quarta-feira, 1 de junho de 2011

AXIS MUNDI | Por Hilda Nascimento

O ritual é uma “dança”, composta de atitudes e comportamentos específicos que busca, através de seus símbolos, criar um caminho entre nossos corpos (espiritual, mental, afetivo, instintivo...) e, assim, nos levar ao contato com a mente universal, sacralizando aspectos que poderiam banalizar-se no cotidiano. 

Para que um ritual faça sentido é necessário que seus participantes apresentem uma disponibilidade interna para associações simbólicas, significando cada singularidade com sentido especial, buscando aplicar a experiência vivida no seu contexto cotidiano. Assim, o fenômeno da existência pode enriquecer a socialização entre os seres, anunciando a cada novo movimento “o quê”, de fato, está se fazendo presente, realçando importâncias e revelando o que verdadeiramente faz sentido para a comunidade que ali se implica. Assim, a compreensão dos rituais pode ser respeitada por qualquer pessoa, mas só pode ser compreendida no contexto ao qual pertence.

Os ritos sinalizam o ponto em que o sagrado e o profano se distinguem, tendo como base o cotidiano.  Servem para agregar valores simbólicos à regularidade do tempo, gerando espaços para representações subjetivas, cheias de significação, cujo sentido pode ser substancialmente percebido, vivenciado, pouco pensável e, no entanto, conservarem a imensa importância do sutil capaz de sustentar imensas estruturas.

O MARCO CIENTÍFICO e o MARCO MÍSTICO traçam uma dialética que dança compreensões do sagrado.

O primeiro – o marco científico – traz a ciência como tradutora deste fenômeno, apresentando autores, seus pensamentos, o exercício filosófico como grande mestre explicador.

Podemos, aqui, partir de Gregory Bateson e sua conclusão de que “o sagrado é aquilo que liga... é a origem da consciência de existir no mundo”. Assim, compreender o sagrado, falar sobre ele, nos leva a olhar sobre as relações buscando os padrões que fazem ressoar semelhanças, preservando singularidades, e percebendo, ao mesmo tempo, a unicidade e o todo em todas as coisas.

Edgard Morin também vai caminhar por esta trilha, inserindo aí o conceito de complexidade, convidando a olhar os sistemas com a qualidade “daquilo que é tecido junto”. Portanto, novamente o sagrado aparece como uma possibilidade de inter-relação, na qual pessoa e realidade se alteram juntas e mutuamente à medida que se observam. O exercício da complexidade amplia a capacidade do ser humano perceber a realidade. O humano é levado à ampliação do diálogo pessoal além das fronteiras básicas da ciência, como forma legítima de construir seu saber e poder expressar-se sobre ele.

Nicolescu refere-se ao sagrado como pleno movimento. Sua fala refere-se ao trânsito entre os estados de percepção, abertamente, sem rótulos nem fronteiras, inserindo a experiência do sagrado num espaço atemporal, como aquilo que vai além, enquanto fenômeno de interação, intercâmbio e comunicação instantânea.

Finalizando este rudimento de compreensão científica sobre o sagrado, é importante trazer Mircea Eliade com seu conceito de Hierofania, a capacidade do humano perceber o sagrado em todas as coisas, gerando uma conexão da Terra com o Cosmo, fundando o Axis Mundi, um lugar de recriação do mundo - o lugar do sagrado.  Eliade, também relacional, acrescenta aos conceitos anteriores à presença da natureza e a inclusão do mundo material e não material ao encontro com o sagrado.

O segundo, o marco místico, traz a vivência como espaço de corporificação, onde tudo começa e termina no instante vivido. Dele, só pessoal, particular e intransferivelmente cada um pode falar. É no corpo vivido que toda concepção funda sua tridimensionalidade, seu aspecto terreno, sua humanidade. A possibilidade de vivenciar o sagrado passa por uma abertura a este ensinamento, por uma autorização do corpo a sentir aquilo que o cérebro pode pensar.

Aqui poderíamos listar um sem fim de experiências pessoais, todas impossíveis de alcançar com as palavras, movidas por reações inesperadas, por lágrimas sem fim, por uma sensação profunda de conexão com tudo e com todos, por lapsos de compreensão absoluta dos fenômenos, da própria vida (lapso este que se desfaz instantaneamente tão logo aparece), por sensações de beatitude e de “portabilidade” (moderno!) de uma imensa compaixão dentro do peito.

A vivência do sagrado relembra ao humano sua verdadeira origem, torna lúcida sua memória, instala um profundo sentimento de completude, de conexão, de gratidão pela vida, intensifica a consciência e proporciona o espaço interno perfeito para o sentimento de gratidão.

Sendo esta uma capacidade humana, uma qualidade praticável para enriquecimento das relações com o todo cotidiano, me parece que o grande ponto a ser pensado é este “homo instante” – aquele que perdeu a capacidade de exercitar o sagrado em seu dia a dia. Ele é cria das relações humanas próprias deste instante planetário, que vem perdendo sistematicamente sua sacralidade, sua conexão com a natureza, sua consciência complexidade e interdependência. O “homo instante” é quase a mesma coisa de um “homo solo”.

As enfermidades da civilização alimentam a indústria química que tenta mascarar sentimentos de isolamento, abandono, desespero, falta de sentido, pânicos, identidades esfaceladas, certamente frutos de um tempo em que as relações “líquidas” não estabelecem conexões nutracêuticas e, com isto, o humano precise vestir, umas sobre as outras, armaduras de proteção, tornando-se cada vez mais isolado, mais frágil e, especialmente, mais anestesiado em seus sentidos.

A dessacralização das relações humanas pode ser vista como um fenômeno, observado na desconexão do humano do instante, com a natureza e com o mundo espiritual, resultante de uma falta de consciência de sua condição humana e planetária, interdependente e interexistente. Essa desconexão vem sendo substituída pelas intensas conexões tecnológicas de informação, que formam a marca global do Século XXI. Em meio a um mar de redes de informação, comunicação e tecnologia, o humano do instante vive a ilusão da separação, o isolamento, o abandono da natureza e o medo - a dessacralização de suas relações.

Sem um final que encerre, sem nenhuma conclusão a ser tirada, sem fechar nenhum pensamento, trago Pessoa:

“Multipliquei-me, para me sentir.
Para me sentir, precisei sentir tudo.
Transbordei, não fiz senão extravasar-me.
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente”.

HILDA NASCIMENTO


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