quarta-feira, 1 de junho de 2011

Um outro olhar | Por Eliana Pereira

Que o sentido da visão é de extrema importância para todos nós, não temos dúvidas. Seja para direcionar-se,  localizar-se, nos processos de identificação de pessoas, objetos, cores, formas, de apreensão das semelhanças e das diferenças, ou no extasiar-se ante as belezas e maravilhas da natureza, na expressão dos sentimentos, na observação de si e do mundo, nos aprendizados diversos. O que nos dá a sensação de autonomia, independência e liberdade no caminhar da vida. Ui! Senti até o vento nos cabelos. Mas será assim mesmo?

A interferência da visão em nossas relações com o mundo é evidente. Resumidamente acontece assim “nas caixas dos zói”: os olhos captam a luz (sem luz ou sendo incapazes de captá-la não vemos) e através de um sofisticado sistema de lentes (córnea  e cristalino) a direcionam para a retina, que é a membrana sensível do olho onde as imagens são focadas... invertidas (então dizer que “vi o mundo de cabeça para baixo” não é tão metafórico assim). Dali através das células nervosas (neurônios) do nervo óptico as informações visuais são levadas ao cérebro, que as reinverte, decodifica e  “vê”, traduzindo estes impulsos em imagens. Cerca de metade de todas as informações captadas pelos sentidos periféricos (frio, calor, tato, pressão, audição etc.) e que chegam ao cérebro transportadas pelos neurônios  corresponderá a informações visuais. E as agências de publicidade sabem muito bem disso! Por isso não é de se admirar como todo o mundo exterior se estrutura, privilegiando a visão como o principal sentido que faz a interação entre o mundo exterior e nós. Os exemplos estão por todo lado, não precisa nem sair de casa. Se você está lendo este texto sabe do que estou falando...

Os nossos olhos são os grandes monopolizadores de nossos sentidos. O mundo torna-se mais informativo e mais rico quando o percebemos com os olhos, através dos quais o julgamos e entendemos, ou não.
Cerca de 70% dos receptores dos sentidos do corpo humano estão localizados nos olhos, que não vêem apenas  a luz, mas também as cores (comprimentos de onda), formas, profundidade, contrastes. Desta forma entendemos a exuberância das colorações das plantas, dos animais, das mudanças da natureza (viram o espetáculo dos relâmpagos na semana passada?), dos nossos pares, que se exibem em cenas que impressionam nossos olhos (quem nunca ficou horas em frente ao espelho arrumando-se para “aquele encontro”?)  e marcam nossas mentes, inundando-nos de reflexos e sensações, de formas e movimento, tornando a vida mais significativa.

A imagem visual funciona, então, como uma espécie de detonadora das emoções. Lembramos frequentemente de cenas de dias, de anos anteriores, visualizando-as com os olhos de nossas mentes e este “ver” relembra-nos das emoções sentidas. Com nossos olhos mentais conseguimos ver o rosto do ser amado e sentir o sabor de um  beijo. Uma fotografia pode fazer-nos lembrar de uma guerra, de um ato de heroísmo, de momentos de felicidade ou de tristeza. Olhamos para a grama ou uma fruta e lembramos de seus cheiros e toda uma gama de eventos ligados a elas. Os olhos, entendemos assim, são hábeis na percepção simbólica e capazes de acordar todos os outros sentidos.

Utilizamos a visão não só para mensagens escritas e imagens, ela também nos faculta a possibilidade de capturarmos a ação ou o estado de espírito ou provar algo.  Por exemplo dizemos: “vi com meus próprios olhos”; “enxergamos” através de pessoas de caráter transparente;  “olho clínico”. Com a visão podemos atravessar campos e subir montanhas, viajar ao longo do tempo, de países e do espaço sideral!
A visão também promove a comunicação através da leitura de  expressões faciais e movimentos corporais. O olhar nos olhos do outro ou o afastar os olhos durante a comunicação sinalizam mensagens sobre sentimentos de sinceridade, intimidade, solidariedade, esquiva, medo,  isso porquê, além de acolher as impressões, os olhos também refletem para o exterior os sentimentos e a disposição das pessoas. Se estivermos apaixonados tudo flutua, brilha ou é cor de rosa, se estamos de mau humor um véu marrom  avermelhado recobre o mundo, se triste, nosso olhar é velado, contraído, e o cinza predomina. Mas estas são as imagens que vejo a partir do que sinto,  ou que ouço falar e endosso para não me sentir à parte, não-pertencendo? Ou mais, que me acostumei  a ver a partir do discurso coletivo de que é assim ou do holofote apontado nesta direção, que iluminada passa a ser o que é,  obscurecendo o que está ao redor, que passa a não-ser, não existir?

