quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pedalando e caindo na vida: cinco lições de paternidade | Por Alessandro Marimpietri


“Caminante son tus huellas
El camino nada más
Caminante no hay camino
Se hace camino al andar”

Antonio Machado

As férias escolares em geral ensejam sentimentos contraditórios nas crianças. Por um lado descortina-se uma grande chance de se jogar de braços abertos na preguiça e no prazer do nada fazer. Por outro, uma sensação de vazio costuma acometer os primeiros dias do recesso, uma vez que se está muito acostumado com aquela rotina, e mais ainda àquelas pessoas com quem convivemos por um longo ano. Lembremos que o tempo para as crianças se faz presente em suas vidas de um modo particular e visceralmente distinto do modo dos adultos. Um ano para uma criança de 06 ou 07 anos significa quase a sua vida toda!

Neste contexto é que João e Pedro estavam mergulhados. Era para ser um dia de sol de férias, pois, embora este estivesse no meio da semana, seria o dia em que seu padrasto havia se comprometido a acompanhá-los numa jornada de aventuras que contemplava um passeio a uma pista de barro batido para corrida de bicicletas, seguido por um reconfortante banho de mar.

Dormir cheios de expectativas na noite anterior não assegurou aos pequenos personagens um dia daqueles em que raios dourados cintilam no céu azul e cujas primeiras horas já são um convite, quase intimatório, a inúmeras atividades. Chovia torrencialmente. A cada pingo de chuva diluía-se a esperança por um dia de diversões, pois as crianças acreditavam que nenhum adulto em sã consciência permitira um passeio ao ar livre com aquele nefasto tempo que já insistia por algumas horas.

Desde ai começam as importantes lições do padrasto. Negando o que seria não apenas suspeitado, mas tido como certo. Ele, que chamaremos de Luiz, questionou às crianças se elas, mesmo com aquele tempo nada convidativo, queriam se arriscar e fazer o passeio. As crianças de pronto toparam o desafio, mesmo sabendo que isso implicaria novas regras, mais pertinentes à chuva do que ao sol.

PRIMEIRA LIÇÃO: Esse pai, por que assim o foi nesse e em muitos outros momentos, ensinava à criançada, com poucas palavras, mas com importantes gestos, que ousar, arriscar e arcar com as conseqüências oriundas destas ações podem ser exercícios fundamentais à formação adulta e ao compasso de uma formação pautada na autonomia, capaz de desenvolver criatividade e um pouco de beleza na vida. Ele ousou e surpreendeu, com isso ao invés de deseducar seus filhos, lhes ensinou mais uma daquelas coisas que geralmente não cabem nas palavras, mas se ajustam bem à vivência.

Os meninos ainda incrédulos, mas preenchidos de contentamento e expectativa, arrumaram-se e também organizaram suas pranchas de surf e suas bicicletas para a aventura, que começara a se concretizar.

Lá chegando, o barro molhado e os montes da pista mais pareciam um cenário de um dos muitos filmes que costumavam assistir, do que uma realidade ou um desafio. Foram orientados, devidamente, sobre os novos riscos que a chuva impunha à pista e que se viam agigantados pela pouca idade das crianças e por sua, já sabida, pouca experiência neste tipo de terreno.

Os meninos não se intimidaram e partiram com a mesma ânsia que os motivava anos antes a enfiar o dedo no glacê do bolo de aniversário de um colega. As pedaladas e o vento misturado com água da chuva invadiam suas narinas e, de alguma forma, seus espíritos. E eles gritavam e subiam e desciam e vibravam com olhos esbugalhados pela velocidade. Foi seguramente uma sensação de liberdade ímpar e inesquecível... Tudo no momento dizia, sem nada dizer, algo como se viver até ali já tivesse valido a pena.

Até que eles distraíram-se com tanto entusiasmo e emoção e se esqueceram de pedalar o suficiente para subir um dos morros íngremes da pista em questão. Caíram num tombo feio, pois a chuva diminuiu o atrito necessário entre as rodas e o barro. Machucaram-se e choraram, como qualquer criança o faria nesta situação. Luiz se aproxima e nos dá a segunda importante lição do dia.

