quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em extinção | Por Samira Simon

Aqui estou eu, recém-chegada de uma reflexão conflituosa, porém recompensadora. Tudo começou, com a revelação no meu mapa de revolução solar de que eu preciso me adaptar a aceleração e virtualidade da era de aquário, senão certamente vou ficar obsoleta, ou o que é pior, entrar em extinção.

Não é querendo defender minha lua em touro que, segundo a leitura astral, é o que me influencia a precisar de tempo para ruminar as coisas, mastigá-las bem, digerindo-as de preferência debaixo de alguma sombra, mas como é mesmo que estão esperando que eu me adapte a era de aquário nesse corpo? Aliás, tem alguém me esperando????

A minha sensação e observação diz que não. Está todo mundo indo sozinho, sem nem mesmo saber pra onde, porém com pressa, muita pressa porque existem milhares de coisas por fazer.

E aí as pessoas me dizem para entrar no fluxo, porque hoje o mundo não está mais construído sobre estruturas sólidas e sim na realidade líquida...
As relações podem ser facilmente descartáveis, a física mudou, podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo e temos tanta liberdade de sermos o que quisermos, em qualquer lugar, a qualquer momento, que não podemos perder nenhuma oportunidade.

Pois bem, podem me intitular de retrógrada, mas decidi que não vou me adaptar a isso!

Há certas coisas bastante interessantes nesse novo mundo. Perceber que a mudança é a coisa mais permanente que há na vida, conhecer pessoas de vários lugares, comunicar com elas a qualquer hora e falar em diversas línguas. Isso é incrível! Deixar de ser tão rígido quanto a estruturas sociais castradoras, como por exemplo, casamentos forçados, papéis sociais impostos por gênero, escolha sexual padronizada. Incrível! Isso permite uma flexibilidade diante da vida.

Mas daí a esquecer que tenho um corpo, e que é nele onde quero viver as experiências da minha vida é demais. Não dá pra ser tão“descolada”.
Meu corpo é meu veículo!

É com ele e através dele que quero conhecer a vida. E quero transitar pelo corpo do outro também.

Na dá pra ficar despertando sensações só a partir de realidades virtuais. Decididamente o “admirável mundo novo” (1) não é pra mim.

“Eu quero engolir o mar e sentir como é ser mar”(2)...

Quero o encontro de corpo e alma. O direito à contemplação e não exclusivamente a ação. Quero transitar pelo mundo com meu corpo e meu corpo pede horas.... de sono, de carinho, de aconchego e dias de reclusão. Com essa aceleração toda não dá!

Eu quero ser veículo pra outros corpos, sustentar a vida na minha barriga, menstruar a cada mês e sentir tudo o que acontece comigo nesses eventos. Quero ser tocada por outras pessoas, reconhecer seus cheiros, me deitar na areia quente da praia e deixar as sensações desses encontros me transformarem numa pessoa melhor.

Podem me chamar de idealista, ingênua, careta, zen, o que for....Pode ser que eu venha realmente a sucumbir a esses tempos, mas o que meu corpo sustenta é essa minha escolha. Entrei na linha da resistência!

“Eu sou meu corpo” (3) e meu corpo tem limites e quer limites, e isso me faz sentir existindo. Meu corpo quer uma realidade cheia de coisas sólidas, ainda que eu possa me banhar nas águas da modernidade líquida.

Vou arriscar entrar em extinção, mas não vou abrir mão dos meus limites. O que eu quero é continuar fazendo vínculos de carne, comer fruta da terra e ter a chance de trocar de pele, sempre de pele.

(1)    Referência ao livro Admirável Mundo Novo de Aldous huxley
(2)    Referência ao conto As águas do mar de Clarice Lispector
(3)     Frase ilustre de Merleau-Ponty, filósofo fenomenologista.

SAMIRA SIMON 
Psicóloga/gestalt-terapeuta. Pesquisa e focaliza trabalho com mulheres há 9 anos.

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