terça-feira, 23 de dezembro de 2014

LÍQUIDO OU SÓLIDO?









A ordem dos dias chama-se “líquida”.  Entramos em qualquer natureza de novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam, eventualmente, se insinuar com contornos mais atraentes. O ícone de sucesso são os acordos previamente semi-separados. Não dividimos o mesmo espaço, fazemos questão de estabelecer por contrato os momentos de convívio que preservem a sensação de liberdade, evitamos o tédio e os conflitos que qualquer regularidade da vida em comum possa oferecer e estas são as opções que se configuram como uma saída moderna e promissora para evitarmos os desconfortos das antigas relações normais. Criamos, assim,  relações com um nível de comprometimento mais fácil de ser rompido. Isto se assemelha a procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro. E caminhamos na direção do que quer que seja com um medo tácito de sermos deletados.

Insatisfeitos, mas persistentes, continuamos perseguindo a chance de encontrar as parcerias ideais abrindo novos campos de interação. E cresce a  popularidade dos espaços virtuais: muitos são mais visitados que os bares, lojas e outros locais físicos e concretos onde o velho “olho no olho” é o início de um possível, verdadeiro e arriscado encontro. Crescem as redes de interatividade mundiais onde a intimidade pode sempre escapar do risco de um comprometimento, porque nada impede o desligar-se. Para desconectar-se, basta pressionar uma tecla; sem constrangimentos, sem lamúrias e sem prejuízos.

As regras são claras: conversa-se, negocia-se, cumprimenta-se cordialmente, mas sempre evitando maior contato, como dogmatiza essa modernidade leve e solta que assim desfigura a, então, relação congruente da idéia de espaço-tempo de outrora, como no tempo em que a velocidade dependia do esforço humano ou animal. Hoje temos as extensões fisiológicas que abocanham espaços cada vez maiores em cada vez menos tempo, estendem distâncias, encurtam o tempo, expandem a expectativa de vida, mas tornam todo ato desse tempo de locomoção e vivência numa ação instantânea, imediatista, onde a exaustão e desaparecimento do interesse pelo outro também vem neste bojo, a reboque. Contudo, não estamos mais felizes.

Neste Natal, à beira de raiar 2015 espero, inocentemente, que possamos suspirar pela presença do outro cada vez mais próximo e que a palavra “relação” não nos pareça tão antiga e descaracterizada. Com medos, sim, mas com toda coragem!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PALAVRAS E TUMORES

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Em Biodança, todo investimento está voltado para que o indivíduo faça contato profundo com o que está sentido e busque o caminho para expressar estes sentimentos e sensações. Enquanto dançamos, não falamos. Mas o fato de dançarmos nos resgata do silêncio imobilizador. Não procuramos investigar passados e solucionar traumas. Buscamos que a pessoa se aproprie da luz que pode iluminar toda e qualquer sombra, deixando o lugar viciado de vítima da vida para assumir o papel de sujeito, de senhor da sua própria existencia.

As palavras SIM e NÃO são "re-autorizadas". Durante muito tempo, a conformação ao "cale a boca senão..." retirou da maioria das pessoas a prática coerente e simples de sinalizar seus sentimentos. A dança da vida plena de significados fortalece a pessoa para que se perceba como ser dotado de linguagem, de possibilidades de expressão e, se as palavras existem, então precisam ser usadas. Elas instalam o senso de limite, importante elemento da construção de uma identidade saudável. 

Ao mesmo tempo, dançando (e não falando), percebemos que tudo passa, é efêmero, que o apego ao que quer quer seja é sempre um caminho que nos leva ao sofrimento. Neste caso, as palavras que libertam também podem nos sufocar se fazemos delas códigos de aprisionamento do que quer que seja. Paradoxalmente, nossa fala cotidiana retorna repleta de poder, pois não há tempo a perder para comunicar ao mundo nosso desejo de urgente felicidade.

 Assim, transcrevo de Gaiarsa:

"Há milênios, os homens descobriram uma classificação dita fundamental das coisas: as transitórias e as "eternas", permanentes, "seguras".

Na verdade, a distinção tem mais que milênios. Começou com os primeiros balbucios humanos, porque as únicas coisas estáveis do mundo são as palavras, que podemos repetir, sempre iguais e sempre as mesmas, quando e quanto nos apraz. Podemos descansar nas palavras, confiar nas palavras, obter delas a mais profunda e embaladora ilusão de certeza, de segurança, de permanência. A Lei, os Princípios, os Regulamentos... eis a eternidade realizada. Tudo mais muda, caminha, transforma-se, evoluindo.

De outra parte, se a cada momento que abrirmos os olhos, percebermos com clareza todas as diferenças que ocorreram em torno de nós durante este instante, viveremos em pasmo e em perplexidade sem fim. Recém-nascidos a cada momento! Caleidoscópios que se transmutam a cada instante!

Não seria loucura? Algo precisa parecer-nos estável: escolhemos as palavras.

É muito importante matner a ilusão de que as coisas são permanentes. Na verdade, é muito importante transformar, por u m ato de adoração, coias são transitórias quanto as demais em coisas "eternas".

Assim nasce a liturgia. É o nosso medo que nos faz adorar. Nosso prêmio é a ficção de segurança. Pensamos: "nada mudou. Sou sempre eu!"

E se, segundo Rolando Toro, "o contrário da vida não é a morte - é a falta de movimento" , importantíssimos são os poetas que nos oferecem palavras que dançam, pois as demais, fixas e destituídas de trânsitos, muito longe de garantirem nossa existência, declaram que já morremos e nem percebemos...