quarta-feira, 1 de junho de 2011

Me dá um Dinheiro Aí! Como o dinheiro é incluído e manejado numa análise? Por Tina Valente

De forma geral, é ponto comum entre as diversas linhas teóricas a questão do dinheiro como determinante e cuidadosa para se estabelecer o contrato terapêutico. A maioria das pessoas que se submete a um processo psicoterápico, em especial de base psicanalítica, provavelmente terá de se haver, em algum momento com esta questão.
Existem estudos mostrando que mecanismos inconscientes interferem quando abrimos a carteira. Não por acaso, todos nós temos inquietações e sofrimento em nossas relações com o “vil metal”. Podemos até dizer que o dinheiro mexe com a cabeça.
Há, no entanto, uma diferença fundamental em relação à maneira como o dinheiro circula no mercado e na clínica, onde está associado ao campo da “economia psíquica”, para o qual se pretende deslocar esta abordagem.
Freud, no decorrer da sua obra, dá importância ao tema do dinheiro e do pagamento. No seu texto “O início do tratamento” aborda essa condição da análise dizendo que “o dinheiro envolve poderosos fatores sexuais e o analista pode indicar que as questões do dinheiro são tratadas da mesma maneira que as questões sexuais...” Isso significa dizer que o dinheiro encontra-se no registro da economia libidinal.
Na clínica, quando falamos de um valor, não falamos apenas do valor universal que o dinheiro assume no nosso modelo econômico, mas também, e principalmente, do valor subjetivo do dinheiro, o que ele irá simbolizar. Nesse caso, o que circula e faz função é o significante dinheiro, e não o significado, do dinheiro.
Se o dinheiro apresenta-se como significante, então, a maneira como o paciente lida com o pagamento das sessões, o quanto e como dispõe de seus recursos, costuma produzir material de trabalho ao analista e analisante, dando margem a reflexões, interpretações e insights. Quando esta questão financeira é abordada pelo paciente, o analista não deve ouvir isso como se fora uma relação comercial e sim, entendê-la como algo a ser tratado, semelhante a uma formação do inconsciente, como ato falho, esquecimento, sonho e sintoma.
Em uma análise, portanto, o dinheiro é tomado como um elemento significante da condição desejante do sujeito. Ele metaforiza a falta implicada no desejo e parece ser oferecido pelo analisante como pagamento ao analista, na expectativa que este o livre do seu sofrimento. Isto exige do analisando a renuncia aos ganhos secundários envolvidos no sintoma e tal disposição de pagar, do ponto de vista da economia psíquica do sujeito, envolve perda narcísica, ou seja, em uma análise paga-se para perder (perda do gozo narcísico), o que lhe impõe uma nova economia libidinal de acordo com a sua condição “faltante”, desejante.
Torna-se importante considerar, que a inserção do pagamento no processo analítico propicia o trabalho do inconsciente, ou seja, o sujeito é chamado para além do valor simbólico do dinheiro, para um lugar inabitado e esse valor cobrado é uma intervenção do analista, é o próprio manejo clínico. Ao cobrar, o analista vai contra o gozo do sujeito não se submetendo à sua fantasia e mostrando-lhe não gozar dele.
Nesse contexto, o analista é responsável pelo tratamento e é ele que decide pelo ato arriscado da incisão a ser feita. O dinheiro dá valor à análise e retira o analisando da relação subjetiva, de dívida com o analista.
É interessante pontuar que quem realiza o trabalho na análise é o próprio analisante e, no entanto, é ele quem paga as sessões, cabendo ao analista criar circunstâncias e diretrizes que propiciem a produção deste trabalho psíquico (escuta na transferência).
Esta transferência em análise, além se ser transferência de significante, é transferência do capital da libido. Trata-se da transferência do sofrimento pelo preço pago com o sintoma, para o sofrimento do bolso. É por assumir a condição desejante que o analisante paga em sua análise e o trabalho psíquico nessa trajetória, possibilita mostrar o analisando a sua implicação no seu sintoma e também o que ele pode fazer para sair dessa desordem.
De fato, o que viabiliza um manejo que faça progredir o Sujeito em análise depende muito mais de como o elemento “dinheiro” é incluído e manejado na situação transferencial do que o que ele vem a ser apresentado como elemento em si, o que é próprio à condição dos elementos introduzidos na produção de qualquer análise.

TINA VALENTE (Psicóloga / Psicanalista- CRP 03/01995) - Membro da Equipe Clínica de Saúde Mental ICEP – Instituto de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira

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