quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sobre o poder do sofrimento | Por Hilda Nascimento

Cabe lembrar do Dalai Lama sempre que percebemos que alguém sofre. Se nos detivermos sem compaixão, o que aparecerá de imediato é o esforço que algumas pessoas fazem para permanecerem sendo infelizes. Se o olhar compassivo sobressair, tudo nos parecerá diferente pois, se estivéssemos naquele lugar, com aquele conjunto de crenças, valores, família, condições, faríamos da mesma forma.
O Projeto Minotauro (extensão da Biodança para acessar os medos humanos) lista, entre tantos outros, o MEDO DE SER FELIZ. Será possível?

O que quero refletir, neste texto, é sobre o enganoso bem estar deste mal estar. A queixa, explícita, é da vida não estar bem,  de haver uma gama de problemas sem solução, numa teia criada e compreendida pela própria pessoa, que sofre (realmente sofre), mas não sai dela. Aí, identifico três “zonas” que gostaria de pontuar:

A primeira, é a “zona de segurança”. Acho importante que as pessoas que convivem intimamente com um sofrimento que não passa,  reflitam sobre isto. É ruim, sim, mas (cá pra nós)... protege. Quem está ali, conhece os limites daquele estar mal, é íntimo das salas onde reinam as justificativas para viver (viver?) daquele jeito e dos cantos onde as verdades pessoais se escondem. Aquelas verdades que doem pra olhar e, certamente, são os pilares de toda estrutura infeliz. O ruim é conhecido, é familiar e, como prolifera paralisia de viver, impede novos passos e repete internamente a mesma assombrosa questão, cada vez que a pessoa é confrontada com suas questões e impulsionada a mudanças: “e se piorar”? Diante desta possibilidade, fragilizada, anêmica de vida que gere mais vida, a pessoa recua o passo, amarra o salto e permanece. Infeliz, mas segura.

A segunda reflexão nos alerta sobre a “zona de valor”.  Sei que parece mesmo um absurdo, mas o entorno valoriza muito quem sofre. As pessoas costumam incluir em seus diálogos expressões como:  - Conhece fulano? Pessoa maravilhosa! Sofriiida...  Ou então, diante de uma conquista: - Ele merece... já sofreu o bastante... Assim, o estado sofrer passa a agregar um valor à identidade social de quem sofre.  As pessoas, de alguma forma, admiram quem sofre. Provavelmente esteja aí, embutida, uma re-apresentação do sacrifício crístico visto de maneira rasa e desconectado da sua complexa simbologia. Purgar traz o testemunho de uma força que, nem sempre, as pessoas reconhecem em si (e nem nos outros) em estados de  bem aventurança, prazer ou alegria.  Em algum ponto não consciente, quem sofre se fortalece da sua própria possibilidade de sofrer. Retirado o foco do sofrimento, provavelmente a pergunta seria: - E agora? Viver de quê? Nesta zona, a pessoa pode se tornar quase inatingível (e inalcançável)em sua força, em seu sofrer, fazendo a renegação à vida ser a grande força nutridora da própria “sobre-vivência”.

A terceira é a “zona de conforto”. Esta cuida de colocar no colo aquele que sofre e, este colocar no colo ao qual me refiro, está distante de ser amor em sua legitimidade.  Há uma tendência do entorno se compadecer, solidarizar-se, o que é muito bonito, valoroso de fato, mas que beira um risco imenso: o de anestesiar a possibilidade da pessoa se dar conta de que PODE sair daquela situação.  O ônus será perder o colo, mas o bônus será a liberdade. Entretanto, como desejar liberdade se, o estado de infelicidade garante companhia? Felizes seremos sós?
Não tenho a intenção de trazer este delicado assunto revestido de frieza ou objetividade banal. Não. Quando ainda em rascunho, me perguntaram o que eu pretendia escrevendo algo assim.  Me dou conta de que provoco uma reflexão com a intenção de despertar o desejo de uma nova vivência, de sugerir aos que naufragam que existe um barco resgate em algum lugar do seu mar revolto e de lembrar a todos (também a mim) que a transitoriedade é característica fundamental da nossa existência. Portanto, tudo passa.

Em seu livro “UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES”,  Clarice Lispector nos lembra de que somos sós. Toda atual concepção do viver  nos informa que ninguém viverá a vida de ninguém ainda que o deseje. E também que todo o movimento vital está fundado nas escolhas que fazemos.  Não há como sair de um círculo vicioso, senão rompendo, se atrevendo, lançando mão da força de permanência  e convertendo-a em força de partida. Isto não se faz pedindo licença nem por favor.  E o fatal: ninguém pode fazer isto por ninguém. Ainda que o deseje, ainda que ame profunda e verdadeiramente.

Aqui não me coloco à disposição para instantaneidades, nem metas a serem atingidas, nem expectativas a atender ou desrespeito ao ritmo de cada um. Não. Aqui falo sobre a disposição para o “risco e abandono” próprio dos caminhares.  Não há como sair do lugar de outro jeito. Ou então não será o “nosso jeito”  será o de alguém. Mas... de quem?

Finalizando este assunto sem fim, desejo convocar a todos para escolherem a felicidade como bandeira para suas vidas. Que se espalhe sobre a terra uma legião disposta a fazer o diferente assim: sendo feliz. Porque: se tristeza está na moda e infelicidade leva direto pro céu, melhor ser um santo pecador  e, certamente,  apostar no inferno (rs).

HILDA NASCIMENTO

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