terça-feira, 23 de dezembro de 2014

LÍQUIDO OU SÓLIDO?









A ordem dos dias chama-se “líquida”.  Entramos em qualquer natureza de novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam, eventualmente, se insinuar com contornos mais atraentes. O ícone de sucesso são os acordos previamente semi-separados. Não dividimos o mesmo espaço, fazemos questão de estabelecer por contrato os momentos de convívio que preservem a sensação de liberdade, evitamos o tédio e os conflitos que qualquer regularidade da vida em comum possa oferecer e estas são as opções que se configuram como uma saída moderna e promissora para evitarmos os desconfortos das antigas relações normais. Criamos, assim,  relações com um nível de comprometimento mais fácil de ser rompido. Isto se assemelha a procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro. E caminhamos na direção do que quer que seja com um medo tácito de sermos deletados.

Insatisfeitos, mas persistentes, continuamos perseguindo a chance de encontrar as parcerias ideais abrindo novos campos de interação. E cresce a  popularidade dos espaços virtuais: muitos são mais visitados que os bares, lojas e outros locais físicos e concretos onde o velho “olho no olho” é o início de um possível, verdadeiro e arriscado encontro. Crescem as redes de interatividade mundiais onde a intimidade pode sempre escapar do risco de um comprometimento, porque nada impede o desligar-se. Para desconectar-se, basta pressionar uma tecla; sem constrangimentos, sem lamúrias e sem prejuízos.

As regras são claras: conversa-se, negocia-se, cumprimenta-se cordialmente, mas sempre evitando maior contato, como dogmatiza essa modernidade leve e solta que assim desfigura a, então, relação congruente da idéia de espaço-tempo de outrora, como no tempo em que a velocidade dependia do esforço humano ou animal. Hoje temos as extensões fisiológicas que abocanham espaços cada vez maiores em cada vez menos tempo, estendem distâncias, encurtam o tempo, expandem a expectativa de vida, mas tornam todo ato desse tempo de locomoção e vivência numa ação instantânea, imediatista, onde a exaustão e desaparecimento do interesse pelo outro também vem neste bojo, a reboque. Contudo, não estamos mais felizes.

Neste Natal, à beira de raiar 2015 espero, inocentemente, que possamos suspirar pela presença do outro cada vez mais próximo e que a palavra “relação” não nos pareça tão antiga e descaracterizada. Com medos, sim, mas com toda coragem!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PALAVRAS E TUMORES



Em Biodança, todo investimento está voltado para que o indivíduo faça contato profundo com o que está sentido e busque o caminho para expressar estes sentimentos e sensações. Enquanto dançamos, não falamos. Mas o fato de dançarmos nos resgata do silêncio imobilizador. Não procuramos investigar passados e solucionar traumas. Buscamos que a pessoa se aproprie da luz que pode iluminar toda e qualquer sombra, deixando o lugar viciado de vítima da vida para assumir o papel de sujeito, de senhor da sua própria existencia.

As palavras SIM e NÃO são "re-autorizadas". Durante muito tempo, a conformação ao "cale a boca senão..." retirou da maioria das pessoas a prática coerente e simples de sinalizar seus sentimentos. A dança da vida plena de significados fortalece a pessoa para que se perceba como ser dotado de linguagem, de possibilidades de expressão e, se as palavras existem, então precisam ser usadas. Elas instalam o senso de limite, importante elemento da construção de uma identidade saudável. 

Ao mesmo tempo, dançando (e não falando), percebemos que tudo passa, é efêmero, que o apego ao que quer quer seja é sempre um caminho que nos leva ao sofrimento. Neste caso, as palavras que libertam também podem nos sufocar se fazemos delas códigos de aprisionamento do que quer que seja. Paradoxalmente, nossa fala cotidiana retorna repleta de poder, pois não há tempo a perder para comunicar ao mundo nosso desejo de urgente felicidade.

 Assim, transcrevo de Gaiarsa:

"Há milênios, os homens descobriram uma classificação dita fundamental das coisas: as transitórias e as "eternas", permanentes, "seguras".

Na verdade, a distinção tem mais que milênios. Começou com os primeiros balbucios humanos, porque as únicas coisas estáveis do mundo são as palavras, que podemos repetir, sempre iguais e sempre as mesmas, quando e quanto nos apraz. Podemos descansar nas palavras, confiar nas palavras, obter delas a mais profunda e embaladora ilusão de certeza, de segurança, de permanência. A Lei, os Princípios, os Regulamentos... eis a eternidade realizada. Tudo mais muda, caminha, transforma-se, evoluindo.

