quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em tempos de... Por Hilda Nascimento

Conversava, dentro do carro, com alguém muito querido. Sentada no banco do carona eu o olhava de perfil, cabelos grisalhos revoando, a voz grave no volume perfeito, o conjunto de palavras, as marchas passadas, o cheiro do banho há pouco tomado.
- Você está angustiada?
- Não. Por quê? Estou parecendo angustiada?
- Não... é que parece que todo mundo está angustiado. Você não acha?
E assim continuamos a conversar. O trânsito não facilitava uma atmosfera suave. Atualmente, convivemos com congestionamentos dentro da proposta de mais um dia a ser vivido. Entretanto, dentro do carro, a realidade recortada tinha outro tempo. As minhas hipérboles me levam a viajar em detalhes, a maximizar os prazeres. Falei, com alguma dificuldade:
- Hoje um homem quase esmagou o pé da minha amiga com um carrinho de supermercado. Ela teve que pular pra trás e ele nem viu.
- Hoje fui sair do elevador e uma pessoa entrou com tanta velocidade que quase me atropelou. Na verdade, acho que ela também não me viu.
E olhou rapidamente pra mim. E ainda que a conversa não parasse, ainda que seu olhar tenha retornado a atenção pra a direção, eu vi os detalhes coloridos da sua íris que, lugar comum, poderiam parecer ter apenas um tom. Mas não têm. Aqueles olhos de águia contêm labirintos, câmaras, espaços vazios, nuances e temperaturas. Ali moram trechos de morte, sangue, poemas, música e águas. Continuei.
- Você não acha que todos estão se tratando muito mal uns aos outros? Não sei explicar direito... parece que todos trocam grosserias o tempo todo e isto parece normal. Em todos os lugares é assim...
- É verdade.
E me dei conta de que, dentro da bolsa, o bloco de notas com Shakespeare na capa, que ele acabara de me dar, aguardava pra ser inaugurado.
- Adorei o bloco.
- Tenho esta mania. De tempos em tempos arrumo meu gabinete e saio distribuindo coisas que descubro que não vou usar.
Aí  somou-se um sorriso. Não o riso que aperta os olhos e pulsa o peito. Um sorriso. O carro subia uma ladeira e eu não esperei mais:
- Eu gosto muito... muito de você.  
Sem novidade, ele inseriu, imediatamente, outro assunto. Imaginei que isto aconteceria. É fácil lidar com o bem querer declarado quando ele traz uma justificativa. Mas assim... sem “motivo”? Esperei que ele acabasse de falar.
- Você ouviu o que eu lhe disse? Eu gosto muito... muito de você.  Não preciso de um motivo, não estou lhe cantando, não pretendo absolutamente nada. Apenas, gosto muito de você.
E continuamos indo, como dois equilibristas cujo novelo da corda sobre a qual caminham está entre as próprias mãos. 

HILDA NASCIMENTO

Depressão: Mal do século? ? Simone Paes Coelhos Anjos

Se pensarmos que a depressão é algo novo, que nasceu há cerca de cinco a dez  anos, a resposta é não, pois, ao longo da história da humanidade muitas pessoas, inclusive de vida pública, cometeram suicídio como conseqüência de um distúrbio depressivo. Existe na literatura um livro intitulado “Dicionário de suicidas ilustres” que relaciona o nome da personalidade e o tipo de suicídio. É uma obra de interesse histórico que nos garante que depressão e suicídio, que é a pior complicação da depressão, estão em nosso mundo há muito tempo. 

Se pensarmos, entretanto no volume de casos novos, a depressão é, realmente, o mal do século. Há dez anos atrás uma previsão estatística referiu que na época em que nos encontramos atualmente a depressão seria a segunda causa de morte no planeta, só perdendo para as doenças cardiovasculares (Infarto do miocárdio e  Acidente vascular cerebral-AVC).  A previsão estatística se realizou. 

Em todo o mundo, o número de pessoas deprimidas aumenta e até onde a convicção religiosa tem o suicídio com uma compreensão diferenciada (suicídio seria oferecer a vida por uma causa sagrada), houve um aumento do número de casos.

E o que é depressão?

Uma alteração do humor que é o que dá a tonalidade afetiva ao que vivemos. Se estamos felizes, tudo é maravilhoso e se estamos tristes tudo é nebuloso. Na depressão, como o nome diz, há uma queda do humor, que é uma das funções psíquicas que regula o ritmo das funções corpóreas e isso compromete o  entusiasmo diante de todas as coisas da vida. 

O pensamento fica mais lento, há falha na memória, perda de interesse nas coisas que são preferências habituais e até diminuição do desejo sexual.

Esse quadro que se apresenta diante de nós tem duas formas de compreensão: Química e Psicológica.

Na química entende-se que há uma diminuição da disponibilidade de neuroreceptores que respondem pela regulação do humor, como a serotonina. Se houver uma diminuição da serotonina nós teremos uma inibição do humor progressiva até chegarmos à depressão em seus variáveis níveis de apresentação (Leve, Moderado e Grave).

Na psicológica nós pensaremos em Luto e Melancolia. Lembraremos que desde o nascimento nós temos perdas constantes: Útero materno, amamentação, aconchego familiar ao irmos para a escola, a infância, a adolescência, a casa paterna quando nos casamos, a liberdade completa quando temos filhos, os filhos quando crescem, a juventude, a agilidade, a saúde etc. São todos eventos previstos, porém isso não determina que todos irão vivê-los de uma forma tranqüila. Cada um lida com as perdas de uma forma particular. A forma como recebemos e como reagimos aos eventos da vida vai fazer com que soframos mais ou menos.

Uma “coleção” de dores e angústias, de choros reprimidos e gritos abafados, gera o que podemos chamar de “um caldo grosso de angústia crescente”. Um dia o copo enche e, independente do tamanho da perda daquele momento, se apresenta um desânimo crescente, uma tristeza que se avoluma, uma vontade de se isolar do mundo, se desconectar do grupo.

Nesse momento, cuidado, pois a depressão está se instalando. E quanto mais cedo procurar ajuda menor a evolução do distúrbio. Isolar-se do mundo gera insegurança e, às vezes, para retornar ao convívio social podem ser necessários anos de trabalho terapêutico.

Veja que essa segunda vertente de compreensão do distúrbio depressivo, a psicológica, não pode ser tratada com medicamentos e aí vem a necessidade da terapia, pois, na vida, a todo instante, teremos perdas, até que perderemos o nosso corpo, mas, precisamos, até lá, permanecer no rumo certo. E qual será o rumo certo?

