quarta-feira, 1 de junho de 2011

De professora a educadora | Por Hilda Nascimento

Do alto dos meus fabulosos 20 anos, recém-saída de uma faculdade que muito havia me ensinado sobre planejamentos, conteúdo, objetivos, leis e até mesmo matemática, estatística e greves, de um momento para o outro, empregada, no meio de uma daquelas aulas corretíssimas, turma de vinte e poucos estudantes, uma criatura de 9 anos me olha enfurecida e diz: “vá tomar no cu”.

Percorri rapidamente, de memória, minha biblioteca pessoal, composta por volumes recomendáveis e me dei conta de que não sabia, em absoluto, o que fazer. O caso se encaixava na cláusula “desrespeito” mas... e daí? Na ausência do espetacular polissilábico “auxiliar de disciplina” ou seu correlato universitário “coordenador de disciplina”, segurei  a criatura pelo braço, deixei-o sentado na sala de espera da Diretoria, entrei e disse: “fulano me mandou tomar no cu”.

Então aquela pessoa fantástica, daquela diretoria específica, me disse em meio a um leve sorriso de simplicidade: “e você? Fez o quê com isso?”.

Aquilo me provocou um arrebatamento! Sim! Eu poderia ESCOLHER o que fazer!  E quando ela pousou novamente o olhar sobre sua mesa e seus escritos, alguma coisa havia se rompido dentro de mim dando espaço para algo novo. Ali eu comecei a brotar como educadora, estando implicada na construção de um diálogo que apontava  para algum lugar que eu desconhecia. A situação tinha um valor implícito e eu  podia escolher descobrir.

Saí da sala ainda sem consciência do que estava acontecendo. A criatura de olhos de fogo estava do lado de fora, com o nariz batendo no teto. Como se não fora o bastante, todos os outros vinte e poucos da turma, também. Aguardavam o momento culminante que (naquela época eu não sabia), definiria o líder e a qualidade de liderança daquele grupo. Foi então que eu olhei para aquela figura enraivecida, as mãos nas luvas de goleiro, a bola de futebol ao lado, os cabelos de fogo em desalinho e o ar de “mato ou morro”. E então eu me vi. Vi a mim mesma na gana pelas minhas causas, no confronto às autoridades instituídas, na irreverência impedida pela educação que tive, nos tapas que calaram os palavrões na minha boca, mas não na minha garganta, as raladuras nos joelhos e a sede de viver às últimas instâncias. Eu estava ali, nele e, naquele jogo, ou transformava a queda de braço em abraço ou quebraria aquele espelho que me falava de mim.

- Todo mundo pra biblioteca!  - eu disse. 
Subiram correndo. Não sei o que esperavam de mim. Peguei vários dicionários, enciclopédias  e distribuí por pequenos grupos.
- Vamos fazer uma pesquisa sobre o cu. A frase que fulano usou lá embaixo não faz sentido a não ser que alguém descubra “o quê” pode ser tomado nesta parte do corpo.
Alguns tempos depois aquela palavra (que quase morri pra falar) perdera a força e, como ninguém conseguiu descobrir o complemento que faria sentido, descemos pra continuar jogando porque a aula era geminada.
Quanto a mim, me salvei.

Definitivamente, não acredito em doutores enchapelados que falam muito sobre tudo e NADA sobre si mesmos. Gente que não se implica. Na minha opinião, o vínculo com o ser aprendiz é o único canal para o verdadeiro aprendizado e este é mútuo, dá-se no aqui e agora do encontro onde ambos se atualizam.
Foi com este ser enfrentador que aprendi a pular o muro da escola sem me ralar, foi com ele que aprendi a recriar as regras de antigos jogos e, em algum tempo, foi ele que se ofereceu pra me ajudar a guardar o material depois das aulas e se tornou meu “assistente”.

Vivi com minhas vísceras 14 anos nesta Escola. Sei que sou uma pessoa melhor para o mundo porque ali, também, me eduquei. A experiência que relatei foi uma das inúmeras que vivi ali dentro, processando alquimias relacionais e revelando ouros desconhecidos. Na verdade, ouros de mim. 
Voltei inúmeras vezes à sala da diretoria, às vezes pra invadi-la com idéias fervilhantes, às vezes com meus grupos em atividades exploratórias, às vezes só pelo prazer de dizer bom dia. Aquela foi minha grande universidade, minha melhor formação, meu grande aprendizado. Foi lá que deixei de ser professora pra ser EDUCADORA.

Um tributo à Escola Experimental, sob a Direção de Amabília Almeida

HILDA NASCIMENTO

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