De outra parte, se a cada momento que abrirmos os olhos, percebermos com clareza todas as diferenças que ocorreram em torno de nós durante este instante, viveremos em pasmo e em perplexidade sem fim. Recém-nascidos a cada momento! Caleidoscópios que se transmutam a cada instante!

Não seria loucura? Algo precisa parecer-nos estável: escolhemos as palavras.

É muito importante matner a ilusão de que as coisas são permanentes. Na verdade, é muito importante transformar, por u m ato de adoração, coias são transitórias quanto as demais em coisas "eternas".

Assim nasce a liturgia. É o nosso medo que nos faz adorar. Nosso prêmio é a ficção de segurança. Pensamos: "nada mudou. Sou sempre eu!"

E se, segundo Rolando Toro, "o contrário da vida não é a morte - é a falta de movimento" , importantíssimos são os poetas que nos oferecem palavras que dançam, pois as demais, fixas e destituídas de trânsitos, muito longe de garantirem nossa existência, declaram que já morremos e nem percebemos...




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

TERCEIRA IDADE PODEROSA

TERCEIRA IDADE PODEROSA
(porque “poder” é aquilo que se pode!)

Hilda Nascimento



Sempre que chegam novos participantes ao Grupo Regular de Biodança voltado para a chamada Terceira Idade, observo como perfil básico dessas pessoas: baixa estima, foco de vida nas doenças e limitações do corpo, dificuldade de fazer planos voltados para si mesmo, melancolia como fundamentação da experiência vivida, submissão à juventude de quem está a sua volta, alto nível de preconceitos, isolamento, desconexão com o prazer, foco de vida voltado para o outro, apegos a prêmios após a morte pelo sacrifício de viver, crenças que desqualificam sua sabedoria adquirida no tempo.

A estes aspectos, posso somar como características do tempo sobre o corpo físico: baixa vitalidade, perdas na memória, limitações físicas, dificuldades com a motricidade da fala, dificuldades de conexão entre o pensamento concreto e o simbólico, limitações para traduzir o pensamento em palavras, hiatos na memória.
Estes e outros mais concorrem para uma depressão que a sociedade considera comum ao idoso, quase um acordo tácito com o tempo de vida e a espera do seu esgotamento. Particularmente, acho este endosso criminoso, pois sugere um código de pertencimento que não é real, mas que acaba convencendo os mais vividos oferecendo-lhes miseráveis regalias como: “visitinhas ao vovô tristonho” ou “ajudas esporádicas à vovó tão sozinha”. Alguns ainda se comprazem em presenteá-los sempre com talcos, sabonetes ou lavandas. Certa vez, uma senhora me mostrou uma parte do seu armário cheia de sabonetes e comentou que eles já estavam, até perdendo o cheiro. Todos presenteados pelos seus familiares. Francamente!!!

O que muito impressiona é o processo de transformação desses idosos quando a Biodança entra em suas vidas. 

A primeira coisa que acontece é a saída do lugar de vítima da vida. Boa parte deles levou a maior parte do tempo fazendo coisas (geralmente para os outros) e agora, quando têm tempo de sobra, não conseguem reconectar com o que são. Os exercícios de vitalidade e criatividade chegam, progressivamente, renovando seus movimentos, ativando partes de seus corpos que eles nem imaginavam que poderiam estar, ainda, carregadas de energia, despertando o fogo da vida que mora no seu interior. 

O prazer de viver, nele incluída a sexualidade é outro fator importante na reconexão com a saúde sistêmica, 

“pois o idoso não perde a sua função sexual. A impotência sexual masculina pode ter um componente orgânico (problemas circulatórios e diminuição da sensibilidade na região do pênis, por exemplo), mas em grande parte das vezes em que ocorre, ela é de cunho emocional: por sentir-se velho, por não possuir  mais os atributos sexuais de outrora e por considerar-se não tão viril e atraente para o sexo oposto como antigamente, o idoso torna-se angustiado e depressivo e, conseqüentemente, impotente. As mulheres idosas costumam rejeitar as atividades sexuais em função de, ao longo de suas vidas, não terem sido estimuladas de forma satisfatória por seu(s) companheiro(s), tendo praticado sexo de forma mecânica e não prazerosa, não atingindo, muitas vezes, o orgasmo. É importante salientar que os valores associados à atividade sexual, nesta fase da vida, são diferentes dos jovens: o que importa não é a virilidade, a quantidade de ejaculações ou orgasmos, mas a intimidade, a sensação de aconchego, o afeto, o carinho.” Dra. Olga Ines Tessari