Desde Sócrates, conhecido filósofo que viveu antes de Cristo, há o questionamento sobre o sentido da vida. Apesar de várias controvérsias, existe algo que é comum a todas as vertentes filosóficas humanistas: a vida do ser humano é para engrandecimento íntimo, para uma guerra interna e transformação interna. O homem deve aprender, a cada minuto da vida até a morte. O centro das atenções deve ser o SER  e não o TER, e o respeito mútuo é imprescindível para a paz social.   Como nós nos desviamos do real sentido da vida, há um sofrimento coletivo de questionamentos sobre o significado de tantos conflitos, privações, dores e faltas. Sem um sentido maior que justifique tudo o que vemos no mundo, ”Não dá pra ser feliz”, segundo o poeta Gonzaguinha, dá para deprimir. 

Nos últimos anos, até novos termos estão surgindo como  SUICIDOLOGIA, para estudar o volume crescente do número de casos de suicídio no mundo inteiro. Se não fundamentarmos as nossas vidas particulares e o nosso convívio social, fatalmente continuaremos a construir um mundo insuportável, com valores invertidos e exigências descabidas que geram frustração, insatisfação, desânimo e depressão. 

“Será que existe alguém ou algum motivo importante, que justifique a vida ou pelo menos esse instante?”, fustiga Kid Abelha.

Teremos que seguir, talvez, uma pequena frase que repetimos muito, mas não vivemos: “conhece-te a ti mesmo”, buscar um significado em nossas vidas, fundamentá-las filosoficamente para conseguirmos dar sentido a tudo o que vivemos e não nos desencantarmos com os infortúnios, nem nos desviarmos do objetivo da vida com as distrações que o mundo nos apresenta constantemente. Temos que construir uma forma de vida onde tenhamos um saldo emocional positivo ao longo dos dias. Isso garante a nossa satisfação em viver. Em uma harmonia compatível com as nossas 
capacidades e sem nos desviarmos do objetivo primordial da espécie humana: Evolução constante, transformação e aperfeiçoamento.

SIMONE PAES COELHOS ANJOS
Médica formada e especializada em Psiquiatria pela UFBA – Universidade Federal da Bahia. Integrante da equipe do CAPSIII em Alagoinhas e Professora da Faculdade Santíssimo Sacramento no curso de Psicologia. Autora do livro Depressão, a música de uma vida.

Pensando a paixão | Por Hilda Nascimento

A paixão é um sentimento fulminante e que pode acontecer à primeira vista. O prazer que ela provoca é tão intenso que desespera quem a vivencia. Como um vício! Trata-se de um estado alterado do cérebro, disparado, sem razão previsível, em que um coquetel de hormônios e outras substâncias provocam sinais característicos, tais como: euforia, busca intensa por satisfação sexual, sensação indisfarçável de felicidade, energia aumentada, insônia, perda de apetite, tremor nas mãos, palpitação, respiração acelerada, pensamentos obsessivos, grande empatia, muita saudade, dependência emocional e finalmente, o foco somente nas qualidades do ser amado (visão de corredor).

“Tenho tido paciência, nunca esquecerei... Temores, dores para o céu se foram e uma sede insana tolda minhas veias...” (Rimbaud )

Estar apaixonado é experimentar um turbilhão de emoções, muitas vezes contraditórias e volúveis como medo, insegurança e dúvidas. E, à medida que a pessoa mergulha intensamente nessa experiência, desenvolve em si mesma um “embaçamento” da visão crítica do outro com quem está envolvida.

Os estudos mostram que as endorfinas e serotoninas, juntamente com outras substâncias, estimulam certas áreas do cérebro que favorecem o estado de prazer intenso e, por outro lado, inibem outras regiões que reduzem o discernimento crítico sobre o ser amado. O cérebro nos engana e cria uma percepção irreal do outro, em que defeitos não existem, o medo do desconhecido é drasticamente reduzido e os critérios de avaliação racional do parceiro estão muito diminuídos.

Fica claro que a paixão é uma demanda de origem química, incontrolável, capaz de caotizar a percepção humana como uma experiência de vivência em longa overdose. É impossível o corpo humano permanecer nesse estado por toda vida, totalmente transtornado em todas as suas funções. Com o passar do tempo, a convivência entre apaixonados pode equilibrar-se em amor ou, de uma hora para outra, desaparecer da mesma forma irracional com que nasceu.

A despeito de todo movimento desorganizador que a paixão provoca, é lamentável viver num estado morno de emoções medianas. As cores da vida são essencialmente intensas, brilhantes! O amor precisa de “picos de paixão” para manter-se atualizado e fremente. O mais é tíbio. É tedioso e certamente acabará por falta de calor.

"Ora, o mais belo dentre todos esses anjos maus
Tinha dezesseis anos sob sua coroa de flores.
De braços cruzados sobre os colares e as franjas,
Ele sonha, o olho cheio de chamas e de choros." (Paul Verlaine)

Eu não tenho idade. Eu tenho sol e carne em meu corpo!" (Arthur Rimbaud)

HILDA NASCIMENTO

Sinto muito, mas eu sinto muito! | Por Ana Paula Marques

O mundo pós-moderno ou a modernidade líquida, com diria Bauman, é marcado pelo individualismo e pela liquefação dos valores e das relações: o esgaçamento do tecido social e suas consequências para o âmbito dos relacionamentos humanos. 

Tomados pela normalidade doentia de que “tudo é normal”, acostumamo-nos à anestesia de nossos sentimentos diante das experiências inexpressivas ou brutais pelas quais passamos. A rapidez dos acontecimentos e o giro rápido das notícias e dos eventos dão a sensação de impotência diante da vida. Acatamos, portanto,  viver superficialmente para não dar oportunidade à evasão de sentimentos e emoções que serão necessariamente amordaçadas: em nosso mundo, não cabem sentimentalismos exacerbados, expressões emocionais exageradas ou, mesmo, discursos longos sobre a ética das relações na contemporaneidade, sob pena de se perder tempo e se tornar inadequado nos espaços sociais.

O filme “Mary e Max – uma amizade diferente” convida-nos, dentre tantas outras reflexões, a questionar o lugar social e ideológico da relações humanas nesse mundo líquido, feito de amores fluidos. O diferente é palavra de ordem no filme, no entanto foge ao lugar-comum dos discursos cansativos e sem muitos resultados sobre “o respeito à alteridade”. A animação expõe, de forma sensível e extremamente humana, o diferente, que deixa de ser exótico e passa a ser algo nosso, elemento de identidade. A síndrome de Aspergen, cautelosa e sensivelmente discutida no filme, é apresentada pela perspectiva daquele que é classificado como portador dessa deficiência, Max, um indivíduo de 40 anos que vive sozinho em Nova York. O olhar que ele tem de sua síndrome, a forma como convive com ela e a maneira como a descreve à sua  única amiga Mary, uma menina de 8 anos que mora na Austrália, comovem o interlocutor do filme, que, com um sorriso de canto de boca, identifica-se como as personagens e se permite refletir até que ponto essa síndrome não é mais um mal de nosso mundo pós-moderno.

