quarta-feira, 26 de novembro de 2014

TERCEIRA IDADE PODEROSA

TERCEIRA IDADE PODEROSA
(porque “poder” é aquilo que se pode!)

Hilda Nascimento



Sempre que chegam novos participantes ao Grupo Regular de Biodança voltado para a chamada Terceira Idade, observo como perfil básico dessas pessoas: baixa estima, foco de vida nas doenças e limitações do corpo, dificuldade de fazer planos voltados para si mesmo, melancolia como fundamentação da experiência vivida, submissão à juventude de quem está a sua volta, alto nível de preconceitos, isolamento, desconexão com o prazer, foco de vida voltado para o outro, apegos a prêmios após a morte pelo sacrifício de viver, crenças que desqualificam sua sabedoria adquirida no tempo.

A estes aspectos, posso somar como características do tempo sobre o corpo físico: baixa vitalidade, perdas na memória, limitações físicas, dificuldades com a motricidade da fala, dificuldades de conexão entre o pensamento concreto e o simbólico, limitações para traduzir o pensamento em palavras, hiatos na memória.
Estes e outros mais concorrem para uma depressão que a sociedade considera comum ao idoso, quase um acordo tácito com o tempo de vida e a espera do seu esgotamento. Particularmente, acho este endosso criminoso, pois sugere um código de pertencimento que não é real, mas que acaba convencendo os mais vividos oferecendo-lhes miseráveis regalias como: “visitinhas ao vovô tristonho” ou “ajudas esporádicas à vovó tão sozinha”. Alguns ainda se comprazem em presenteá-los sempre com talcos, sabonetes ou lavandas. Certa vez, uma senhora me mostrou uma parte do seu armário cheia de sabonetes e comentou que eles já estavam, até perdendo o cheiro. Todos presenteados pelos seus familiares. Francamente!!!

O que muito impressiona é o processo de transformação desses idosos quando a Biodança entra em suas vidas. 

A primeira coisa que acontece é a saída do lugar de vítima da vida. Boa parte deles levou a maior parte do tempo fazendo coisas (geralmente para os outros) e agora, quando têm tempo de sobra, não conseguem reconectar com o que são. Os exercícios de vitalidade e criatividade chegam, progressivamente, renovando seus movimentos, ativando partes de seus corpos que eles nem imaginavam que poderiam estar, ainda, carregadas de energia, despertando o fogo da vida que mora no seu interior. 

O prazer de viver, nele incluída a sexualidade é outro fator importante na reconexão com a saúde sistêmica, 

“pois o idoso não perde a sua função sexual. A impotência sexual masculina pode ter um componente orgânico (problemas circulatórios e diminuição da sensibilidade na região do pênis, por exemplo), mas em grande parte das vezes em que ocorre, ela é de cunho emocional: por sentir-se velho, por não possuir  mais os atributos sexuais de outrora e por considerar-se não tão viril e atraente para o sexo oposto como antigamente, o idoso torna-se angustiado e depressivo e, conseqüentemente, impotente. As mulheres idosas costumam rejeitar as atividades sexuais em função de, ao longo de suas vidas, não terem sido estimuladas de forma satisfatória por seu(s) companheiro(s), tendo praticado sexo de forma mecânica e não prazerosa, não atingindo, muitas vezes, o orgasmo. É importante salientar que os valores associados à atividade sexual, nesta fase da vida, são diferentes dos jovens: o que importa não é a virilidade, a quantidade de ejaculações ou orgasmos, mas a intimidade, a sensação de aconchego, o afeto, o carinho.” Dra. Olga Ines Tessari

Seus corpos voltam a sentir. A escuta sensível, a estimulação proposta pelas músicas, os movimentos plenos de significado, a qualificação generosa e firme, são elementos valorosos que conferem PODER ao idoso. De repente, o cheiro das maçãs passa a fazer diferença, a temperatura da água do banho... De repente percebem que suas glândulas salivares ativam quando um limão passa na frente dos seus olhos, que o por do sol é maravilhoso todos os dias, que aquela pessoa que vai passando na rua é interessante e que a vida está ali pulsando forte em cada célula do seu corpo.



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Assim que estas pessoas voltam a apropriar-se dos seus “nãos”, os desejos começam a acender o corpo, as roupas começam a ficar mais coloridas, as falas tornam-se mais ricas e precisas e a beleza volta a ser importante. Então apostam em novos perfumes, cortes de cabelo, mudam alguns aspectos do seu vestuário cotidiano, passam a priorizar aquilo que satisfaz a seus sentidos escolhendo aromas, cores e formas. “Qualquer” já não serve mais. 

Outro aspecto que muda substancialmente é o desejo de pertencer a grupos. Mas não os típicos grupos de terceira idade onde algumas instituições se especializam em ensinar crochet e orações. Surge (ou renasce) o desejo de dançar, de falar sobre si mesmo e ser ouvido, de adentrar shoppings, parques, praias, exposições, festas, assumindo uma identidade fortalecida capaz de relacionar-se com os demais a partir de um ponto cheio de amor próprio. Os encontros entre grupos são particularmente nutracêuticos (são nutritivos e terapêuticos ao mesmo tempo), colocando todos juntos pra dançar, estimulando respeito, dignidade e refletindo a vida que há em cada um. Segundo Rolando Toro, criador da Biodança, “o outro é presença que confere presença”. 



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Os planos também mudam. Passam a desejar viagens, festas, até troca de residências e não mais, apenas, economizar para presentear os netos ou sobrinhos. 

Dadas as formações de novas sinapses resultantes dos convites feitos pela Biodança e pelo despertar de capacidades adormecidas, os mais vividos começam a interessar-se pela internet, o que é um extraordinário auxiliar na sua reinserção social. Uma lucidez atualizada começa a nascer. Quando chegam, geralmente trazem consigo o título de incapazes e acreditam piamente que “não conseguem” lidar com o mundo virtual. É fabuloso observar esta modificação! A internet é um excelente auxiliar no desenvolvimento da compreensão simbólica e lhes abre um novo poder de alcance de informações e interações. Logo estão escrevendo e-mails, trocando mensagens pelo whatsapp e utilizando a linguagem apropriada para referir-se a elementos próprios do mundo virtual, atualizando sua forma de estar vivo no mundo, incluindo a mudança do tempo e, especialmente, deixando para trás o estigma da incapacidade.


Sidronia Costa - 90 anos


Com isto tornam-se livres para desenvolver conceitos mais abertos, pois o acesso a novas informações e a um patamar de discussão aberto, irrestrito, passa a exigir outras conexões e resignificações de conceitos até então cristalizados. Não precisam mais ser rígidos em suas opiniões, “artrosados” em suas certezas. Constroem a possibilidade de oxigenar idéias trocando certezas fundamentalistas por espaços abertos de construção do pensamento. Pois “o contrário da vida não é a morte – é a falta de movimento”.

É muito feliz poder acompanhar este processo e ver, a cada dia, a vida renascendo em cada movimento daqueles que, em algum momento, buscavam “qualidade de vida” e passam a construir uma “vida de qualidade”. Não mais “tempo de vida” e sim, “vida no tempo”!

Por estes e mais outros tantos semelhantes motivos, batizamos de SÍRIUS o Grupo de Biodança do Biocentrum específico para “seres mais experientes”. Nome de estrela. Uma espetacular estrela!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

ORGANIZA O NATAL

Organiza o Natal
Carlos Drummond de Andrade




Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.