Seus corpos voltam a sentir. A escuta sensível, a estimulação proposta pelas músicas, os movimentos plenos de significado, a qualificação generosa e firme, são elementos valorosos que conferem PODER ao idoso. De repente, o cheiro das maçãs passa a fazer diferença, a temperatura da água do banho... De repente percebem que suas glândulas salivares ativam quando um limão passa na frente dos seus olhos, que o por do sol é maravilhoso todos os dias, que aquela pessoa que vai passando na rua é interessante e que a vida está ali pulsando forte em cada célula do seu corpo.







Assim que estas pessoas voltam a apropriar-se dos seus “nãos”, os desejos começam a acender o corpo, as roupas começam a ficar mais coloridas, as falas tornam-se mais ricas e precisas e a beleza volta a ser importante. Então apostam em novos perfumes, cortes de cabelo, mudam alguns aspectos do seu vestuário cotidiano, passam a priorizar aquilo que satisfaz a seus sentidos escolhendo aromas, cores e formas. “Qualquer” já não serve mais. 

Outro aspecto que muda substancialmente é o desejo de pertencer a grupos. Mas não os típicos grupos de terceira idade onde algumas instituições se especializam em ensinar crochet e orações. Surge (ou renasce) o desejo de dançar, de falar sobre si mesmo e ser ouvido, de adentrar shoppings, parques, praias, exposições, festas, assumindo uma identidade fortalecida capaz de relacionar-se com os demais a partir de um ponto cheio de amor próprio. Os encontros entre grupos são particularmente nutracêuticos (são nutritivos e terapêuticos ao mesmo tempo), colocando todos juntos pra dançar, estimulando respeito, dignidade e refletindo a vida que há em cada um. Segundo Rolando Toro, criador da Biodança, “o outro é presença que confere presença”. 





Os planos também mudam. Passam a desejar viagens, festas, até troca de residências e não mais, apenas, economizar para presentear os netos ou sobrinhos. 

Dadas as formações de novas sinapses resultantes dos convites feitos pela Biodança e pelo despertar de capacidades adormecidas, os mais vividos começam a interessar-se pela internet, o que é um extraordinário auxiliar na sua reinserção social. Uma lucidez atualizada começa a nascer. Quando chegam, geralmente trazem consigo o título de incapazes e acreditam piamente que “não conseguem” lidar com o mundo virtual. É fabuloso observar esta modificação! A internet é um excelente auxiliar no desenvolvimento da compreensão simbólica e lhes abre um novo poder de alcance de informações e interações. Logo estão escrevendo e-mails, trocando mensagens pelo whatsapp e utilizando a linguagem apropriada para referir-se a elementos próprios do mundo virtual, atualizando sua forma de estar vivo no mundo, incluindo a mudança do tempo e, especialmente, deixando para trás o estigma da incapacidade.


Sidronia Costa - 90 anos


Com isto tornam-se livres para desenvolver conceitos mais abertos, pois o acesso a novas informações e a um patamar de discussão aberto, irrestrito, passa a exigir outras conexões e resignificações de conceitos até então cristalizados. Não precisam mais ser rígidos em suas opiniões, “artrosados” em suas certezas. Constroem a possibilidade de oxigenar idéias trocando certezas fundamentalistas por espaços abertos de construção do pensamento. Pois “o contrário da vida não é a morte – é a falta de movimento”.

É muito feliz poder acompanhar este processo e ver, a cada dia, a vida renascendo em cada movimento daqueles que, em algum momento, buscavam “qualidade de vida” e passam a construir uma “vida de qualidade”. Não mais “tempo de vida” e sim, “vida no tempo”!

Por estes e mais outros tantos semelhantes motivos, batizamos de SÍRIUS o Grupo de Biodança do Biocentrum específico para “seres mais experientes”. Nome de estrela. Uma espetacular estrela!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

ORGANIZA O NATAL

Organiza o Natal
Carlos Drummond de Andrade




Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

SÍNDROME DE PÂNICO







Ultimamente temos ouvido, com muita freqüência, um bom número de pessoas nos dizerem que estão com Pânico. Assim, referem-se a uma Síndrome que, em Biodança, consideramos como Enfermidade da Civilização, ou seja, uma enfermidade resultante do estilo de adoecer – e não de viver.