Tomo, então, a síndrome da personagem Max como metáfora para refletir sobre esse mal que nos acomete e nos deixa com a “sensação de que não sentirmos nada”. A normose em que vivemos silencia-nos diante do que ainda poderia nos tocar. Como Max, parece que choramos nossas dores, que são o tempo todo rechaçadas e reprimidas - mesmo às custas de dores anestésicas bem maiores. Desaprendemos, com o tempo e com as regras sociais, aquilo que o instinto humano oferece à criança no início de sua existência e que é primordial para as suas descobertas no mundo: os sentidos, já tão delimitados pela própria ciência. Esquecemos que podemos pensar e compreender a realidade por outros (e todos os) sentidos: pelo tato, pelo olfato, pela audição, pelo paladar, pela visão, pela intuição… Esquecemos que somos seres complexos e que exigimos, simultaneamente, uma percepção requintada e visceral do mundo que nos cerca… Esquecemos que podemos e devemos sentir muito, de todas as formas, com a inteireza do nosso ser!

Experimentemos conduzir nossa consciência para o nosso corpo, para os nossos poros, nossas entranhas, para aquilo que temos de mais verdadeiro e essencial em nós. Experimentemos a NESTESIA da vida, a sinceridade e humanidade das relações. Mais que isso, experimentemos a SINESTESIA das experiências vividas: ouvir com as mãos e os pés, saborear com o olfato, tocar com os olhos, sentir de verdade você e outro.

Experimente, ouse dizer ao mundo líquido do qual faz parte: 
“Sinto muito, mas eu SINTO MUITO!”.

ANA PAULA MARQUES
Profª de Língua Portuguesa e Literatura, pós-graduada em Língua e Literatura Vernáculas pela UFBa.


Reflexões sobre a intolerância | pesquisa de Hilda Nascimento

Victor Hugo afirma que dois dos fundamentos do preconceito e da intolerância são a insegurança e o medo.
“Os habitantes simplórios das costas e dos campos aderiam à reprovação pelo incômodo que lhes causava a novidade”.
Comecemos, assim, a refletir brevemente sobre este tema.
“... queres ir para o mundo de mãos vazias, pregando aos homens uma liberdade que a estupidez e a ignomínia naturais deles os impedem de compreender, uma liberdade que lhes causa medo, porque não há e jamais houve nada de mais intolerável para o homem e para a sociedade! Vês aquelas pedras naquele deserto árido? Muda-as em pão e atrás de ti correrá a humanidade, como um rebanho dócil e reconhecido, tremendo, no entanto, no receio de que tua mão se retire e não tenham eles mais pão”. (Os irmãos Karamazov, DOSTOIÉVSKI, 1970: 189)
O símbolo da “ilha” acompanha a humanidade há muito tempo. Várias personagens da literatura e do imaginário humano refugiaram-se nelas para garantir a sua própria preservação: Peter Pan e a sua Terra do Nunca, onde não era preciso crescer, inúmeros mitos gregos, Mobby Dick e sua baleira,  O Pequeno Príncipe e seu mini mundo, Fernão Capello Gaivota e um céu aonde ninguém conseguia chegar, As Brumas de Avalon e as senhas para serem desvendadas, Jonas e o interior da baleia branca. O ser humano moderno não é um Robinson Crusoé, desterrado em uma ilha, cuja única atividade era a de pescar e de caçar para sua sobrevivência. O homem tem que viver em sociedade, pois já se disse que ele é um animal político e social. E quando começa a se associar, a entrar em contato com mentes que pensam de forma diferente da sua, com corpos que agem diferente do seu, com verdades que se chocam com as suas, a contradição aparece. E é justamente aí que surge o ensejo de praticar a tolerância, que nada mais é do que o respeito para com o pensamento alheio.
“Compreendo como o Universo estremecerá quando o céu e aterra se unirem no mesmo grito de alegria, quando tudo o que vive ou viveu proclamar: «Tens razão, Senhor Deus; agora as tuas vias nos são reveladas!», quando o carrasco, a mãe e o menino se beijarem e declararem com lágrimas: «Tens razão, Senhor Deus!» Sem dúvida, então, a luz se fará e tudo será explicado. Mas eis a dificuldade: não posso admitir tal solução” (Dostoiewsky).

