quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sinto muito, mas eu sinto muito! | Por Ana Paula Marques

O mundo pós-moderno ou a modernidade líquida, com diria Bauman, é marcado pelo individualismo e pela liquefação dos valores e das relações: o esgaçamento do tecido social e suas consequências para o âmbito dos relacionamentos humanos. 

Tomados pela normalidade doentia de que “tudo é normal”, acostumamo-nos à anestesia de nossos sentimentos diante das experiências inexpressivas ou brutais pelas quais passamos. A rapidez dos acontecimentos e o giro rápido das notícias e dos eventos dão a sensação de impotência diante da vida. Acatamos, portanto,  viver superficialmente para não dar oportunidade à evasão de sentimentos e emoções que serão necessariamente amordaçadas: em nosso mundo, não cabem sentimentalismos exacerbados, expressões emocionais exageradas ou, mesmo, discursos longos sobre a ética das relações na contemporaneidade, sob pena de se perder tempo e se tornar inadequado nos espaços sociais.

O filme “Mary e Max – uma amizade diferente” convida-nos, dentre tantas outras reflexões, a questionar o lugar social e ideológico da relações humanas nesse mundo líquido, feito de amores fluidos. O diferente é palavra de ordem no filme, no entanto foge ao lugar-comum dos discursos cansativos e sem muitos resultados sobre “o respeito à alteridade”. A animação expõe, de forma sensível e extremamente humana, o diferente, que deixa de ser exótico e passa a ser algo nosso, elemento de identidade. A síndrome de Aspergen, cautelosa e sensivelmente discutida no filme, é apresentada pela perspectiva daquele que é classificado como portador dessa deficiência, Max, um indivíduo de 40 anos que vive sozinho em Nova York. O olhar que ele tem de sua síndrome, a forma como convive com ela e a maneira como a descreve à sua  única amiga Mary, uma menina de 8 anos que mora na Austrália, comovem o interlocutor do filme, que, com um sorriso de canto de boca, identifica-se como as personagens e se permite refletir até que ponto essa síndrome não é mais um mal de nosso mundo pós-moderno.

Tomo, então, a síndrome da personagem Max como metáfora para refletir sobre esse mal que nos acomete e nos deixa com a “sensação de que não sentirmos nada”. A normose em que vivemos silencia-nos diante do que ainda poderia nos tocar. Como Max, parece que choramos nossas dores, que são o tempo todo rechaçadas e reprimidas - mesmo às custas de dores anestésicas bem maiores. Desaprendemos, com o tempo e com as regras sociais, aquilo que o instinto humano oferece à criança no início de sua existência e que é primordial para as suas descobertas no mundo: os sentidos, já tão delimitados pela própria ciência. Esquecemos que podemos pensar e compreender a realidade por outros (e todos os) sentidos: pelo tato, pelo olfato, pela audição, pelo paladar, pela visão, pela intuição… Esquecemos que somos seres complexos e que exigimos, simultaneamente, uma percepção requintada e visceral do mundo que nos cerca… Esquecemos que podemos e devemos sentir muito, de todas as formas, com a inteireza do nosso ser!

Experimentemos conduzir nossa consciência para o nosso corpo, para os nossos poros, nossas entranhas, para aquilo que temos de mais verdadeiro e essencial em nós. Experimentemos a NESTESIA da vida, a sinceridade e humanidade das relações. Mais que isso, experimentemos a SINESTESIA das experiências vividas: ouvir com as mãos e os pés, saborear com o olfato, tocar com os olhos, sentir de verdade você e outro.

Experimente, ouse dizer ao mundo líquido do qual faz parte: 
“Sinto muito, mas eu SINTO MUITO!”.

ANA PAULA MARQUES
Profª de Língua Portuguesa e Literatura, pós-graduada em Língua e Literatura Vernáculas pela UFBa.


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