O Transtorno do Pânico é definido principalmente a partir dos sintomas físicos, como palpitação, dores torácicas, sensação de asfixia e secundariamente pela sensação eminente de morte, medo de enlouquecer ou perder o controle. Este conjunto não pode ser olhado de forma reducionista, pois assim confundiríamos qualquer manifestação de ansiedade e outros desconfortos.

Boa parte dessas pessoas têm entre 21 e 40 anos e encontram-se na plenitude de suas vidas profissionais. O perfil delas costuma apresentar aspectos em comum: geralmente são pessoas extremamente produtivas profissionalmente, costumam assumir uma carga excessiva de responsabilidades e afazeres, são bastantes exigentes consigo mesmos, não convivem bem com erros ou imprevistos, têm tendência a se preocuparem excessivamente com problemas cotidianos, são muito criativas, perfeccionistas, têm excessiva necessidade de estar no controle e de aprovação, constroem auto-expectativas extremamente altas, pensamento rígido, são competentes e confiáveis, costumam reprimir alguns ou todos os sentimentos chamados negativos (os mais comuns são, o orgulho e a irritação), têm tendência a ignorar as necessidades físicas do corpo, entre outras. Essa forma de ser acaba por predispor estas pessoas a situações de stress acentuado, fato este que pode levar ao aumento intenso da atividade de determinadas regiões do cérebro desencadeando assim um desequilíbrio bioquímico e consequentemente o aparecimento do transtorno.

Para aqueles, entretanto, que valorizam a subjetividade, o que se passa em um sujeito que porta em seu cérebro neurônios, sinapses e neurotransmissores e que apresenta os sintomas de Transtorno do Pânico, sabe que esta enfermidade vai muito além de um simples desequilíbrio químico. Segundo Moreno (Psicodrama), a ansiedade está ligada à latência na expressão da espontaneidade ainda contida e que não pôde exercer seu papel transformador. Para Freud e Lacan também a angústia está intimamente ligada à expressão dos desejos. 

É  gratificante observar a intensa transformação pessoal que costuma suceder as crises de pânico, quando as emoções antes dissociadas vão ganhando significado como expressão do sujeito. Mas este movimento requer forte determinação e acompanhamento competente.

A síndrome do pânico não é um transtorno que surge “do nada” na vida de alguém. Na verdade, esse medo está escondido em todas as pessoas desde a infância, mas um dia “resolve” se apresentar e pegá-las de surpresa... Se você for um desses “premiados” ou não, é bom conhecer a causa desse transtorno e como se deve lidar com ele.

Em Biodança, todas as danças convidam à livre expressão. Colocar pra fora seus sentimentos com movimentos plenos de significado modifica padrões cristalizados, restaura o equilíbrio sistêmico do corpo e integra o pensar/sentir/agir restabelecendo os fluxos químicos adequados a cada situação. A modificação de padrões viciosos de viver é recomendação fundamental para quem deseja restabelecer a saúde da sua vida como um todo, pois não há como recuperar tempo de vida perdido, mas há como agir profilaticamente para que a vida que se vive seja cheia de significado e saúde.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

CATRINA, AMOR E MORTE






A Catrina é um símbolo da cultura popular mexicana. Ela é a representação do esqueleto de uma dama da alta sociedade de uma forma humorística, sendo uma das figuras mais populares da Festa do Dia dos Mortos no México, junto às Caveiras Mexicanas, também chamadas de Sugar Skulls (caveiras de açúcar).
Este nome é uma variante feminina da palavra Catrín ou Catarina, no português. A sua característica marcante, normalmente, é uma mulher usando um chapéu, como distintivo da alta sociedade do início do século XX, mas existem outras releituras com cabelo solto ou com flores.

Originalmente, a utilização do chapéu era para lembrar que as diferenças sociais não significam nada perante a morte. A Catrina é, então, um símbolo de igualdade e um convite ao bom humor e reflexão sobre as coisas realmente importantes na vida.

Trago, aqui, a imagem desta Catrina queme foi presenteada por um grande amigo, para que possa propor uma brevíssima reflexão sobre este assunto pavoroso para a maioria das pessoas: a morte.