A virtude é a potência de um ato. É a atualização do que já existe no âmago do ser. A virtude do abacateiro é produzir abacate. A virtude do santo é produzir santidade. Segundo Aristóteles, a virtude deve ficar no meio, ou seja, nem se exceder para cima e nem para baixo. Especificamente para o humano, quatro são as virtudes essenciais: a Verdade (Justiça), a Temperança, a Prudência e a Coragem. São potenciais que inserem valor às nossas atitudes. O relacionamento entre vício e virtude coloca-nos frente à lei da utilidade marginal decrescente, a qual nos ensina que o excesso de uma coisa pode transformar-se no seu oposto. Assim sendo, o excesso de humildade pode transformar-se em orgulho e o excesso de orgulho pode transformar-se em humildade.
A verdadeira tolerância é humilde, mas convicta. Respeita as idéias e condutas dos demais, sem desprezá-las, mas também sem minimizar as diferenças, porque sabe que é a contradição que leva ao bem comum. Nesse sentido, a frase atribuída a Voltaire, "Não concordo com nada do que você diz, mas defenderei o seu direito de dizê-lo até o fim", é providencial para elucidar o respeito que devemos ter para com os nossos semelhantes, sejam de que condições forem. Isto não implica silenciarmos diante dos conflitos disfarçando nosso medo ou nossa inabilidade para o confronto. É no atrito (força que oferece resistência ao movimento relativo de objetos que estão em contato entre si) que a rocha bruta se torna pedra preciosa.
Respeitar o próximo é não lhe ser indiferente. É procurar vê-lo no interior do seu ser e implicar-se com ele. Diz-se que o sábio pode se colocar no lugar do ignorante, mas este não pode se colocar no lugar do sábio, porque lhe faltam condições para bem avaliar o que é sabedoria, conhecimento e evolução espiritual.
John Locke nos faz ver que o combate à intolerância exige uma atitude de tolerância, mas também de intolerância – quando esta se faz necessário. Mas, quem decide quando este ou aquele indivíduo, esta ou aquela religião, esta ou aquela coletividade, não pode ser tolerada? Ainda que estes sejam os preconceituosos, os sociopatas, os contraventores... quem poderá dizê-lo sem lidar, também, com a intolerância?  Na mini série Global Queridos Amigos, uma personagem acaba com seu casamento quando encontra o atual marido ironizando homossexuais junto a seus dois filhos menores. Em algum ponto seguinte, ele diz que: se soubesse disso, teria segurado a onda. E escuta que não era esta a questão: era mais fundo – era de sentir de uma forma diferente, o que não se faz, apenas, por um comando mental.  Numa sociedade onde os interesses se contrapõem e se antagonizam, quem interpreta, por exemplo, quais são os “bons costumes” e o que é prejudicial aos mesmos?
Afinal, quais as restrições à tolerância? Mesmo o mais ferrenho defensor da liberdade de expressão pode ver-se diante de circunstâncias que a questione. Por exemplo, é possível tolerar a liberdade de expressão quando esta ataca a religião e os bons costumes? Imaginando uma sociedade democrática, é possível tolerar a liberdade de expressão para aqueles que colocam em risco a democracia? Podemos, em nome da tolerância, admitir a livre expressão de literatura de cunho racista e preconceituoso? É possível tolerar culturas que cometem atentados aos direitos humanos em nome do respeito ao multiculturalismo?
No século XVIII, Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, se perguntava: “O que é a intolerância?” E, respondia: “É o apanágio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros;  perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices, é a primeira lei da natureza”. Há muito que a humanidade padece deste mal. O preconceito religioso, étnico, político, cultural, ou seja, a incapacidade humana em se reconhecer no “outro” e respeitá-lo é, sem sombra de dúvidas, um fator essencial gerador da intolerância. Mas seria insuficiente tentar encontrar respostas para a intolerância apenas nestes fatores. É preciso considerar as formações societárias específicas, os contextos históricos diferenciados. Constantemente, o preconceito e a intolerância são estimulados por motivos essencialmente econômicos. Por exemplo, a sociedade escravagista necessita desenvolver uma teoria justificadora da pretensa superioridade racial dos brancos para impor a estrutura econômica produtiva fundada no trabalho escravo. No entanto, o fator econômico não esgota a questão. Até mesmo fatores de ordem psíquica devem ser levados em conta. Neste processo, a Educação cumpre um papel fundamental, seja no sentido de contribuir para a introjeção do preconceito e, assim, fortalecer atitudes intolerantes; seja para construir uma sociedade sem espaço para o preconceito, com respeito mútuo entre os diferentes.
As sociedades humanas passaram por transformações substanciais, mas estas não extinguiram o preconceito nem a intolerância. O projeto iluminista fundado na crença da razão enquanto fator de progresso humano fracassou. O século XX gerou barbáries como o holocausto e as guerras “em nome de Deus” permanecem atuais. No mundo globalizado pós-11 de setembro, o preconceito e a intolerância se funda em novas formas e procura se legitimar por um discurso ocidental, estimulado pelo Império, cujas conseqüências imediatas é a criminalização de qualquer crítica à sua hegemonia, a qualificação indiscriminada de “terrorista” e as restrições às liberdades individuais e à própria democracia, em nome da segurança. As potências atuais resgatam o grande Leviatã e, na “guerra de todos contra todos”, todos somos suspeitos em potenciais. Neste contexto, os movimentos de migrações humanas, os inúmeros campos de refugiados espalhados pelo mundo, potencializam uma realidade explosiva: a crise econômica capitalista, a concorrência pelo emprego, o aumento da desigualdade social, a convivência entre diferentes culturas etc. Estes elementos geram um campo minado no qual as atitudes os preconceitos e intolerância ganham audiência e teorias legitimadoras.
No Brasil, não é diferente. Impactado pelas transformações em âmbito mundial, carregamos ainda a triste realidade de uma dívida social, herança da nossa formação histórica e das políticas econômicas adotadas pelos diferentes governos. À desigualdade social que grassa em nossa sociedade, soma-se a discriminação racial e o preconceito de classe. Não se trata de repetir estatísticas, por demais conhecidas. Convivemos com as injustiças sociais e raciais, as quais são até transformadas em obras cinematográficas de sucesso (de certa forma, até a miséria se transforma em objeto de consumo e também fonte de renda). O abismo da desigualdade social se amplia e as esperanças são renovadas a cada governo. Em tais condições, o preconceito e a intolerância, aberto ou dissimulado, tende também a perdurar. Este se faz presente em todos os espaços: no trabalho, nas escolas, nas universidades, nos meios de comunicação em geral, etc. Contribuir para transformar esta realidade é também um compromisso dos intelectuais com responsabilidade social diante do mundo em que vive, com o seu país e com os que econômica e culturalmente desfavorecidos.
À intolerância religiosa soma-se a intolerância política, cultural, étnica e sexual. A inquisição está presente no cotidiano dos indivíduos: no âmbito do espaço doméstico, nos locais do trabalho, nos espaços públicos e privados. Ela assume formas sutis de violência simbólica e manifestações extremadas de ódio, envolvendo todas as esferas das relações humanas. A intolerância é, portanto, uma das formas de opressão de indivíduos em geral fragilizados por sua condição econômica, cultural, expressiva, étnica, sexual e até mesmo por fatores etários. Muitas vezes nos surpreendemos ao descobrir a nossa própria intolerância.
A liberdade não é para qualquer um, muito menos para aqueles que não conseguem dominar os seus caprichos. Não se consegue ser livre quando se é fraco. A liberdade é dom exclusivo dos homens de têmpera, que sabem discernir o que exige a justiça e o bem-estar dos outros e livremente se dispõem a executá-lo (Dosoiewsky).


HILDA NASCIMENTO

Pedalando e caindo na vida: cinco lições de paternidade | Por Alessandro Marimpietri


“Caminante son tus huellas
El camino nada más
Caminante no hay camino
Se hace camino al andar”

Antonio Machado

As férias escolares em geral ensejam sentimentos contraditórios nas crianças. Por um lado descortina-se uma grande chance de se jogar de braços abertos na preguiça e no prazer do nada fazer. Por outro, uma sensação de vazio costuma acometer os primeiros dias do recesso, uma vez que se está muito acostumado com aquela rotina, e mais ainda àquelas pessoas com quem convivemos por um longo ano. Lembremos que o tempo para as crianças se faz presente em suas vidas de um modo particular e visceralmente distinto do modo dos adultos. Um ano para uma criança de 06 ou 07 anos significa quase a sua vida toda!

