quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em tempos de... Por Hilda Nascimento

Conversava, dentro do carro, com alguém muito querido. Sentada no banco do carona eu o olhava de perfil, cabelos grisalhos revoando, a voz grave no volume perfeito, o conjunto de palavras, as marchas passadas, o cheiro do banho há pouco tomado.
- Você está angustiada?
- Não. Por quê? Estou parecendo angustiada?
- Não... é que parece que todo mundo está angustiado. Você não acha?
E assim continuamos a conversar. O trânsito não facilitava uma atmosfera suave. Atualmente, convivemos com congestionamentos dentro da proposta de mais um dia a ser vivido. Entretanto, dentro do carro, a realidade recortada tinha outro tempo. As minhas hipérboles me levam a viajar em detalhes, a maximizar os prazeres. Falei, com alguma dificuldade:
- Hoje um homem quase esmagou o pé da minha amiga com um carrinho de supermercado. Ela teve que pular pra trás e ele nem viu.
- Hoje fui sair do elevador e uma pessoa entrou com tanta velocidade que quase me atropelou. Na verdade, acho que ela também não me viu.
E olhou rapidamente pra mim. E ainda que a conversa não parasse, ainda que seu olhar tenha retornado a atenção pra a direção, eu vi os detalhes coloridos da sua íris que, lugar comum, poderiam parecer ter apenas um tom. Mas não têm. Aqueles olhos de águia contêm labirintos, câmaras, espaços vazios, nuances e temperaturas. Ali moram trechos de morte, sangue, poemas, música e águas. Continuei.
- Você não acha que todos estão se tratando muito mal uns aos outros? Não sei explicar direito... parece que todos trocam grosserias o tempo todo e isto parece normal. Em todos os lugares é assim...
- É verdade.
E me dei conta de que, dentro da bolsa, o bloco de notas com Shakespeare na capa, que ele acabara de me dar, aguardava pra ser inaugurado.
- Adorei o bloco.
- Tenho esta mania. De tempos em tempos arrumo meu gabinete e saio distribuindo coisas que descubro que não vou usar.
Aí  somou-se um sorriso. Não o riso que aperta os olhos e pulsa o peito. Um sorriso. O carro subia uma ladeira e eu não esperei mais:
- Eu gosto muito... muito de você.  
Sem novidade, ele inseriu, imediatamente, outro assunto. Imaginei que isto aconteceria. É fácil lidar com o bem querer declarado quando ele traz uma justificativa. Mas assim... sem “motivo”? Esperei que ele acabasse de falar.
- Você ouviu o que eu lhe disse? Eu gosto muito... muito de você.  Não preciso de um motivo, não estou lhe cantando, não pretendo absolutamente nada. Apenas, gosto muito de você.
E continuamos indo, como dois equilibristas cujo novelo da corda sobre a qual caminham está entre as próprias mãos. 

HILDA NASCIMENTO

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