quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pensando a paixão | Por Hilda Nascimento

A paixão é um sentimento fulminante e que pode acontecer à primeira vista. O prazer que ela provoca é tão intenso que desespera quem a vivencia. Como um vício! Trata-se de um estado alterado do cérebro, disparado, sem razão previsível, em que um coquetel de hormônios e outras substâncias provocam sinais característicos, tais como: euforia, busca intensa por satisfação sexual, sensação indisfarçável de felicidade, energia aumentada, insônia, perda de apetite, tremor nas mãos, palpitação, respiração acelerada, pensamentos obsessivos, grande empatia, muita saudade, dependência emocional e finalmente, o foco somente nas qualidades do ser amado (visão de corredor).

“Tenho tido paciência, nunca esquecerei... Temores, dores para o céu se foram e uma sede insana tolda minhas veias...” (Rimbaud )

Estar apaixonado é experimentar um turbilhão de emoções, muitas vezes contraditórias e volúveis como medo, insegurança e dúvidas. E, à medida que a pessoa mergulha intensamente nessa experiência, desenvolve em si mesma um “embaçamento” da visão crítica do outro com quem está envolvida.

Os estudos mostram que as endorfinas e serotoninas, juntamente com outras substâncias, estimulam certas áreas do cérebro que favorecem o estado de prazer intenso e, por outro lado, inibem outras regiões que reduzem o discernimento crítico sobre o ser amado. O cérebro nos engana e cria uma percepção irreal do outro, em que defeitos não existem, o medo do desconhecido é drasticamente reduzido e os critérios de avaliação racional do parceiro estão muito diminuídos.

Fica claro que a paixão é uma demanda de origem química, incontrolável, capaz de caotizar a percepção humana como uma experiência de vivência em longa overdose. É impossível o corpo humano permanecer nesse estado por toda vida, totalmente transtornado em todas as suas funções. Com o passar do tempo, a convivência entre apaixonados pode equilibrar-se em amor ou, de uma hora para outra, desaparecer da mesma forma irracional com que nasceu.

A despeito de todo movimento desorganizador que a paixão provoca, é lamentável viver num estado morno de emoções medianas. As cores da vida são essencialmente intensas, brilhantes! O amor precisa de “picos de paixão” para manter-se atualizado e fremente. O mais é tíbio. É tedioso e certamente acabará por falta de calor.

"Ora, o mais belo dentre todos esses anjos maus
Tinha dezesseis anos sob sua coroa de flores.
De braços cruzados sobre os colares e as franjas,
Ele sonha, o olho cheio de chamas e de choros." (Paul Verlaine)

Eu não tenho idade. Eu tenho sol e carne em meu corpo!" (Arthur Rimbaud)

HILDA NASCIMENTO

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