Neste contexto é que João e Pedro estavam mergulhados. Era para ser um dia de sol de férias, pois, embora este estivesse no meio da semana, seria o dia em que seu padrasto havia se comprometido a acompanhá-los numa jornada de aventuras que contemplava um passeio a uma pista de barro batido para corrida de bicicletas, seguido por um reconfortante banho de mar.

Dormir cheios de expectativas na noite anterior não assegurou aos pequenos personagens um dia daqueles em que raios dourados cintilam no céu azul e cujas primeiras horas já são um convite, quase intimatório, a inúmeras atividades. Chovia torrencialmente. A cada pingo de chuva diluía-se a esperança por um dia de diversões, pois as crianças acreditavam que nenhum adulto em sã consciência permitira um passeio ao ar livre com aquele nefasto tempo que já insistia por algumas horas.

Desde ai começam as importantes lições do padrasto. Negando o que seria não apenas suspeitado, mas tido como certo. Ele, que chamaremos de Luiz, questionou às crianças se elas, mesmo com aquele tempo nada convidativo, queriam se arriscar e fazer o passeio. As crianças de pronto toparam o desafio, mesmo sabendo que isso implicaria novas regras, mais pertinentes à chuva do que ao sol.

PRIMEIRA LIÇÃO: Esse pai, por que assim o foi nesse e em muitos outros momentos, ensinava à criançada, com poucas palavras, mas com importantes gestos, que ousar, arriscar e arcar com as conseqüências oriundas destas ações podem ser exercícios fundamentais à formação adulta e ao compasso de uma formação pautada na autonomia, capaz de desenvolver criatividade e um pouco de beleza na vida. Ele ousou e surpreendeu, com isso ao invés de deseducar seus filhos, lhes ensinou mais uma daquelas coisas que geralmente não cabem nas palavras, mas se ajustam bem à vivência.

Os meninos ainda incrédulos, mas preenchidos de contentamento e expectativa, arrumaram-se e também organizaram suas pranchas de surf e suas bicicletas para a aventura, que começara a se concretizar.

Lá chegando, o barro molhado e os montes da pista mais pareciam um cenário de um dos muitos filmes que costumavam assistir, do que uma realidade ou um desafio. Foram orientados, devidamente, sobre os novos riscos que a chuva impunha à pista e que se viam agigantados pela pouca idade das crianças e por sua, já sabida, pouca experiência neste tipo de terreno.

Os meninos não se intimidaram e partiram com a mesma ânsia que os motivava anos antes a enfiar o dedo no glacê do bolo de aniversário de um colega. As pedaladas e o vento misturado com água da chuva invadiam suas narinas e, de alguma forma, seus espíritos. E eles gritavam e subiam e desciam e vibravam com olhos esbugalhados pela velocidade. Foi seguramente uma sensação de liberdade ímpar e inesquecível... Tudo no momento dizia, sem nada dizer, algo como se viver até ali já tivesse valido a pena.

Até que eles distraíram-se com tanto entusiasmo e emoção e se esqueceram de pedalar o suficiente para subir um dos morros íngremes da pista em questão. Caíram num tombo feio, pois a chuva diminuiu o atrito necessário entre as rodas e o barro. Machucaram-se e choraram, como qualquer criança o faria nesta situação. Luiz se aproxima e nos dá a segunda importante lição do dia.

SEGUNDA LIÇÃO: Ele pediu que os meninos se acalmassem e enquanto examinava com carinho, mas sem piedade, a gravidade das pequenas raladuras, pediu que os meninos o lembrassem das recomendações dadas em casa e antes das bicicletas sujarem suas costas de barro. Os garotos repetiram o que já havia sido dito e então disseram um reticente “é mesmo” que encerraria suas lamúrias e suas lágrimas. Ou seja, precisamos medir nossos passos e gozar da vida até onde possamos controlar seu guidão, pois o risco de cair numa enxurrada desenfreada de prazer inconseqüente é mesmo muito grande. Para andar é preciso cair e para cair é preciso saber levantar. E para não mais cair é preciso aprender com os erros e assumi-los para si.

Seus ensinamentos não pararam por ai. Ele lembrou que a segunda parte do passeio seria na praia com direito a banho de mar e um refrigerante. O garoto menor disse-lhe, num resmungo de apelo, que se fosse ao mar suas feridas iriam arder. Luiz não o enganou e afirmou que de fato o iodo e o sal da água marinha fariam arder às feridas, mas também as ajudaria a cicatrizar mais rápido. Completou sua fala dizendo ser esta uma escolha dos meninos. Ensinando uma vez mais o que é autonomia, eles conversaram e o mais novo parece ter sido convencido pelo mais velho que se propôs a ajudar caso ardesse muito.

A praia terminou por ser um destino unânime. Lá se foram dentro de uma camionete azul escuro, já cantando o esquecimento das dores das feridas. Ao cair no mar, como era esperado, a dor bateu novamente na porta do corpo dos meninos e eles gritavam de dor e riam e pulavam as ondas e gritavam de dor e riam e pulavam as ondas... num vai e vem de felicidade e enfrentamento. Dentro da água Luiz nos deu a terceira lição.

TERCEIRA LIÇÃO: Ele disse aos meninos que, às vezes, as coisas não saem como o planejado e que isso é mesmo muito ruim. Mas que se soubermos e pudermos driblar as dificuldades as coisas até que podem ser, se não completas, ao menos interessantes. Os garotos concordaram e no retorno para casa foram perguntados se valeu a pena o passeio, mesmo com chuva, queda, feridas e ardor. A resposta foi pronta em coro, fazendo com que um sim retumbasse no automóvel, daquele jeito que só criança sabe fazer.

QUARTA LIÇÃO: Biologia tem muito pouca relação com a paternagem e com todas as inerentes marcas que este termo carrega e promove. Cuidar, educar e marcar um filho simbolicamente é um ato social de adoção. A mãe tem mais chance de permitir que a biologia atravesse sua história com seu filho, desde quando ela o carregue no seu ventre, mas nem isso garante uma relação puramente biológica. É preciso adotar os filhos, sejam eles biológicos ou não. Em suma, todo e qualquer filho que conte com a ação de um pai na construção de suas balizas simbólicas subjetivas terá sido adotado por aqueles assim desejaram.

QUINTA LIÇÃO: A educação pela experiência tem muito mais potência nos dias atuais do que qualquer outra forma de transmissão desse projeto civilizador. Estamos definitivamente desnaturalizados, desde a modernidade, pois esta se encarregou de fossilizar a tradição e instaurar o novo e o inventivo como via da construção do ser. Inauguramos, assim, a era das múltiplas possibilidades. Na atualidade, hiper-inflamos esta perspectiva e faz-se necessário ensinar quase tudo a nossas crianças, mas não, para isso, contando apenas com uma retórica, quase sempre inócua, mas sim com o grande poder das experiências.

