sexta-feira, 9 de março de 2012

Os "tempos" em Aion, Kairos e Kronos | Por Hilda Nascimento


Os gregos usavam pelo menos três palavras para designar tempo: Aion, Kairós e Kronos. Aion indicava o tempo de longo prazo, na verdade, de longuíssimo prazo, tempo vindouro. Kairós indicava um bloco de tempo, uma ocasião adequada ou uma oportunidade: o tempo das "águas de março que fecham o verão", a estação da sua fruta predileta, o período da adolescência ou a hora certa de pedir a moça em casamento. Kronos é o tempo medido pelo relógio: segundos, minutos e horas. É finito, metódico, controlado, igual para todos. É o tempo linear, que cobramos aos outros e do qual dizemos que «tempo é dinheiro».

Enquanto atravessamos o palco da história, somos convocados a responder a cada uma destas dimensões do tempo. 

O tempo em Aion reclama nossa entrega e rendição, a admissão de nossa finitude. Nele, a duração de nossas vidas é comparada a um vapor, a uma pequenina flor que pela manhã floresce e ao final da tarde voa no vento. Aion exige humildade: agradecer a oportunidade de entrar na existência e encarar a aventura de viver um privilégio, como gota que se alegra em participar do mar. Em Aion, alcançamos a dimensão do eterno, da finalidade da expansão, da justa medida imprecisa entre a imanência e a transcendência. Porque este é o "não tempo". E "não tempo" também é tempo. Imensurável. Tempo do pra sempre.

Kairós exige atenção e prontidão, pois tal é a oportunidade como um cometa que passa em velocidade atroz: quem piscou, perdeu o espetáculo. Não há espaço para protelação, procrastinação e displicência. Kairos exige sabedoria. Recomenda remir o tempo, isto é, aproveitar a oportunidade para que não se ouça "não adianta mais, agora é tarde, passou o tempo, deixamos escapar o Kairos". Quando estamos totalmente absorvidos e vivemos no momento presente, sempre que nos sentimos apaixonados pelo que estamos a fazer ou pelas pessoas com quem estamos, empenhados, absorvidos, vivemos no Kairos. Kairos é o tempo que alimenta a alma. Como dizia T.S.Elliot,escutamos música tão profundamente ouvida que nem é ouvida, mas somos nós a música enquanto dura a música…

Kronos é o mais cruel. Na mitologia grega, incitado pela mãe Gaia (a terra), castrou o pai Urano (o céu) e se tornou o primeiro rei dos deuses. Seu reinado foi de prosperidade, mas viveu ameaçado pela profecia de que seria vencido por um dos seus filhos. Para que não se cumprisse este vaticínio, devorava os filhos assim que nasciam. Até que Zeus foi salvo pela mãe Réia e, tendo destronado o pai, o expulsou do Olimpo e libertou todos os irmãos. Talvez por isso Kronos seja visto como o tempo devorador, cruel, que corre sem parar nos empurrando para perto e cada vez mais perto da morte. Kronos é tempo com medida, e cada pessoa terá a sua, no mistério da economia divina. O que não é inesgotável reclama cuidado, recursos finitos implicam boa administração. Cada um tem sua fatia de segundos, minutos e horas, e ninguém sabe ao certo sua porção, ninguém é capaz de saber quando será seu último dia, viverá seu último segundo, consumirá seu último fôlego. Ninguém pode acrescentar um passo sequer ao seu limite de existência. Mas pode abreviar. Kronos exige responsabilidade. É importante saber contar os dias, isto é: praticar viver, concedendo coração sábio para o bom uso da medida de kairós: usar bem, não desperdiçar e, especialmente, desfrutar.


Nosso dia-a-dia é marcado por esses três tempos: enquanto Kronos quantifica, Kairos qualifica e Aion "atemporiza". Isso significa que podemos viver o tempo burocrático, medido por cronogramas, horas, prazos determinados, com qualidade, valorizando e qualificando o instante, o momento vivido, e ainda profundamente conectados com as múltiplas dimensões que nos envolvem por todos os lados. Porque Kairos é a ação que muda o sentido interior das nossas atividades diárias. E Aion nos afirma que nada é apenas como percebermos - é muito mais.  Uma vez que não podemos fugir do cronos, podemos dar atenção a pequenos detalhes do nosso dia-a-dia que tornarão nossa vida mais plena e feliz. 

Com certeza, não é fácil fazer esses três tempos caminharem juntos. Rotinas, organização, cronogramas a serem cumpridos, horários determinados, reuniões e tantas atividades pelas quais somos cobrados. Mas, essa burocracia é necessária até para que possamos viver o tempo Kairos, pois a alegria de fazermos aquilo a que nos dedicamos indica qualidade, é também momento oportuno. O pagamento do seu trabalho, por exemplo, é uma burocracia que permite qualificar a sua vida, fazer o que você acha prazeroso. E isto merece o exercício da consciência de manter-se conectado com os canais da abundância e do merecimento. Portanto, Kronus, Kairos e Aion juntos.

Esses tempos nos convidam a sentir a vida mesmo nas tensões provocadas por tantos afazeres, ou nos momentos de repouso, ou mesmo quando estamos amando ou preocupados. Aprender a conviver com os ruídos de uma vida, muitas vezes mecânica, porque quando estamos bem, as coisas vão bem e o tempo, seja medido por um sentimento ou por um minuto é um instante que não volta a se repetir. Desta maneira cada fração de tempo é uma preciosidade incomensurável. É importante que possamos honrar o privilégio de estarmos vivos e conscientes no tempo (ou... nos tempos). 

Como muito bem disse Rubem Alves: “O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração”.



4 comentários:

  1. Texto muito bom, bem compreensivo!

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  2. Muito bom e bem vindo esse texto!
    Caiu como uma luva qdo Kairós estava de passagem por estes dias. .. Ele ajudou chegar aqui. ..
    Aleluia 🙌
    Sat Nam!

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  3. Nossa. Além de explicativo é inspirador. Obrigada, de verdade. Foi de grande valia para mim.

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  4. Nossa. Além de explicativo é inspirador. Obrigada, de verdade. Foi de grande valia para mim.

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