quarta-feira, 1 de junho de 2011

Quanto custa um sonho? | Por João Travassos

Quero falar um pouco dos sonhos – e conquistas - da adolescência da minha vida, que se tornaram um marco na minha formação pessoal. Acredito que, para a maioria das pessoas, essa fase de escolhas, decisões, lutas e desgastes emocionais e físicos, fazem com que os chamados sonhos, sofram uma imensa pressão para que sejam esquecidos ou deixados de lado. Muitas vezes são taxados de lunáticos, impossíveis, improváveis, fora da realidade do mercado atual e essas baboseiras. Por isso, a pergunta do titulo: quanto custa um sonho?

Essa pergunta na verdade começou a fazer parte de minha vida bem depois de já ter pago uma boa parcela dessa dívida. Morando em São Paulo, longe de todo o conforto que minha família me proporcionava e longe de todas as pessoas cujas presenças afetivas poderiam disfarçar o risco que eu estava correndo. Com a saúde sempre em questão por uma alimentação bizarra e uma vida longe de saudável, com todo o sofrimento que a saudade me causava, um amigo próximo, percebendo toda a minha situação, fez a seguinte observação: “é, esse é o preço do seu sonho...” Desde então penso nessa frase quase que diariamente.

Deixando o drama de lado, comecei a fazer minhas escolhas um tanto cedo. Bem naquela fase já citada acima, resolvi não apagar nem deixar de lado meus sonhos. Ser músico, viver de musica, pela arte, ter uma vida ligada a cultura, sem rotina e padrões. Penso que pra um pai/mãe de um adolescente de 15 anos isso parece um delírio. É aí que se começa a pagar o preço, travando uma luta para mostrar que não é delírio, que é possível sim e que “dá futuro”.

Deixar uma carreira acadêmica de lado e uma vida bem projetada (pelos pais, na verdade...) pra trás, tem um valor financeiro enorme. Mas esse se torna ínfimo em comparação ao valor sentimental da decisão. O sofrimento é geral. Os pais sofrem, se desesperam, ameaçam, se frustram imensamente quando percebem que o filho está seguindo por um caminho chamado de “alternativo” profissionalmente. Esse filho, no entanto, sente o peso das barreiras sociais, o desgaste da luta constante por uma vida artística decente, e as frustrações sentimentais se multiplicam até que as coisas se estabilizem. Mas sempre se estabilizam. Como em qualquer carreira, os competentes e inteligentes se estabelecem no mercado. Estabelecem-se, com o diferencial de agregar felicidade (e não apenas dinheiro) à vida.

Como costumamos comentar no meio, o músico, ator, artista plástico e derivados, acabam criando uma casca. São praticamente os mesmo preconceitos sofridos, as mesmas perguntas de sempre e os mesmos desgastes: “mas você faz o que além de tocar?” ou “ você trabalha com o que durante a semana?” ou “você só faz isso da vida?” Como se passar, às vezes, 12 horas num estúdio ou 16 horas viajando de ônibus numa turnê fosse tranquilo! Estamos acostumados com essas perguntas e nem sempre é fácil viver provando competência no que fazemos pra poder obter respeito da sociedade e credibilidade no mercado. E a “dívida” vai aumentando. Não sai barato pro ego ou pra alma ter que lidar com isso diariamente.

Não cheguei e nem sei se vou chegar à resposta da minha própria questão... Mas sei que o preço do meu sonho, por mais alto que seja, a mim compensa. Estabeleci-me no mercado, como muitos que conheço, passando por todas essas dificuldades e agora sei que é possível sim viver de música, pra música e pela arte. E as vertentes que o mercado cultural proporciona é que são apaixonantes. Tocar, cantar, gravar, produzir, viajar, conhecer novas culturas, criar e participar de belas composições, acompanhar o crescimento artístico das pessoas, realizar festas e festivais, escolher viver bem e feliz... é caro, mas não tem preço!

JOÃO TRAVASSOS
Músico, produtor musical e produtor executivo da gravadora Comando S Discos.

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