É mesmo incrível como alguns pais já perceberam como um dia chuvoso pode ser muito interessante para se divertir com seus filhos e ainda lhes ensinar tanto sobre a vida.

ALESSANDRO MARIMPIETRI
Psicólogo, psicanalista, professor universitário, doutorando em Ciências da Educação

Quanto custa um sonho? | Por João Travassos

Quero falar um pouco dos sonhos – e conquistas - da adolescência da minha vida, que se tornaram um marco na minha formação pessoal. Acredito que, para a maioria das pessoas, essa fase de escolhas, decisões, lutas e desgastes emocionais e físicos, fazem com que os chamados sonhos, sofram uma imensa pressão para que sejam esquecidos ou deixados de lado. Muitas vezes são taxados de lunáticos, impossíveis, improváveis, fora da realidade do mercado atual e essas baboseiras. Por isso, a pergunta do titulo: quanto custa um sonho?

Essa pergunta na verdade começou a fazer parte de minha vida bem depois de já ter pago uma boa parcela dessa dívida. Morando em São Paulo, longe de todo o conforto que minha família me proporcionava e longe de todas as pessoas cujas presenças afetivas poderiam disfarçar o risco que eu estava correndo. Com a saúde sempre em questão por uma alimentação bizarra e uma vida longe de saudável, com todo o sofrimento que a saudade me causava, um amigo próximo, percebendo toda a minha situação, fez a seguinte observação: “é, esse é o preço do seu sonho...” Desde então penso nessa frase quase que diariamente.

Deixando o drama de lado, comecei a fazer minhas escolhas um tanto cedo. Bem naquela fase já citada acima, resolvi não apagar nem deixar de lado meus sonhos. Ser músico, viver de musica, pela arte, ter uma vida ligada a cultura, sem rotina e padrões. Penso que pra um pai/mãe de um adolescente de 15 anos isso parece um delírio. É aí que se começa a pagar o preço, travando uma luta para mostrar que não é delírio, que é possível sim e que “dá futuro”.

Deixar uma carreira acadêmica de lado e uma vida bem projetada (pelos pais, na verdade...) pra trás, tem um valor financeiro enorme. Mas esse se torna ínfimo em comparação ao valor sentimental da decisão. O sofrimento é geral. Os pais sofrem, se desesperam, ameaçam, se frustram imensamente quando percebem que o filho está seguindo por um caminho chamado de “alternativo” profissionalmente. Esse filho, no entanto, sente o peso das barreiras sociais, o desgaste da luta constante por uma vida artística decente, e as frustrações sentimentais se multiplicam até que as coisas se estabilizem. Mas sempre se estabilizam. Como em qualquer carreira, os competentes e inteligentes se estabelecem no mercado. Estabelecem-se, com o diferencial de agregar felicidade (e não apenas dinheiro) à vida.

Como costumamos comentar no meio, o músico, ator, artista plástico e derivados, acabam criando uma casca. São praticamente os mesmo preconceitos sofridos, as mesmas perguntas de sempre e os mesmos desgastes: “mas você faz o que além de tocar?” ou “ você trabalha com o que durante a semana?” ou “você só faz isso da vida?” Como se passar, às vezes, 12 horas num estúdio ou 16 horas viajando de ônibus numa turnê fosse tranquilo! Estamos acostumados com essas perguntas e nem sempre é fácil viver provando competência no que fazemos pra poder obter respeito da sociedade e credibilidade no mercado. E a “dívida” vai aumentando. Não sai barato pro ego ou pra alma ter que lidar com isso diariamente.

Não cheguei e nem sei se vou chegar à resposta da minha própria questão... Mas sei que o preço do meu sonho, por mais alto que seja, a mim compensa. Estabeleci-me no mercado, como muitos que conheço, passando por todas essas dificuldades e agora sei que é possível sim viver de música, pra música e pela arte. E as vertentes que o mercado cultural proporciona é que são apaixonantes. Tocar, cantar, gravar, produzir, viajar, conhecer novas culturas, criar e participar de belas composições, acompanhar o crescimento artístico das pessoas, realizar festas e festivais, escolher viver bem e feliz... é caro, mas não tem preço!

JOÃO TRAVASSOS
Músico, produtor musical e produtor executivo da gravadora Comando S Discos.

Feliz ano novo! | Por Eliana Fonseca

Chega julho e minha disposição interna se modifica. Uma alegria inunda meu ser e o mundo fica mais belo. Em pleno inverno, a primavera se faz para mim: meu aniversário!

Independente de ter nascido em um dia, todo o mês é especial, é o mais bonito do ano. Até sem perceber, cantarolo, danço, sorrio mais e não perco oportunidade de referenciar a data mais importante da minha Vida, a que vim ao mundo concreto e que se renova trazendo-me novas oportunidades em um novo ano. As pessoas me parecem (e elas já não são assim?) mais afáveis, os dragões e leões menores, os problemas mais fáceis de resolver.

Eis aí uma pista de que nós vemos e construímos o mundo de acordo com as cores dos nossos sentimentos. Nós, e não o outro.

Gratidão é o sentimento relacionado, e a sensação é de sede, sede de viver mais e melhor!
E esta data já se repete há muitos anos!

Anos. Esta é uma forma de quantificar o tempo, revela nossa necessidade de contá-lo de forma significativa, no caso períodos de doze meses.

Assim o tempo tem um aspecto cíclico. Partimos de um ponto, tecemos uma rede e voltamos a ele, tendo construído um círculo (oxalá não seja vicioso), uma espiral evolutiva. Fechamos, concluímos, uma etapa e logo partimos para outra, morte e renascimento se juntam mais uma vez, bastão passado adiante convidando a continuar a caminhada, as descobertas e, se formos espertos, os aprendizados.
No caso específico o marcador para o terminar/iniciar de etapa é o aniversário.

A palavra aniversário é usada para comemorações festivas, nascimento de alguém, inauguração de um local, enlaces, e também para lembrar a morte, o encerramento, o término, o desastre. Mesmo tendo escrito não consigo ver diferenças. A similitude está em que estes eventos são “passagens” de um estado a outro, de uma etapa para outra, no ciclo evolutivo de cada um de nós.

Aniversário marca a renovação de um período, a repetição de um dado lapso de tempo, seja ele o casamento ou o divórcio, transições, mudanças. Isto! Marca a mudança ou o celebrar de sua ocorrência. Ou de um fato, que ficou na memória, causou riso ou choro, ou os dois (você nunca riu e chorou ao mesmo tempo? Experimente. É renovador.), motivou atitudes, provocou respirações alteradas, impacto. E celebrá-lo ou não (no caso dos que não gostam de seus aniversários), e de que maneira, revela uma identidade, uma marca pessoal e coletiva, que nos diferencia e aproxima. E cada um tem uma forma própria de comportar-se ante um rito de passagem.

