quarta-feira, 1 de junho de 2011

A mitologia de Omolu e a trajetória do analista | Por Ana Teresa Lima

“POR CAUSA DO FEITIÇO USADO POR NANÃ PARA ENGRAVIDAR, OMOLÚ NASCEU TODO DEFORMADO. DESGOSTOSA COM O ASPECTO DO FILHO, NANÃ ABANDONOU-O NA BEIRA DA PRAIA, PARA QUE O MAR O LEVASSE. UM GRANDE CARANGUEJO ENCONTROU O BEBÊ E ATACOU-O COM AS PINÇAS, TIRANDO PEDAÇOS DA SUA CARNE. QUANDO OMOLÚ ESTAVA TODO FERIDO E QUASE MORRENDO, IEMANJÁ SAIU DO MAR E O ENCONTROU.”

Omolú, conectado por sua trajetória à terra - foi tratado com areia e pipoca  (terra e semente)- que lhe resgata a vida. Recebe de Iemanjá (a grande mãe, Deusa da saúde mental e psicológica), a sabedoria que lhe confere o lugar de Deus da Cura.
O cuidado recebido por Omolú traz a terra como a essência - base - juntamente com a pipoca, semente do milho que, misturada à areia, brota transformada em flor, trazendo vida. 

Recebe de Iemanjá acolhimento e amorosidade, re-significando suas experiências, trazendo a vida de volta, num processo contínuo de transformação e renovação. Omolú deixa de estar em contato somente com a possibilidade de morte, resgatando a possibilidade de contato com a vida.

Omolú conquista a capacidade de curador ao ser curado, tratado das próprias feridas por Iemanjá, que espera, pacientemente, o tempo do seu corpo e do seu ser.Esse é o ponto de partida do ser terapeuta. 
O que é ser terapeuta, senão aquele que busca, do mais profundo de suas dores, reconstruir-se, acolhendo sua trajetória, suas experiências mais primárias, instrumentalizando o seu exercício com a história da própria vida e do próprio corpo?

Nada pode ou deve ser negado, do que foi vivido. Assim como Omolú, temos em cada pedaço do nosso ser a “inscrição”, como uma história que se conta, no nosso próprio corpo. Como bem diz Lowen, “é possível ler a história de uma pessoa através do seu corpo”. 

Como num processo alquímico, o ouro vai aos poucos se revelando, em nós, em nossos corpos, e nos corpos de quem cuidamos.Iemanjá é o terapeuta do terapeuta; é o supervisor; é todo aquele que cuida, junto com o terapeuta, das suas feridas e trajetórias. É o ei xo do terapeuta, seu tripé: a teoria, o trabalho pessoal e a supervisão. Permite que esse corpo em desenvolvimento encontre acolhimento para o aprendizado, para o crescimento pessoal. 

Pensando no que foi o tratamento de Omolú (terra e semente), nos reportamos a um dos conceitos básicos da Análise Bioenergética: GROUNDING. Estar aterrado, em contato com o chão.

Omolú vive uma experiência única, de resgate da vida através do contato com a terra. A terra é seu elemento, representação do lugar onde tudo nasce, cresce e transforma para dar lugar a uma nova vida. É preciso, no processo analítico, que seja dada permissão para a morte do que até então esse corpo sustentava como verdade, para o surgimento de uma outra forma de estar no mundo. Não é nesse caminho a proposta da Análise Bioenergética?

O analista bioenergético precisa estar em seu corpo, em seu suporte, em sua base. Como lembra Lowen, estar grounded é saber onde está e saber quem é: “Num sentido mais amplo, o grounding representa o contato de um indivíduo com as realidades básicas de sua existência. Firmemente plantada na terra, identificada com seu corpo, ciente de sua sexualidade e orientada para o prazer” (LOWEN, A. 1977)
Só no grounding é possível ser depositário das iras e dos amores do cliente sem ser tomado pela vaidade narcísica ou pela passionalidade.

Chegamos então a outro conceito que fundamenta a Bioenergética: RESPIRAÇÂO. 
Estar cheio de vida é respirar profundamente. O oxigênio fornece a energia que move o organismo. A respiração profunda carrega o corpo, propiciando expansão, contato com a vida e com os sentimentos. Possibilita contato o outro de um lugar onde o terapeuta seja alguém presente, vivo, com energia suficiente para sustentar as demandas do ser terapeuta. Possibilita também o contato com nossas próprias limitações. 
Omolú protege o corpo ferido e manchado. O corpo do terapeuta, apesar de vivo, fica também guardado. O que é do mundo dos seus desejos precisa retirar-se, guardado num bom lugar, posto que necessita sustentar a sua sensibilidade e sua humanidade; não pode fazer-se presente, pois  esse corpo é para ser ofertado como campo de projeção, e acolhimento para as histórias do paciente.

É um exercício entre o PODER (Deus da Cura) e a HUMANIDADE (Corpo Cicatrizado). Poder projetado no suposto saber; lugar de quem tudo pode escutar, entender e suportar: “estou aqui para você”. Humanidade no contágio com a história de cada um, com o cansaço, com o solitário exercício de doação e, na respiração, o acolhimento do que vier do outro, que lhe confia desnudar a alma. Entretanto, nem sempre se leva em conta a fragilidade de um corpo que também cansa, adoece, sofre, morre e tem finitudes.
Na humanidade, esse corpo frustra a expectativa do outro quando não encontra ali o lugar-pessoa-corpo idealizado.

É também na humanidade que o analista se deixa ser afetado, em sua corporeidade, pela forma de ser do cliente, permitindo que a história do paciente ressoe e produza efeitos no seu corpo, deixando-se envolver a partir de um lugar humano, mas não con(fundido) com a história do cliente. Estando num lugar de continência. 

É a Omolú que se confere um lugar de Deus. O nosso lugar pertence e deve sempre pertencer ao mundo de humanos e iguais. Temos dos deuses, talvez, um pouco de iluminação. Sabemos da importância da nossa presença, ali, ao lado de quem nos busca, quando não enxerga nenhuma possibilidade em torno de sua vida. Somos iluminação quando nos propomos descer aos porões, mergulhar no túnel escuro ao lado do nosso cliente, assegurando a possibilidade de viagem.

Somos Omolús Iemanjás... Somos um pouco de cada um dos nossos deuses. Não estamos sós, ali. Naquele lugar, sagrado estão presentes todos os deuses e demônios, porque ali é proposto o exercício da vida.


ANA TERESA LIMA - Psicóloga (CRP 03/0680); Analista Bioenergética: Especialista em Terapia de Casal e Família.


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