SEGUNDA LIÇÃO: Ele pediu que os meninos se acalmassem e enquanto examinava com carinho, mas sem piedade, a gravidade das pequenas raladuras, pediu que os meninos o lembrassem das recomendações dadas em casa e antes das bicicletas sujarem suas costas de barro. Os garotos repetiram o que já havia sido dito e então disseram um reticente “é mesmo” que encerraria suas lamúrias e suas lágrimas. Ou seja, precisamos medir nossos passos e gozar da vida até onde possamos controlar seu guidão, pois o risco de cair numa enxurrada desenfreada de prazer inconseqüente é mesmo muito grande. Para andar é preciso cair e para cair é preciso saber levantar. E para não mais cair é preciso aprender com os erros e assumi-los para si.

Seus ensinamentos não pararam por ai. Ele lembrou que a segunda parte do passeio seria na praia com direito a banho de mar e um refrigerante. O garoto menor disse-lhe, num resmungo de apelo, que se fosse ao mar suas feridas iriam arder. Luiz não o enganou e afirmou que de fato o iodo e o sal da água marinha fariam arder às feridas, mas também as ajudaria a cicatrizar mais rápido. Completou sua fala dizendo ser esta uma escolha dos meninos. Ensinando uma vez mais o que é autonomia, eles conversaram e o mais novo parece ter sido convencido pelo mais velho que se propôs a ajudar caso ardesse muito.

A praia terminou por ser um destino unânime. Lá se foram dentro de uma camionete azul escuro, já cantando o esquecimento das dores das feridas. Ao cair no mar, como era esperado, a dor bateu novamente na porta do corpo dos meninos e eles gritavam de dor e riam e pulavam as ondas e gritavam de dor e riam e pulavam as ondas... num vai e vem de felicidade e enfrentamento. Dentro da água Luiz nos deu a terceira lição.

TERCEIRA LIÇÃO: Ele disse aos meninos que, às vezes, as coisas não saem como o planejado e que isso é mesmo muito ruim. Mas que se soubermos e pudermos driblar as dificuldades as coisas até que podem ser, se não completas, ao menos interessantes. Os garotos concordaram e no retorno para casa foram perguntados se valeu a pena o passeio, mesmo com chuva, queda, feridas e ardor. A resposta foi pronta em coro, fazendo com que um sim retumbasse no automóvel, daquele jeito que só criança sabe fazer.

QUARTA LIÇÃO: Biologia tem muito pouca relação com a paternagem e com todas as inerentes marcas que este termo carrega e promove. Cuidar, educar e marcar um filho simbolicamente é um ato social de adoção. A mãe tem mais chance de permitir que a biologia atravesse sua história com seu filho, desde quando ela o carregue no seu ventre, mas nem isso garante uma relação puramente biológica. É preciso adotar os filhos, sejam eles biológicos ou não. Em suma, todo e qualquer filho que conte com a ação de um pai na construção de suas balizas simbólicas subjetivas terá sido adotado por aqueles assim desejaram.

QUINTA LIÇÃO: A educação pela experiência tem muito mais potência nos dias atuais do que qualquer outra forma de transmissão desse projeto civilizador. Estamos definitivamente desnaturalizados, desde a modernidade, pois esta se encarregou de fossilizar a tradição e instaurar o novo e o inventivo como via da construção do ser. Inauguramos, assim, a era das múltiplas possibilidades. Na atualidade, hiper-inflamos esta perspectiva e faz-se necessário ensinar quase tudo a nossas crianças, mas não, para isso, contando apenas com uma retórica, quase sempre inócua, mas sim com o grande poder das experiências.

É mesmo incrível como alguns pais já perceberam como um dia chuvoso pode ser muito interessante para se divertir com seus filhos e ainda lhes ensinar tanto sobre a vida.

ALESSANDRO MARIMPIETRI
Psicólogo, psicanalista, professor universitário, doutorando em Ciências da Educação

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