Talvez esta palavra, passagem, esteja repetida para nos lembrar da impermanência de todos nós e do que nos cerca. Será por isso que alguns não festejam?

Creio que nos lembramos dos aniversários de mortes de pessoas para honrá-las (ou a sua memória) por seus ensinamentos, por sua contribuição pessoal, seja na vida privada ou pública. E por que não dizer, para re-lembrarmos, e não deixarmos morrer com elas,  conteúdos, quiçá, importantes para nós e o coletivo.
Já a celebração de aniversários de desastres, penso que acontecem quando houve um salto qualitativo sobre eles e por eles, para os sobreviventes, para aquela família ou comunidade. Criação de novos vínculos de confiança, expressões marcantes de coragem, inovação e superação nas reconstruções, independências conquistadas, liberdades afirmadas.  O Holocausto, Hiroshima e Nagasaki, são exemplos. E também para manter viva a promessa de não repetirmos mais a tal “coisa”.

Já os nascimentos são concretude da promessa de vida, perpetuação da espécie, corporificação de amor!
As celebrações de aniversários de nascimentos acontecem desde os tempos antigos. E os elementos que constituem “a festa” têm significados interessantes.

O bolo representa a terra, a concretização, a corporeidade. E como o citado elemento, maleabilidade e fertilidade. É quase um fetiche os bolos de aniversário, de formatos e cores os mais variados, recheados de “tesouros”, são olhados com desejo e disputados com ansiedade (De quem será o primeiro pedaço?).  É talvez nossa primeira experiência em “comer” do corpo do outro.

A vela e a chama representam a vida ascendente, a alma. A parafina líquida (água) assume o estado sólido, envolvendo o pavio, que na presença do ar, será queimado e transformado em lume (fogo), que para manter-se aceso derrete a parafina, tomando-a como combustível. E o ciclo se faz outra vez.

Para os gregos é uma referência a luz que a todos ilumina. Eles dedicavam um bolo de mel redondo com uma vela acesa a Ártemis, deusa do nascimento e da luz serena (a lua), pedindo proteção para o nascido. Antes deles, os mais antigos acendiam velas para proteger o recém-nato dos demônios! Apagar a vela com um único sopro é mostrar o vigor da respiração do aniversariante, essencial à vida.

E também davam presentes para homenagear o que e quem chegava, a nova fase, desejando bom começo, sorte na nova etapa. Com este intuito, davam o que poderia ser útil na jornada iniciante.

Em nosso país costuma-se cantar a música “Parabéns a você”, onde se deseja “muitos anos de vida”, ás vezes sem muita importância se haverá vida nestes anos todos desejados. Consoante os versos cantados, muito mais precisarei responder quantos anos estou completando do que se estou feliz!

E eu estou! E é o que verdadeiramente importa. Como nos geramos, nutrimos e acolhemos.  A cada ano que encerro me descubro com mais conhecimento sobre mim mesma, e mais vontade de aprender, e também menos ilusões, claro, pois o corpo físico de 43 não salta e rodopia com a mesma velocidade que o de 25, porém sinto-me renovada em mim mesma! Viva! Sou o resultado de minhas escolhas, mas agora sei que são escolhas minhas. Os sentidos se aguçam, e posso devorar os frutos ou saboreá-los, o coração compreende melhor as pessoas e mesmo assim continua a se apaixonar, a bater forte e descompassado com as novidades da Vida, os medos são os mesmos, o que é novo é a coragem de sabê-los.


Sou amante de mim mesma, e só na passagem dos anos pude presentear, tornar presente, esta sabedoria na minha Vida! Lembro uma fala de Rolando Toro, “Algumas pessoas se perguntam sobre o significado da Vida, [...]. O significado da Vida é implícito, no ato mesmo de viver, [...]. Este ato mesmo de viver, o ato de ligar-se, não é outro senão o passo titubeante no longo caminho do amor.”

Até o próximo ano!

ELIANA FONSECA

Em extinção | Por Samira Simon

Aqui estou eu, recém-chegada de uma reflexão conflituosa, porém recompensadora. Tudo começou, com a revelação no meu mapa de revolução solar de que eu preciso me adaptar a aceleração e virtualidade da era de aquário, senão certamente vou ficar obsoleta, ou o que é pior, entrar em extinção.

Não é querendo defender minha lua em touro que, segundo a leitura astral, é o que me influencia a precisar de tempo para ruminar as coisas, mastigá-las bem, digerindo-as de preferência debaixo de alguma sombra, mas como é mesmo que estão esperando que eu me adapte a era de aquário nesse corpo? Aliás, tem alguém me esperando????

A minha sensação e observação diz que não. Está todo mundo indo sozinho, sem nem mesmo saber pra onde, porém com pressa, muita pressa porque existem milhares de coisas por fazer.

E aí as pessoas me dizem para entrar no fluxo, porque hoje o mundo não está mais construído sobre estruturas sólidas e sim na realidade líquida...
As relações podem ser facilmente descartáveis, a física mudou, podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo e temos tanta liberdade de sermos o que quisermos, em qualquer lugar, a qualquer momento, que não podemos perder nenhuma oportunidade.

Pois bem, podem me intitular de retrógrada, mas decidi que não vou me adaptar a isso!

Há certas coisas bastante interessantes nesse novo mundo. Perceber que a mudança é a coisa mais permanente que há na vida, conhecer pessoas de vários lugares, comunicar com elas a qualquer hora e falar em diversas línguas. Isso é incrível! Deixar de ser tão rígido quanto a estruturas sociais castradoras, como por exemplo, casamentos forçados, papéis sociais impostos por gênero, escolha sexual padronizada. Incrível! Isso permite uma flexibilidade diante da vida.

Mas daí a esquecer que tenho um corpo, e que é nele onde quero viver as experiências da minha vida é demais. Não dá pra ser tão“descolada”.
Meu corpo é meu veículo!

É com ele e através dele que quero conhecer a vida. E quero transitar pelo corpo do outro também.

Na dá pra ficar despertando sensações só a partir de realidades virtuais. Decididamente o “admirável mundo novo” (1) não é pra mim.

“Eu quero engolir o mar e sentir como é ser mar”(2)...

Quero o encontro de corpo e alma. O direito à contemplação e não exclusivamente a ação. Quero transitar pelo mundo com meu corpo e meu corpo pede horas.... de sono, de carinho, de aconchego e dias de reclusão. Com essa aceleração toda não dá!