Certa vez, numa palestra sobre solidariedade e sustentabilidade, a palestrante mostrou imagens captadas pelo seu olhar através de uma máquina fotográfica (um olho artificial) de um caminhão transportador de cervejas tombado no chão de uma BR qualquer e sendo saqueado pelos moradores circunvizinhos.  E perguntou o que estávamos vendo. As respostas se repetiram em descrições do caminhão, da marca da cerveja, do saque, do carrinho de mão, da caixa no ombro de alguém. Ela repetia a pergunta e as imagens e nós as descrições, não tinha mais o que ser visto! Até que na quinta, repito, na quinta vez, assim mesmo por estar num círculo vermelho chamador de atenção (olha o holofote), e apontado por ela, foi que vimos o corpo sem vida do motorista estendido no asfalto, entre as pernas dos saqueadores, sem um lençol ou jornal que o protegesse da exposição. O que digo? O lençol ou jornal o exporia e destacaria ante nossos olhos, que estavam impressionados com o saque, olhado em primeiro plano.

 “Vejo, logo sou visto”, disse um psicanalista de quem não recordo o nome agora. Captamos os movimentos no ambiente e temos a possibilidade de atuarmos sobre eles. Olhamos para uma pessoa e, com este olhar,  podemos constrangê-la, assustá-la, incentivá-la,  fazê-la calar, ruborizar (ainda existe isto?) ou sorrir. O ver confere  controle sobre os nossos próprios e os alheios caminhos e deslocamentos. Se controlo com o olhar, também sou controlada ao ser olhada. E também ao ser impressionada com o que capta meu olhar, seja nas vitrines, nas propagandas, na televisão, ou em outro ditador de conduta qualquer, seja nos olhos de quem me olha, mesmo sem me ver.  De onde vieram expressões como cafona, fora de moda, na moda, indecente, fora de contexto, diferente, esquisito, boa ou má aparência, vestida  para matar, bonito ou feio,  e tantas outras? Da comunicação do que sentimos quando olhamos para algo ou alguém, ora bolas! Será? Vale lembrar que o cérebro só identifica o que conhece. Ou da repetição do aprendido na leitura (e aqui tanto faz se seus olhos estão na face ou nas pontas dos dedos) da cartilha coletiva construída a partir das imagens focadas na retina social? E quem disse que o que vemos é realmente o que está ali? E as ilusões de ótica?

Nossos olhos são únicos! Baseados nisto que existem os sistemas de segurança de leitura de íris e retina. Então nenhuma imagem se formará igual em duas retinas, ou serão lidas da mesma forma por dois cérebros diferentes. Esta diferença que traz nossa marca pessoal, modo de captar, olhar e ver o mundo, colorindo com tintas próprias as experiências. E como toda vivência, é  pessoal e intransferível. E como todo ser gregário vamos precisar do “bando” para nos dar suporte e acolhimento, e se não for pedir muito, entendimento para as nossas “visões”, mesmo que fora do “padrão”.

Mas vamos caminhando e olhando... e  olhamos nos olhos do outro e tentamos ver e descobrir o que expressam. “Este seu olhar, quando encontra  o meu, fala de coisas que eu nem posso acreditar...” suspira Dick Farney. Com eles também olhamos para o estranho no espelho, buscando descobrir e conhecer o habitante entre as orelhas. E através deles vemo-nos denunciados no olhar do outro. “Os seus olhos são espelhos d’água, brilhando você pra qualquer um...” susurra Rosana.
E seguimos pousando nosso olhar... onde?  Para onde se dirige o nosso olhar?
Podemos tomar fôlego e mergulhar no mar infinito das indagações. Ou na musicalidade de Jota Quest:  “Fecho os olhos pra não ver passar o tempo...


ELIANA PEREIRA

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