quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cirurgia Plástica e Beleza: contra-senso cultural? Por Dr. Marcus Vinicius Viana da Silva Barroso

“Filósofos refletem sobre ela e pornógrafos a oferecem.” Frase bastante interessante e que inicia um livro mais interessante ainda intitulado: A lei do Mais Belo – A Ciência da Beleza de Nancy Etcoff.  Deparei-me com este livro meio que por acaso em mais um dia de trabalho durante minha residência de cirurgia plástica na Universidade Federal da Bahia. Ele me foi apresentado por um interno de medicina (durante os dois últimos anos do curso, os estudantes passam por diversas áreas da medicina em regime de internato hospitalar. Após a formatura fazem uma prova, se assim desejarem, para ingressar em uma residência médica na área escolhida. tornando-se ginecologistas, clínicos, cirurgiões, pediatras e etc.). “Poxa, Barroso, acabei de ler um livro que é a sua cara” – disse ele. “Você precisa ler” – já tirando o livro da mochila e me entregando antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.  Para minha surpresa, achei o livro bastante interessante. Ele demonstra como nossa visão do que é belo evoluiu junto conosco na nossa caminhada de um passado distante nas savanas africanas. Expõe como ela foi, e continua sendo, de extrema importância para nossa sobrevivência e como, apesar das diferenças culturais e temporais entre os diversos “aglomerados humanos”, existem noções de beleza que são universais e atemporais.  Aristóteles foi perguntado, certa vez, por que as pessoas valorizam tanto a beleza física e a desejam. Ele respondeu que somente um cego faria esta pergunta.

É muito difícil ficarmos imunes a beleza. De algum modo ela sempre irá nos afetar. Detectamos se um rosto é atrativo ou não tão automaticamente quanto registramos se ele nos é familiar ou não. A beleza é um prazer básico. Um dos critérios para diagnosticar a depressão inclui um questionamento sobre mudança na percepção da pessoa de sua própria atratividade física. Mas o que é a beleza?  A beleza não está na carne, mas na percepção que temos do outro e esta diretamente relacionada com nossas experiências prévias e percepção do mundo ao redor. E é influenciada diretamente pelo que nós pensamos ser o certo e aceito “universalmente” por nossos semelhantes. Mais um resquício evolucionário, já que se perder na multidão como numa manada de gnus no Serengueti africano, é mais vantajoso do que se destacar e atrair a cobiça dos predadores. Notem o paradoxo em que nós vivemos hoje em dia: queremos ser belos e nos destacar, mas ao mesmo tempo criamos um padrão de beleza que deve ser seguido por todos. Tendemos a idealizar uma beleza Ideal, procurá-la nos outros e almejá-la para nós mesmos.

A cirurgia plástica, hoje em dia, está na “moda”.  A febre da beleza contagia a todos e surgem novos tratamentos estéticos a cada dia que prometem milagres.  Recupere sua beleza perdida... Faça a plástica das estrelas... Laser-Hidro-Vibro-Lipo-Body-Shaping-Sculpture (nomes em inglês sempre vendem mais e passam um ar de superioridade até mesmo na medicina, e se forem precedidos da palavra laser então... Coitados de nós com nossa eterna síndrome de inferioridade e dominação cultural americana. Por que será que achamos melhor falar follow-up em detrimento a seguimento? Up-to-date em vez de atualizado? Será memória celular de nossa época como colônia? Será, entretanto, que já conseguimos deixar de ser?). E o que é melhor: tudo dividido em suaves prestações. Existe uma banalização da cirurgia plástica e uma busca por um ideal estético que nem sempre é o mais saudável ou adequado àquela pessoa.  Vemos inúmeros exemplos; que não devem ser seguidos, diga-se de passagem, por todos os lados desde o acordar ate a hora de dormir. É interessante como a sociedade gosta de construir os seus mitos para depois destruí-los num processo autofágico incessante.  A mídia apresenta os modelos de moda, corpo e comportamento, representando referenciais imaginários para os vários tipos de desejos e anseios que devem ser seguidos. 