A palavra morte tem sua origen no latin “mors”, “mortis” e significa fim da vida, término da ação de viver, separação do corpo e da alma, desaparecimento, aniquilamento, destruição.

Ao mesmo tempo, a palavra AMOR (também derivada de “mors”, “mortis”) em latin significa “sem morte”.
Tereza Vazquez, em sua monografia de titulação como Facilitadora de Biodança conclui a palavra “amor” como sinônimo de “sem limites, sem destruição, sem aniquilamento, sem separação, sugerindo infinitude. E “amortizar” como o resgate da escravidão a que fomos submetidos quando começamos a separar o sagrado do profano.

A mim, parece especialmente sugestivo que "morte" e "amor" partam do mesmo radical latino... Se são assim tão próximas, de onde vem, de fato, nosso pavor em falarmos sobre o primeiro e, ao mesmo tempo, vivermos brandando o sagundo, a ponto de desgastá-lo enquanto sonoridade e conceito?

A Catrina, em sua esquelética elegância, é um convite para revisitarmos nosso estilo de viver que, na maioria das vezes, é um estilo de adoecer e antecipar a morte não como fenômeno natural da existência, mas como cessação de todo movimento pleno de significação.  

A Biodança enquanto “poética do encontro humano” renova, a cada sessão, o convite para a experiência a-morosa no aqui e agora como a grande subversão que podemos aplicar sobre um cotidiano que, tendo consumido quase tudo que está vivo, agora exibe os ossos para decidirmos o que vamos fazer com eles. É nas rodas, em frente ao outro, que revisitamos nosso estado humano de sermos gente e renovamos nosso compromisso de manter a vida como o que há de mais importante em todo universo. A isto chamamos Princípio Biocêntrico.

domingo, 27 de julho de 2014

CORPOS ESTRANHOS

CORPOS ESTRANHOS:
FRANKENSTEIN E O OBJETO ECLÉTICO

(excertos do texto de Marize Malta sob o mesmo título publicado em Corpo - identidades, memórias e subjetividades - Faperj - pg. 167)




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O Frankenstein, quando criado em 1816, por Maru Shelley, era ainda projeto de um corpo imaginado, esperando condições para se fazer corpo concreto, ecleticamente construído.

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Seu monstro representava o triunfo da ciência e a inadaptabilidade desse progresso em um mundo que o poderia aceitar enquanto experiência, mas o rejeitava enquanto imagem. Maru Shelley imaginou um cientista capaz de trazer vida ao monstro e imediatamente o abandonar, relegando aquele corpo estranho à própria sorte, diante da imagem horrenda da sua criação. Porém, em ato de compensação, a autora dotou o monstro de inteligência e sentimentos, criando uma ambivalência entre o humano e o inumano, o bom e o mal, o belo e o feio, dialeticamente dispostos em um único corpo. Assim personificado, Frankenstein tornou-se mensageiro de críticas mordazes no mundo a que seria submetido - o século XIX.

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O corpo artificial reclamava por outras maneiras de se colocar no mundo - um mundo que primava pelo progresso, pela civilidade e que estabelecia regras do bem viver d do bom gosto. Para que esse corpo pudesse se adaptar ao novo mundo ou propor um novo lugar para si, ele precisou inventar um corpo endógeno no desejo e exógeno na aparência - um corpo eclético, que expunha a condição de esquartejamento de tempo e espaço em sua própria estrutura. Tal qual Frankenstein, que fora formado por partes de diferentes seres humanos, o corpo eclético trabalhava com diversas referências de estilos do passado e contornos do presente, de imagens de outras culturas, inclusive exóticas e selvagens, unindo-as em um só corpo.

Os monstros não foram fenômenos do Oitocentos. Desde as primeiras manifestações artísticas, a humanidade deu visibilidade a seus assombros, como que exteriorizando as sensações ligadas ao estranho e sobrenatural. Meio bicho, meio homem, mistura de diferentes espécies animais ou seres mutantes representavam corpos da imaginação, ações intrigantes, físicos de outrem. Os corpos monstruosos falavam de manifestações indesejadas de forma, mas que despertavam curiosidade, vontade de satisfazer desejos por criações originais, instigantes, extraordinárias. Punham à tona a tensão entre os limites, por vezes tênues, entre monstros e humanos.

Etimologicamente, o substantivo monstro é proveniente do latim monstru e está relacionado a "fato prodigioso, advertência dos deuses; tudo que sai do natural, do habitual, do vulgar" (Machado, p. 1531).

