitalidade é o único recurso para suportar as vicissitudes e dar ao indivíduo um tempo para recobrar as forças. Neste caso, ela é a melhor expressão possível, e deve ser considerada.

A Biodança atua nutrindo a porção saudável do indivíduo. Em situações de desvitalização, os exercícios propostos levarão as pessoas a experimentarem sensações de prazer e presença, reforçando sua identidade, questionando paradigmas e valores duvidosos. Em algum momento, elas descobrem que não viviam – apenas sobreviviam e não imaginavam que podia haver outro mundo para sentir-se seguro do ato de viver intensamente, incluindo neste ato o poder de enfrentamento das desilusões.  Dá-se, então, o descongelamento dos antigos vestígios de vitalidade colapsados ao longo do tempo, fatais impedimentos do curso da criação do si mesmo, mantenedores do claustro onde ficou encerrada a energia vital . A percepção impressa pela vivência alcança a capacidade de reintegrar-se a cada vez que as vicissitudes acontecem, tornando-se forte inspiração para o enfrentamento dos conflitos, colocando o indivíduo num novo lugar frente a si mesmo e ao mundo.

No acompanhamento do processo evolutivo, percebemos mudanças estruturais na Vitalidade do indivíduo que pratica Biodança. Inicialmente, desenvolve-se uma busca de felicidade que eleva a qualidade das suas escolhas e práticas cotidianas. Em seguida, podemos observar a otimização da sua saúde física, que renova-se a cada instante na prática de autorregulação sistêmica, aumentando sua energia vital. Continuando, notamos que a seletividade passa a fazer parte do seu perfil pessoal, dissolvendo couraças musculares e suprimindo sintomas psicossomáticos que antes sustentavam enfermidades típicas de um estilo de adoecer (e não de viver). Isto porque mudam as escolhas – então muda-se, também, os sintomas. Finalmente, a potencialização da Vitalidade integra o pensar/sentir/agir do indivíduo, elevando sua qualidade existencial.

A experiência de sentir-se realmente vivo que ultrapassa o que as palavras podem alcançar. Neste caso, a arte surge como poderosa aliada, escoadouro por onde essa tensão expressiva pode vazar e ganhar significantes capazes de expressar a sensação de estar vivo. Portanto, faz parte do desenvolvimento de uma Vitalidade harmonizada o desejo de contato com linguagens artísticas e o contato mais profundo com as emoções que elas despertam. Isto porque o fluxo das emoções faz parte da saúde vital do ser humano.

As danças sugeridas pela Linha de Vivência da Vitalidade, na Bidoança, dão voz a áreas do si mesmo silenciadas pelas regras, pelas normas que, em sua selvageria, muitas vezes adestram o indivíduo e castram o que existe nele, de genuíno, em troca da sua aceitação no meio. Silenciado, o indivíduo vê degenerar em si mesmo aquilo que ele tinha de melhor e, com medo de ser segregado, submete-se e “morre” vivo. Dançando ele conecta com sua energia essencial e, carregado da consciência de estar vivo, buscará meios de expressar este imenso potencial.


Portanto, recuperar a potência do ato de viver, em Biodança, não promete a ninguém a tranqüilidade morna de dias sem abismos. Muito ao contrário, viver intensamente convida a sonhar à partir do ato consciente de acordar. Caem os mitos da terra prometida. Existir passa a ser função da habilidade em lidar com a multivalências dos dias, nisto incluindo a nossa própria multivalência em relação ao que consideramos estarmos, realmente, vivos.

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