domingo, 27 de julho de 2014

CORPOS ESTRANHOS

CORPOS ESTRANHOS:
FRANKENSTEIN E O OBJETO ECLÉTICO

(excertos do texto de Marize Malta sob o mesmo título publicado em Corpo - identidades, memórias e subjetividades - Faperj - pg. 167)




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O Frankenstein, quando criado em 1816, por Maru Shelley, era ainda projeto de um corpo imaginado, esperando condições para se fazer corpo concreto, ecleticamente construído.

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Seu monstro representava o triunfo da ciência e a inadaptabilidade desse progresso em um mundo que o poderia aceitar enquanto experiência, mas o rejeitava enquanto imagem. Maru Shelley imaginou um cientista capaz de trazer vida ao monstro e imediatamente o abandonar, relegando aquele corpo estranho à própria sorte, diante da imagem horrenda da sua criação. Porém, em ato de compensação, a autora dotou o monstro de inteligência e sentimentos, criando uma ambivalência entre o humano e o inumano, o bom e o mal, o belo e o feio, dialeticamente dispostos em um único corpo. Assim personificado, Frankenstein tornou-se mensageiro de críticas mordazes no mundo a que seria submetido - o século XIX.

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O corpo artificial reclamava por outras maneiras de se colocar no mundo - um mundo que primava pelo progresso, pela civilidade e que estabelecia regras do bem viver d do bom gosto. Para que esse corpo pudesse se adaptar ao novo mundo ou propor um novo lugar para si, ele precisou inventar um corpo endógeno no desejo e exógeno na aparência - um corpo eclético, que expunha a condição de esquartejamento de tempo e espaço em sua própria estrutura. Tal qual Frankenstein, que fora formado por partes de diferentes seres humanos, o corpo eclético trabalhava com diversas referências de estilos do passado e contornos do presente, de imagens de outras culturas, inclusive exóticas e selvagens, unindo-as em um só corpo.

Os monstros não foram fenômenos do Oitocentos. Desde as primeiras manifestações artísticas, a humanidade deu visibilidade a seus assombros, como que exteriorizando as sensações ligadas ao estranho e sobrenatural. Meio bicho, meio homem, mistura de diferentes espécies animais ou seres mutantes representavam corpos da imaginação, ações intrigantes, físicos de outrem. Os corpos monstruosos falavam de manifestações indesejadas de forma, mas que despertavam curiosidade, vontade de satisfazer desejos por criações originais, instigantes, extraordinárias. Punham à tona a tensão entre os limites, por vezes tênues, entre monstros e humanos.

Etimologicamente, o substantivo monstro é proveniente do latim monstru e está relacionado a "fato prodigioso, advertência dos deuses; tudo que sai do natural, do habitual, do vulgar" (Machado, p. 1531).

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No século XIX, monstro era considerada toda figuração de um ser vivente que modificou (em qualquer gra) as leis ordinárias da natureza. Porém, ele não se completava somente por suas características físicais naturalizantes, mas por ser capaz de agir de modo monstruosos. Para se alcançar o título de monstro era preciso ultrapassar a condição corpórea anormal e demonstra ações,a pensamentos e sentimentos assombrosos. A figura deveria incorporar a monstruosidade, assumir qualidades invisíveis de monstro. Havia muito mais monstros internos, assustadores e hediondos do que uma figura-forma poderia sugerir. Tal situação nos mostra como as verdades se relativizam, pois ser monstro não mais se fundamentava em uma condição física, meramente formal, tida como antítese de um foco dos olhares para criações (em letras, ou imagens ou objetos) estava em pro processo de ajustes, podendo-se fazer enxergar candura em monstros, monstruosidades em beldades, prazer com anomalias. Antes de tudo, havia maneiras diferentes de olhar par ao mundo, não mais fixas nem mononucleares, como nos sugere |Martin Jay, mas dependentes de lugares, tempos, personagens.

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Frankenstein aprendeu o que carecia ao shomens, compreendeu a importância da família, da amizade, e também adquiriu a sensibilidade de apreciar a beleza da natureza. Ele se tornava conscientemente semelhante ao homem, em todos os sentidos, inclusive no que de mais sublieme e monstruoso o ser humano podeia ser capaz de imaginar. O ser humano concreto - biológico, anatômico e orgânico - não9 incorporava necessariamente um ser humano ideal - justo, bondoso, misericordioso, amoroso e sensível. A condição humana não era efeito de uma mera existência corpórea porque não se colocava como condição dada, natural, e sim construída, levando a condição de corpo material à perda da sua valorização exclusivamente natural. O sentido de ser humano se assentava na união entre matéria e antimatéria, de corpo e alma e, portanto, como os objetos ecléticos, reatavam o que antes parecia estar separado, em posições opostas. Mais que isso, aprendia-se que um corpo era químico, biológico, sensório, antropológico, histórico, psicológico, artístico, social, místico e outras configurações, por vezes incoerentes que, em conjunto, sustentavam a coesão de um corpo humano.

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A natureza permanecia como um dos paradigmas que afirmava e negava a humanidade de cada ser.

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Dr,. Frankenstein desafiava a ordem natural das coisas e, por oposição, instaurava o caos. A ciência ameaçava a onipotência do Criador. O mito de Prometeu também ressuscitava. O que antes pertencia à instância do divino estaria ao alcance do humano, desafiando o sagrado. Contudo, essa prepotência em, igualar-se ao divino teve como resposta a punição: em vez de conseguir criar deuses, gerou demônios.

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Em questão de segundos, a beleza que se assentava no campo da imaginação do cientista, dava lugar à monstruosidade em um corpo, símbolo da matéria, do real, do carnal. Aberração, demônio, hediondo, monstro repelente, cão danado, são algumas das qualificações empregadas pelo criador da coisa. O único a enxergar a candura em Frankenstein foi aquele que não podia ver, o velho cego De Lacey, para quem Frankenstein pôde mostrar seu lado humano, belo e sensível. O próprio monstro explicava a reação dos humanos ao olhar sua figura: "Mas um preconceito fatal lhes obscurece os olhos e, onde seria de esperar que eles vissem um amigo solidário e sensível, nada mais lhes aparece do que... um monstro na acepção da palavra" (Shelley, p. 127).

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Contudo, a "criatura eclética" voltou-se contra seus algozes e, vingativamente, através de seus herdeiros, teve sua revanche: em fins do século XX, começou a ser olhada sem o véu do preconceito. O "monstro" já não era tão feio, sua existência fazia sentido. Frankenstein, na época, era uma criatura estranham, dava medo. Hoje, ele já começa a nos parecer familiar. Do mesmo modo, o móvel eclético, tido como hediondo, uma aberração, já não mais ameaça.; Ele nos convida, confortável e decorativamente, a vê-lo como uma outra tradição, da qual somos herdeiros. Essa outra tradição não mais é renegada, mas busca-se compreendê-la, aceitá-la,. entendê-la na sua historicidade. Contemplamos com olhos distanciados essa herança e podemos descobrir que somos mais ligados a ela do que imaginamos. Somos descendentes de Frankenstein.


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