sábado, 8 de fevereiro de 2014

O ENCONTRO NO HIATO - Hilda Nascimento






Sempre nos questionamos sobre o alcance da estabilidade. Algo em nós, humanos, parece  desejar esta ilusão e assim passamos a vida sem apreciarmos a importância dos trânsitos e dos vácuos em nossa existência. Somos crias de Apolo e Dionísio – não de um dos dois. Apolo, o grande construtor, mestre do equilíbrio das formas, senhor da beleza e Dionísio, o intempestivo, destruidor, desestabilizador, expandem e contraem nossa percepção da vida, dão consistência e sensações a nossos corpos e convidam sempre a multiplicidade de expressões.


Difícil existirmos senão por paradoxos. Somos energia, mas energia corporificada. Sabemos que sabemos. E, como se não bastasse, o simples fato de pensarmos que “temos” um corpo já trai a conexão com os fluxos, com a dinâmica fluida e intensa do caos e ordem. Isto porque também não “somos” este corpo. Somos seu movimento pulsante, distante de qualquer permanência, pois tudo que desejamos é ultrapassar nossos modos atuais e isto só se dá a caminho do devir, num jogo de desdobramentos incessantes, numa dança de exaustão do que não mais pode ser. Coisas da nossa capacidade de pensar.


Aqui temos estabelecido um jogo de tensões onde, por um lado, buscamos uma  ordem para existirmos no mundo e, ao mesmo tempo, se nela permanecermos não iremos a lugar algum além do já conhecido. Portanto, romper torna-se premissa para continuar a viver e é assim, alternando estabilização e rupturas que desbravamos as trilhas dos dias, caso o mistério da realização nos encontre plenos de saúde e desejo de felicidade. Nossas sinapses se atualizam na complexidade. Não fora isso, não sei o que seria do nosso precário modo de pensar.


Tais tensões opostas criam uma resistência e nos levam à experimentação de nossos limites. Neste ponto, a consciência de “não agüentar mais” é de extrema importância para que o indivíduo possa ser levado a romper com uma dessas tensões e arrojar-se num novo, num desconhecido que logo precisará ser rompido de novo. Uma sequência infinita de riscos entre instabilidades e eternos rompimentos, vertigens sobre pontes entre paradoxos e perplexidades. Enquanto isto, ansiamos pelo reinado de Apolo e queremos amansar Dionísio...


Artaud nos traz a idéia de um “corpo sem órgãos”. De alguma maneira esta ideia se aproxima do conceito de “vazio” budista, compreendendo-se vazio como vácuos de sentido, espaços incompletos, abertos a preenchimentos, o nada positivo nem negativo, apenas a abertura para novas, desconhecidas e múltiplas ações que forjam um devir sobre o qual não pensamos, desmanchando contornos e criando uma dança nova de novos vazios e instabilidades. Aqui temos o vazio entendido como potência de variação. 


“Ora, este nada, nada é. Não é qualquer coisa, mas alguns, quero dizer, alguns homens.”

Artaud



Um corpo verdadeiramente dançante deve ser percebido mais como potência e intensidade do que como identidade, mais como vácuo do que como forma, mais como vazio do que como um complexo de órgãos. Pois, verdadeiramente, o que ele é não importa. Importa a sua abertura permanente, sua capacidade de silenciar e desidentificar-se. E é neste espaço de abertura que a verdadeira dança acontece, atravessando o corpo pensável com fluxos de vida até então não imagináveis, o que só se dá no hiato da tensão entre a forma e a não forma, numa aposta ininterrupta do que ainda virá a ser.



Portanto, a plenitude não interessa. Interessa a efemeridade. A felicidade, enquanto consciência intensificada de si, corporificada e não corporalizada, propõe o desprendimento do próprio corpo, o abandona e constrói eternas novas configurações. O corpo quer a vida e suas polaridades, o acaso, a alquimia dos opostos que gera experiências (que nos foram ensinadas como “riscos”). A busca é de desertos, abismos, vazios e, assim, novas conexões, novos movimentos e significados que proponham novas relações com desconhecidos sentimentos. O corpo precisa ir além do que conhece como prazer e gozar além do próprio gozo.



A sociedade de consumo reforça o que ela considera “as belas formas”, captura os corpos transformando-os em objetos sociais e trata de ensiná-los a dançar cristalizando acordos, reproduzindo clichês e desgraçando seu verdadeiro movimento. Os indivíduos então, apavorados diante da idéia de não serem reconhecidos no meio ao qual pertencem, tratam de desenvolver mecanismos para “aguentar mais” e assim, manter os mesmos contornos que parecem garantir sua inserção e reconhecimento. Não percebem que, quando mantêm um único e estável corpo, estão condenados a morar nele, como prisioneiros, sem atualizá-lo e, muito provavelmente, terão muita dificuldade em se livrar dele.



Portanto, um corpo e seu movimento tanto mais existem quanto menos existem. E adiante: ele mais existe justo quando não existe, quando alcança o vazio, a atemporalidade, a impermanência, a desidentificação. Vale dizer, este é o território de Dionísio.



A qualidade da resistência nos chega, assim, com uma suprema importância, pois é ela quem vai autorizar o momento da nossa entrega , da nossa rendição para que o trânsito entre o caos e a ordem aconteça. A resistência é o regulador do “eu não aguento mais”.


Esse “não agüentar mais” amplia a potência pois vai nutri-la num substrato mais profundo do ser, instalando novas intensidades e instalando uma nova resistência que fará frente a antigas limitações e abrindo espaços para o novo, autorizando transbordamentos.



Importante observarmos que vivemos um momento homogeneizante, em que rejeitamos o sofrimento e nos recusamos a lidar com a dor, criando uma postura de insensibilidade, de anestesia de sentidos, adotando uma postura cínica e dissimulada rejeitando a conexão com o que nos faz sofrer e alimentando uma atualidade pasteurizada, asséptica e pouco humana. Isto sim é o que o corpo não agüenta mais e, também por isto, tem gerado tantas enfermidades decorrentes do estilo de viver. Nesta prática, o que o corpo pode esgotar é sua capacidade de lidar com as vicissitudes naturais da vida.


Trago o ESGOTAMENTO como resultante da exaustão (quando a resistência chega a seu limite) e ele “limpa” o trajeto  de resistências que podem impedir a geração do novo movimento, seja ele de ordem ou de desordem, levando o indivíduo a ultrapassar a si mesmo abdicando de certezas, abrindo brechas na razão, abandonando significados conhecidos e mergulhando no novo.Assim como num esgoto comum, esgotar-se à partir da exaustão da resistência, à partir do “eu não aguento mais”, traz o deixar para traz o que não serve mais, o que obstrui a passagem do novo que vai gerar a transtase. 


Entendo que “não aguentar mais” é uma proposta de saúde. Um encontro entre Apolo e Dionísio para ampliação do espectro de possibilidades do movimento do ser no mundo.


 “O hiato é a única possibilidade de ligação entre os homens. Um paradoxo duro de suportar, porque todo o resto é construção de pontes incertas.”

Artaud

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