Vemos o caso recente de Michael Jackson elevado a condição de “semideus” e ao mesmo tempo criticado e destruído por aqueles que o colocaram em tal condição. Mais próximo da nossa realidade temos os diversos casos de jogadores de futebol alçados a fama e fortuna de uma infância pobre para serem logo em seguida jogados às feras para deleite de uma platéia ávida por se alimentar dos restos alheios. 
Não sou contra a beleza, muito menos contra a vaidade. Tolstoi já dizia que a vida sem vaidade é quase insuportável, assim como François de La Rochefoucauld dizia que: "A virtude não iria tão longe se a vaidade não lhe fizesse companhia.". Porém sempre precisamos saber dosar nossa vaidade para que não morramos afogados como Narciso, já que a vaidade nos torna tão crédulos quanto tolos. Como dito anteriormente, acredito que a beleza é um dos prazeres necessários a nossa existência. Sou contra a busca da beleza a qualquer preço e aos aproveitadores com suas falsas promessas, mas não sou contra, de maneira nenhuma, a busca por uma face mais jovem, um corpo mais feminino, mais masculino ou até mesmo um nariz mais harmônico. Uma prótese de silicone pode mudar completamente a auto-estima de uma mulher. Sei que a palavra silicone logo nos lembra das cirurgias estéticas e fúteis, mas não se prendam às imagens das feiticeiras, tiazinhas e, mais modernamente, mulheres fruta (melancia, morango, melão...), frutos de uma visão distorcida do corpo feminino, mas ao mesmo tempo atraentes ao exacerbar qualidades físicas femininas idealizadas no imaginário popular. Imaginem mulheres vítimas de um câncer de mama e mastectomizadas. Tolhidas em uma das expressões máximas de sua feminilidade: os seios; readquirindo uma auto estima perdida através da reconstrução do órgão graças a uma prótese de silicone. Será que o silicone é tão vilão assim? Será que não foi necessária esta febre estética e o dinheiro proveniente dela para que as empresas pudessem desenvolver uma prótese de silicone mais moderna? E será que não conseguimos, por tabela, ajudar milhões de outras mulheres? Não adianta sermos hipócritas. Vivemos num mundo capitalista. Desenvolver um novo produto custa caro e é preciso um retorno financeiro que justifique o seu desenvolvimento. Retorno este que, no caso das próteses, não seria alcançado caso elas fossem utilizadas somente para a reconstrução mamária pós mastectomias.

Fico triste, porém, quando vejo que um lado tão ou mais importante de uma especialidade médica não é sequer citado. Existe uma falta de informação generalizada sobre o que é a cirurgia plástica não só nos meios não acadêmicos, mas na própria formação do estudante de medicina.  Na cirurgia plástica temos que lidar com situações extremamente difíceis, mas que, infelizmente, não dão ibope. A cirurgia reconstrutora é a prima pobre da cirurgia estética, apesar de andarem lado a lado e muitas vezes de mãos dadas, já que compartilham dos mesmos princípios. Qual seria a função de uma face? A função de uma face é, principalmente, se parecer com uma face. E foi justamente deste principio que começou a cirurgia plástica, especialidade cujo nome tem origem na palavra grega plastikos, que significa forma, isto é, a cirurgia que pode mudar o contorno humano transferindo tecidos de uma região para outra.  È uma pena que uma especialidade tão antiga na medicina (Sushruta médico e filósofo indiano descreveu uma técnica para reconstrução nasal 2000 anos A.C. que é utilizada até hoje, por exemplo) esteja tão banalizada e atrelada a interesses simplesmente monetários. A cirurgia plástica, assim como outras especialidades médicas, se baseia em princípios básicos que visam em primeiro lugar à manutenção da vida. Como diria o adágio latino hipocrático: “Primo non nocere” (Primeiro não prejudique). Se conseguíssemos segui-lo em nossas vidas quem sabe não conseguiríamos construir uma felicidade coletiva baseada em alicerces mais sólidos e almejaríamos colocar a cabeça para fora deste nosso “rebanho de gnus”, dar um olé na evolução (aproveitando o ano de copa e já me desculpando com Darwin) e notar que existe alguma coisa errada.

Dr. Marcus Vinicius Viana da Silva Barroso
Cirurgião Plástico, membro adjunto do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), membro especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia plástica (SBCP), especialista em queimaduras, feridas complexas e microcirurgia pela Universidade de São Paulo (USP), professor da disciplina de cirurgia plástica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenador da Unidade de Tratamento de Queimados do município de Cruz das Almas, cirurgião plástico das Obras Socias Irmã Dulce (OSID) e cirurgião plástico do Hospital Geral do Estado (HGE)

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