quarta-feira, 1 de junho de 2011

Depressão: Mal do século? ? Simone Paes Coelhos Anjos

Se pensarmos que a depressão é algo novo, que nasceu há cerca de cinco a dez  anos, a resposta é não, pois, ao longo da história da humanidade muitas pessoas, inclusive de vida pública, cometeram suicídio como conseqüência de um distúrbio depressivo. Existe na literatura um livro intitulado “Dicionário de suicidas ilustres” que relaciona o nome da personalidade e o tipo de suicídio. É uma obra de interesse histórico que nos garante que depressão e suicídio, que é a pior complicação da depressão, estão em nosso mundo há muito tempo. 

Se pensarmos, entretanto no volume de casos novos, a depressão é, realmente, o mal do século. Há dez anos atrás uma previsão estatística referiu que na época em que nos encontramos atualmente a depressão seria a segunda causa de morte no planeta, só perdendo para as doenças cardiovasculares (Infarto do miocárdio e  Acidente vascular cerebral-AVC).  A previsão estatística se realizou. 

Em todo o mundo, o número de pessoas deprimidas aumenta e até onde a convicção religiosa tem o suicídio com uma compreensão diferenciada (suicídio seria oferecer a vida por uma causa sagrada), houve um aumento do número de casos.

E o que é depressão?

Uma alteração do humor que é o que dá a tonalidade afetiva ao que vivemos. Se estamos felizes, tudo é maravilhoso e se estamos tristes tudo é nebuloso. Na depressão, como o nome diz, há uma queda do humor, que é uma das funções psíquicas que regula o ritmo das funções corpóreas e isso compromete o  entusiasmo diante de todas as coisas da vida. 

O pensamento fica mais lento, há falha na memória, perda de interesse nas coisas que são preferências habituais e até diminuição do desejo sexual.

Esse quadro que se apresenta diante de nós tem duas formas de compreensão: Química e Psicológica.

Na química entende-se que há uma diminuição da disponibilidade de neuroreceptores que respondem pela regulação do humor, como a serotonina. Se houver uma diminuição da serotonina nós teremos uma inibição do humor progressiva até chegarmos à depressão em seus variáveis níveis de apresentação (Leve, Moderado e Grave).

Na psicológica nós pensaremos em Luto e Melancolia. Lembraremos que desde o nascimento nós temos perdas constantes: Útero materno, amamentação, aconchego familiar ao irmos para a escola, a infância, a adolescência, a casa paterna quando nos casamos, a liberdade completa quando temos filhos, os filhos quando crescem, a juventude, a agilidade, a saúde etc. São todos eventos previstos, porém isso não determina que todos irão vivê-los de uma forma tranqüila. Cada um lida com as perdas de uma forma particular. A forma como recebemos e como reagimos aos eventos da vida vai fazer com que soframos mais ou menos.

Uma “coleção” de dores e angústias, de choros reprimidos e gritos abafados, gera o que podemos chamar de “um caldo grosso de angústia crescente”. Um dia o copo enche e, independente do tamanho da perda daquele momento, se apresenta um desânimo crescente, uma tristeza que se avoluma, uma vontade de se isolar do mundo, se desconectar do grupo.

Nesse momento, cuidado, pois a depressão está se instalando. E quanto mais cedo procurar ajuda menor a evolução do distúrbio. Isolar-se do mundo gera insegurança e, às vezes, para retornar ao convívio social podem ser necessários anos de trabalho terapêutico.

Veja que essa segunda vertente de compreensão do distúrbio depressivo, a psicológica, não pode ser tratada com medicamentos e aí vem a necessidade da terapia, pois, na vida, a todo instante, teremos perdas, até que perderemos o nosso corpo, mas, precisamos, até lá, permanecer no rumo certo. E qual será o rumo certo?

Desde Sócrates, conhecido filósofo que viveu antes de Cristo, há o questionamento sobre o sentido da vida. Apesar de várias controvérsias, existe algo que é comum a todas as vertentes filosóficas humanistas: a vida do ser humano é para engrandecimento íntimo, para uma guerra interna e transformação interna. O homem deve aprender, a cada minuto da vida até a morte. O centro das atenções deve ser o SER  e não o TER, e o respeito mútuo é imprescindível para a paz social.   Como nós nos desviamos do real sentido da vida, há um sofrimento coletivo de questionamentos sobre o significado de tantos conflitos, privações, dores e faltas. Sem um sentido maior que justifique tudo o que vemos no mundo, ”Não dá pra ser feliz”, segundo o poeta Gonzaguinha, dá para deprimir. 

Nos últimos anos, até novos termos estão surgindo como  SUICIDOLOGIA, para estudar o volume crescente do número de casos de suicídio no mundo inteiro. Se não fundamentarmos as nossas vidas particulares e o nosso convívio social, fatalmente continuaremos a construir um mundo insuportável, com valores invertidos e exigências descabidas que geram frustração, insatisfação, desânimo e depressão. 

“Será que existe alguém ou algum motivo importante, que justifique a vida ou pelo menos esse instante?”, fustiga Kid Abelha.

Teremos que seguir, talvez, uma pequena frase que repetimos muito, mas não vivemos: “conhece-te a ti mesmo”, buscar um significado em nossas vidas, fundamentá-las filosoficamente para conseguirmos dar sentido a tudo o que vivemos e não nos desencantarmos com os infortúnios, nem nos desviarmos do objetivo da vida com as distrações que o mundo nos apresenta constantemente. Temos que construir uma forma de vida onde tenhamos um saldo emocional positivo ao longo dos dias. Isso garante a nossa satisfação em viver. Em uma harmonia compatível com as nossas 
capacidades e sem nos desviarmos do objetivo primordial da espécie humana: Evolução constante, transformação e aperfeiçoamento.

SIMONE PAES COELHOS ANJOS
Médica formada e especializada em Psiquiatria pela UFBA – Universidade Federal da Bahia. Integrante da equipe do CAPSIII em Alagoinhas e Professora da Faculdade Santíssimo Sacramento no curso de Psicologia. Autora do livro Depressão, a música de uma vida.

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