quarta-feira, 1 de junho de 2011

Feliz ano novo! | Por Eliana Fonseca

Chega julho e minha disposição interna se modifica. Uma alegria inunda meu ser e o mundo fica mais belo. Em pleno inverno, a primavera se faz para mim: meu aniversário!

Independente de ter nascido em um dia, todo o mês é especial, é o mais bonito do ano. Até sem perceber, cantarolo, danço, sorrio mais e não perco oportunidade de referenciar a data mais importante da minha Vida, a que vim ao mundo concreto e que se renova trazendo-me novas oportunidades em um novo ano. As pessoas me parecem (e elas já não são assim?) mais afáveis, os dragões e leões menores, os problemas mais fáceis de resolver.

Eis aí uma pista de que nós vemos e construímos o mundo de acordo com as cores dos nossos sentimentos. Nós, e não o outro.

Gratidão é o sentimento relacionado, e a sensação é de sede, sede de viver mais e melhor!
E esta data já se repete há muitos anos!

Anos. Esta é uma forma de quantificar o tempo, revela nossa necessidade de contá-lo de forma significativa, no caso períodos de doze meses.

Assim o tempo tem um aspecto cíclico. Partimos de um ponto, tecemos uma rede e voltamos a ele, tendo construído um círculo (oxalá não seja vicioso), uma espiral evolutiva. Fechamos, concluímos, uma etapa e logo partimos para outra, morte e renascimento se juntam mais uma vez, bastão passado adiante convidando a continuar a caminhada, as descobertas e, se formos espertos, os aprendizados.
No caso específico o marcador para o terminar/iniciar de etapa é o aniversário.

A palavra aniversário é usada para comemorações festivas, nascimento de alguém, inauguração de um local, enlaces, e também para lembrar a morte, o encerramento, o término, o desastre. Mesmo tendo escrito não consigo ver diferenças. A similitude está em que estes eventos são “passagens” de um estado a outro, de uma etapa para outra, no ciclo evolutivo de cada um de nós.

Aniversário marca a renovação de um período, a repetição de um dado lapso de tempo, seja ele o casamento ou o divórcio, transições, mudanças. Isto! Marca a mudança ou o celebrar de sua ocorrência. Ou de um fato, que ficou na memória, causou riso ou choro, ou os dois (você nunca riu e chorou ao mesmo tempo? Experimente. É renovador.), motivou atitudes, provocou respirações alteradas, impacto. E celebrá-lo ou não (no caso dos que não gostam de seus aniversários), e de que maneira, revela uma identidade, uma marca pessoal e coletiva, que nos diferencia e aproxima. E cada um tem uma forma própria de comportar-se ante um rito de passagem.

Talvez esta palavra, passagem, esteja repetida para nos lembrar da impermanência de todos nós e do que nos cerca. Será por isso que alguns não festejam?

Creio que nos lembramos dos aniversários de mortes de pessoas para honrá-las (ou a sua memória) por seus ensinamentos, por sua contribuição pessoal, seja na vida privada ou pública. E por que não dizer, para re-lembrarmos, e não deixarmos morrer com elas,  conteúdos, quiçá, importantes para nós e o coletivo.
Já a celebração de aniversários de desastres, penso que acontecem quando houve um salto qualitativo sobre eles e por eles, para os sobreviventes, para aquela família ou comunidade. Criação de novos vínculos de confiança, expressões marcantes de coragem, inovação e superação nas reconstruções, independências conquistadas, liberdades afirmadas.  O Holocausto, Hiroshima e Nagasaki, são exemplos. E também para manter viva a promessa de não repetirmos mais a tal “coisa”.

Já os nascimentos são concretude da promessa de vida, perpetuação da espécie, corporificação de amor!
As celebrações de aniversários de nascimentos acontecem desde os tempos antigos. E os elementos que constituem “a festa” têm significados interessantes.

O bolo representa a terra, a concretização, a corporeidade. E como o citado elemento, maleabilidade e fertilidade. É quase um fetiche os bolos de aniversário, de formatos e cores os mais variados, recheados de “tesouros”, são olhados com desejo e disputados com ansiedade (De quem será o primeiro pedaço?).  É talvez nossa primeira experiência em “comer” do corpo do outro.

A vela e a chama representam a vida ascendente, a alma. A parafina líquida (água) assume o estado sólido, envolvendo o pavio, que na presença do ar, será queimado e transformado em lume (fogo), que para manter-se aceso derrete a parafina, tomando-a como combustível. E o ciclo se faz outra vez.

Para os gregos é uma referência a luz que a todos ilumina. Eles dedicavam um bolo de mel redondo com uma vela acesa a Ártemis, deusa do nascimento e da luz serena (a lua), pedindo proteção para o nascido. Antes deles, os mais antigos acendiam velas para proteger o recém-nato dos demônios! Apagar a vela com um único sopro é mostrar o vigor da respiração do aniversariante, essencial à vida.

E também davam presentes para homenagear o que e quem chegava, a nova fase, desejando bom começo, sorte na nova etapa. Com este intuito, davam o que poderia ser útil na jornada iniciante.

Em nosso país costuma-se cantar a música “Parabéns a você”, onde se deseja “muitos anos de vida”, ás vezes sem muita importância se haverá vida nestes anos todos desejados. Consoante os versos cantados, muito mais precisarei responder quantos anos estou completando do que se estou feliz!

E eu estou! E é o que verdadeiramente importa. Como nos geramos, nutrimos e acolhemos.  A cada ano que encerro me descubro com mais conhecimento sobre mim mesma, e mais vontade de aprender, e também menos ilusões, claro, pois o corpo físico de 43 não salta e rodopia com a mesma velocidade que o de 25, porém sinto-me renovada em mim mesma! Viva! Sou o resultado de minhas escolhas, mas agora sei que são escolhas minhas. Os sentidos se aguçam, e posso devorar os frutos ou saboreá-los, o coração compreende melhor as pessoas e mesmo assim continua a se apaixonar, a bater forte e descompassado com as novidades da Vida, os medos são os mesmos, o que é novo é a coragem de sabê-los.


Sou amante de mim mesma, e só na passagem dos anos pude presentear, tornar presente, esta sabedoria na minha Vida! Lembro uma fala de Rolando Toro, “Algumas pessoas se perguntam sobre o significado da Vida, [...]. O significado da Vida é implícito, no ato mesmo de viver, [...]. Este ato mesmo de viver, o ato de ligar-se, não é outro senão o passo titubeante no longo caminho do amor.”

Até o próximo ano!

ELIANA FONSECA

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