domingo, 22 de dezembro de 2013





SOCIEDADE ANÔNIMA

Hilda Nascimento – livre escrita
Citações de Ignácio de Loyola Brandão





Não dá pra dormir assim, como todos os dias, como se nada tivesse acontecido. Realmente, hoje “deu nos limites”! Portanto,  aqui estão os dedos dançando o pensamento sobre o teclado, uma dança bêbada feérica num hoje quase amanhã. Quem sabe, neste hiato entre os dias algum sentido apareça.


“- A qual distrito devo me dirigir?

- Ao noventa e oito.

- Está bem. Dê-me a notificação.

- Que notificação?

- De que os senhores estiveram aqui.

- Mas não estivemos aqui.

- Não estiveram? Mas ainda estão.

- Não estamos. O senhor nunca nos viu.”



Os trechos que vão aparecer do lado direito não são meras citações. São recortes de uma adaptação do livro As Cadeiras Proibidas, de Ignácio de Loyola Brandão, que levamos ao teatro há muitos anos atrás. Leandro, Manuela, Juliana, Carol, Ricardo, eu... um bando! Nome do espetáculo: Sociedade Anônima. Naquela época consideramos o texto uma “fantasia absurda”. Tanto ele quanto o excelente Não Verás País Nenhum, do mesmo autor (em primeira pessoa, Paulinha). 


O significado da palavra absurdo varia um pouco entre a linguagem comum, a filosofia, a lógica e o existencialismo. Mas, em síntese, vinda do latim como absurdus, não há como afastar seu significado muito além do sentido de um desconforto.E foi pelo desconforto da platéia que nosso espetáculo moveu o que moveu. Lembro do alarido das entradas em contraponto com o silêncio do momento em que deixavam o teatro.


Mas onde será mesmo que eu vou chegar com essa “escrevência” toda?



“- Então, que motivo terei para me apresentar amanhã no distrito?

- O senhor se apresenta como voluntário, levando a cadeira.

- E se eu não me apresentar?

- Voltaremos aqui. Ou melhor: viremos aqui  mas não estaremos aqui. Não sei se o senhor compreende.”



Hoje fui assistir Margareth Menezes no TCA. A cantora, em si, dispensa detalhes. O show algo espetacular, uma banda maravilhosa, casa cheia, iluminação repleta de detalhes, figurino precioso – tudo de melhor. Então, na minha frente sentaram duas pessoas que nem levantaram os olhos para o palco: pegaram seus celulares e começaram a digitar freneticamente. Chegaram juntas mas estavam em “silêncio interpessoal presentificado” (rsrs). Comunicavam-se com quem não estava ali e não trocavam palavra nenhuma entre si. Assim que os primeiros acordes soaram e a cantora entrou em cena, flashes das máquinas começaram a espocar no ar. Um deles, atrás da minha orelha (absurdo?) fez com que eu me virasse algumas vezes com ares pouco amigáveis. Objetivo geral? Postar no face. Levar o show para onde ele não estava (em tempo real) e, ao mesmo tempo, trazer quem não estava para estar. Mas... como faço pra compreender um teatro como o TCA cheio de mini telas filmando sem parar ou fotografando e uma sensação real de que boa parte daquelas pessoas estavam ali e não estavam? E ainda: que uma parte da platéia não estava ali e estava? Isto deve ser contável?


“- Não temos encontrado entendimento. Ainda ontem um homem aqui do andar de baixo me disse que isto não tem lógica. Que eu não podia não estar, estando. Então eu disse: pois estou e não estou.”


No meio de uma música meu vizinho de poltrona atendeu ao celular e conversou alguns detalhes de um trabalho que ele iria fazer amanhã com uma senhora que ele insistia em pedir que ficasse tranqüila. 


Uma perguntinha, antes que eu esqueça: onde estão as pessoas? Aquelas antigas – que estavam estando? Será isto, então, a grande era imanente e transcendente? E... se cortar macarrão é gafe, estar e não estar não é? Eu me tornei absurda?


Bem. Absurdo pode ser algo que aponte contra o senso comum. Se a maioria das pessoas se comporta assim, então não se trata de absurdo. Os filósofos falam de absurdo como algo que não tem sentido. A maioria das pessoas não acha sentido em estar numa mesa simplesmente conversando com alguém. Tanto não acha que conversa com quem não está com tamanha prioridade que, a conversa com quem está, fica truncada ou movida a hiatos. Difícil de entender – forço uma pontuação. Portanto, não é absurdo. Continuando. Absurdo também pode ser o que encerra uma contradição. Não é o caso – a realidade parece se comportar bem, assim, nesse estar e não estar. Quem acha o contrário começa a ser tratado com “alguma condescendência”.  Por fim, como o mundo não tem sentido, ele próprio acaba sendo um grande absurdo – o que faz todo sentido. Respondo a mim mesma: sim – me tornei absurda. E agora?


Um pouco mais adiante nesta reflexão, percebo que essas relações deletáveis têm uma consistência indefinida (importa observar que não sou  a melhor pessoa para falar de relações consistentes. A vida tem me pregado algumas surpresas). Em boa parte dos casos, as redes reúnem verdadeiros conglomerados de pessoas que nem sequer se conhecem. São milhares de pessoas intituladas como “amigos”. 


E aqui vai outra perguntinha básica: é possível alguém ter milhares de amigos?


“- Quer dizer que não posso alegar que vocês não estiveram aqui?

- Não, porque nós sabemos que estivemos. Isto é o que conta.

- Estou muito confuso.

- É para ficar – não queremos nada claro.”



Se considerarmos o século XIX como um espaço/tempo referencial, Schopenhauer, Rimbaud, Oscar Wilde, Mallarmé e outros tantos “malditos” questionaram a vida como um grande absurdo por si só, pois ela não tem outra razão para ser além de um "querer viver" sem sentido. É daí que nasce o pessimismo e, ao mesmo tempo, o desprendimento. Por sua vez, Albert Camus considera que a tomada de consciência da absurdidade do mundo deve conduzir à ação, ao movimento, à recusa da passividade enquanto Sartre nos convida a construir o sentido deste mundo. Quem se atreve a tentar?


“- Como podem agir assim?

- Não agimos.

- Acabaram de agir.

- Como agimos se nem estivemos aqui?

- Estou em frente a quê?

- A um homem que não existe.”



Os índices de saúde integral não correspondem ao aumento do poder “ter” que chega à maioria, pois a identidade mutante ainda não sabe como se constituir com presenças que não estão presentes. As pessoas passam a maior parte do seu dia estando com quem não está e quando se dão conta de que o que existe não existe, correm para o velho tridimensionalismo arcaico que, pelo bem ou pelo mal, lhe dá altura, largura e profundidade. 


Faço o quê? Deixo de ir ao teatro? E deixo também de ir ao cinema, às livrarias, às praças, às ruas, deixo de tomar café com as pessoas e até de almoçar ao redor de uma mesa? Me agarro a minha absurdez como a uma jangada num iminente naufrágio e remo com meus próprios braços?

A sociedade é anônima. Nosso grupo de teatro antecipou-se ao tempo. Loyola Brandão também.


“- Chega! Amanhã, no distrito noventa e oito.

- E se não houver distrito noventa e oito?”



Está começando outro dia tão ab e surdo quanto o anterior. Uma dose de Ab-sinto, para celebrar meu sentir pela contra-mão. Passa, Saturno... passa!



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