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No século XIX, monstro era considerada toda figuração de um ser vivente que modificou (em qualquer gra) as leis ordinárias da natureza. Porém, ele não se completava somente por suas características físicais naturalizantes, mas por ser capaz de agir de modo monstruosos. Para se alcançar o título de monstro era preciso ultrapassar a condição corpórea anormal e demonstra ações,a pensamentos e sentimentos assombrosos. A figura deveria incorporar a monstruosidade, assumir qualidades invisíveis de monstro. Havia muito mais monstros internos, assustadores e hediondos do que uma figura-forma poderia sugerir. Tal situação nos mostra como as verdades se relativizam, pois ser monstro não mais se fundamentava em uma condição física, meramente formal, tida como antítese de um foco dos olhares para criações (em letras, ou imagens ou objetos) estava em pro processo de ajustes, podendo-se fazer enxergar candura em monstros, monstruosidades em beldades, prazer com anomalias. Antes de tudo, havia maneiras diferentes de olhar par ao mundo, não mais fixas nem mononucleares, como nos sugere |Martin Jay, mas dependentes de lugares, tempos, personagens.

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Frankenstein aprendeu o que carecia ao shomens, compreendeu a importância da família, da amizade, e também adquiriu a sensibilidade de apreciar a beleza da natureza. Ele se tornava conscientemente semelhante ao homem, em todos os sentidos, inclusive no que de mais sublieme e monstruoso o ser humano podeia ser capaz de imaginar. O ser humano concreto - biológico, anatômico e orgânico - não9 incorporava necessariamente um ser humano ideal - justo, bondoso, misericordioso, amoroso e sensível. A condição humana não era efeito de uma mera existência corpórea porque não se colocava como condição dada, natural, e sim construída, levando a condição de corpo material à perda da sua valorização exclusivamente natural. O sentido de ser humano se assentava na união entre matéria e antimatéria, de corpo e alma e, portanto, como os objetos ecléticos, reatavam o que antes parecia estar separado, em posições opostas. Mais que isso, aprendia-se que um corpo era químico, biológico, sensório, antropológico, histórico, psicológico, artístico, social, místico e outras configurações, por vezes incoerentes que, em conjunto, sustentavam a coesão de um corpo humano.

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A natureza permanecia como um dos paradigmas que afirmava e negava a humanidade de cada ser.

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Dr,. Frankenstein desafiava a ordem natural das coisas e, por oposição, instaurava o caos. A ciência ameaçava a onipotência do Criador. O mito de Prometeu também ressuscitava. O que antes pertencia à instância do divino estaria ao alcance do humano, desafiando o sagrado. Contudo, essa prepotência em, igualar-se ao divino teve como resposta a punição: em vez de conseguir criar deuses, gerou demônios.

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Em questão de segundos, a beleza que se assentava no campo da imaginação do cientista, dava lugar à monstruosidade em um corpo, símbolo da matéria, do real, do carnal. Aberração, demônio, hediondo, monstro repelente, cão danado, são algumas das qualificações empregadas pelo criador da coisa. O único a enxergar a candura em Frankenstein foi aquele que não podia ver, o velho cego De Lacey, para quem Frankenstein pôde mostrar seu lado humano, belo e sensível. O próprio monstro explicava a reação dos humanos ao olhar sua figura: "Mas um preconceito fatal lhes obscurece os olhos e, onde seria de esperar que eles vissem um amigo solidário e sensível, nada mais lhes aparece do que... um monstro na acepção da palavra" (Shelley, p. 127).

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Contudo, a "criatura eclética" voltou-se contra seus algozes e, vingativamente, através de seus herdeiros, teve sua revanche: em fins do século XX, começou a ser olhada sem o véu do preconceito. O "monstro" já não era tão feio, sua existência fazia sentido. Frankenstein, na época, era uma criatura estranham, dava medo. Hoje, ele já começa a nos parecer familiar. Do mesmo modo, o móvel eclético, tido como hediondo, uma aberração, já não mais ameaça.; Ele nos convida, confortável e decorativamente, a vê-lo como uma outra tradição, da qual somos herdeiros. Essa outra tradição não mais é renegada, mas busca-se compreendê-la, aceitá-la,. entendê-la na sua historicidade. Contemplamos com olhos distanciados essa herança e podemos descobrir que somos mais ligados a ela do que imaginamos. Somos descendentes de Frankenstein.