Eu quero ser veículo pra outros corpos, sustentar a vida na minha barriga, menstruar a cada mês e sentir tudo o que acontece comigo nesses eventos. Quero ser tocada por outras pessoas, reconhecer seus cheiros, me deitar na areia quente da praia e deixar as sensações desses encontros me transformarem numa pessoa melhor.

Podem me chamar de idealista, ingênua, careta, zen, o que for....Pode ser que eu venha realmente a sucumbir a esses tempos, mas o que meu corpo sustenta é essa minha escolha. Entrei na linha da resistência!

“Eu sou meu corpo” (3) e meu corpo tem limites e quer limites, e isso me faz sentir existindo. Meu corpo quer uma realidade cheia de coisas sólidas, ainda que eu possa me banhar nas águas da modernidade líquida.

Vou arriscar entrar em extinção, mas não vou abrir mão dos meus limites. O que eu quero é continuar fazendo vínculos de carne, comer fruta da terra e ter a chance de trocar de pele, sempre de pele.

(1)    Referência ao livro Admirável Mundo Novo de Aldous huxley
(2)    Referência ao conto As águas do mar de Clarice Lispector
(3)     Frase ilustre de Merleau-Ponty, filósofo fenomenologista.

SAMIRA SIMON 
Psicóloga/gestalt-terapeuta. Pesquisa e focaliza trabalho com mulheres há 9 anos.

AXIS MUNDI | Por Hilda Nascimento

O ritual é uma “dança”, composta de atitudes e comportamentos específicos que busca, através de seus símbolos, criar um caminho entre nossos corpos (espiritual, mental, afetivo, instintivo...) e, assim, nos levar ao contato com a mente universal, sacralizando aspectos que poderiam banalizar-se no cotidiano. 

Para que um ritual faça sentido é necessário que seus participantes apresentem uma disponibilidade interna para associações simbólicas, significando cada singularidade com sentido especial, buscando aplicar a experiência vivida no seu contexto cotidiano. Assim, o fenômeno da existência pode enriquecer a socialização entre os seres, anunciando a cada novo movimento “o quê”, de fato, está se fazendo presente, realçando importâncias e revelando o que verdadeiramente faz sentido para a comunidade que ali se implica. Assim, a compreensão dos rituais pode ser respeitada por qualquer pessoa, mas só pode ser compreendida no contexto ao qual pertence.

Os ritos sinalizam o ponto em que o sagrado e o profano se distinguem, tendo como base o cotidiano.  Servem para agregar valores simbólicos à regularidade do tempo, gerando espaços para representações subjetivas, cheias de significação, cujo sentido pode ser substancialmente percebido, vivenciado, pouco pensável e, no entanto, conservarem a imensa importância do sutil capaz de sustentar imensas estruturas.

O MARCO CIENTÍFICO e o MARCO MÍSTICO traçam uma dialética que dança compreensões do sagrado.

O primeiro – o marco científico – traz a ciência como tradutora deste fenômeno, apresentando autores, seus pensamentos, o exercício filosófico como grande mestre explicador.

Podemos, aqui, partir de Gregory Bateson e sua conclusão de que “o sagrado é aquilo que liga... é a origem da consciência de existir no mundo”. Assim, compreender o sagrado, falar sobre ele, nos leva a olhar sobre as relações buscando os padrões que fazem ressoar semelhanças, preservando singularidades, e percebendo, ao mesmo tempo, a unicidade e o todo em todas as coisas.

Edgard Morin também vai caminhar por esta trilha, inserindo aí o conceito de complexidade, convidando a olhar os sistemas com a qualidade “daquilo que é tecido junto”. Portanto, novamente o sagrado aparece como uma possibilidade de inter-relação, na qual pessoa e realidade se alteram juntas e mutuamente à medida que se observam. O exercício da complexidade amplia a capacidade do ser humano perceber a realidade. O humano é levado à ampliação do diálogo pessoal além das fronteiras básicas da ciência, como forma legítima de construir seu saber e poder expressar-se sobre ele.

Nicolescu refere-se ao sagrado como pleno movimento. Sua fala refere-se ao trânsito entre os estados de percepção, abertamente, sem rótulos nem fronteiras, inserindo a experiência do sagrado num espaço atemporal, como aquilo que vai além, enquanto fenômeno de interação, intercâmbio e comunicação instantânea.

Finalizando este rudimento de compreensão científica sobre o sagrado, é importante trazer Mircea Eliade com seu conceito de Hierofania, a capacidade do humano perceber o sagrado em todas as coisas, gerando uma conexão da Terra com o Cosmo, fundando o Axis Mundi, um lugar de recriação do mundo - o lugar do sagrado.  Eliade, também relacional, acrescenta aos conceitos anteriores à presença da natureza e a inclusão do mundo material e não material ao encontro com o sagrado.

O segundo, o marco místico, traz a vivência como espaço de corporificação, onde tudo começa e termina no instante vivido. Dele, só pessoal, particular e intransferivelmente cada um pode falar. É no corpo vivido que toda concepção funda sua tridimensionalidade, seu aspecto terreno, sua humanidade. A possibilidade de vivenciar o sagrado passa por uma abertura a este ensinamento, por uma autorização do corpo a sentir aquilo que o cérebro pode pensar.

Aqui poderíamos listar um sem fim de experiências pessoais, todas impossíveis de alcançar com as palavras, movidas por reações inesperadas, por lágrimas sem fim, por uma sensação profunda de conexão com tudo e com todos, por lapsos de compreensão absoluta dos fenômenos, da própria vida (lapso este que se desfaz instantaneamente tão logo aparece), por sensações de beatitude e de “portabilidade” (moderno!) de uma imensa compaixão dentro do peito.

A vivência do sagrado relembra ao humano sua verdadeira origem, torna lúcida sua memória, instala um profundo sentimento de completude, de conexão, de gratidão pela vida, intensifica a consciência e proporciona o espaço interno perfeito para o sentimento de gratidão.

Sendo esta uma capacidade humana, uma qualidade praticável para enriquecimento das relações com o todo cotidiano, me parece que o grande ponto a ser pensado é este “homo instante” – aquele que perdeu a capacidade de exercitar o sagrado em seu dia a dia. Ele é cria das relações humanas próprias deste instante planetário, que vem perdendo sistematicamente sua sacralidade, sua conexão com a natureza, sua consciência complexidade e interdependência. O “homo instante” é quase a mesma coisa de um “homo solo”.

As enfermidades da civilização alimentam a indústria química que tenta mascarar sentimentos de isolamento, abandono, desespero, falta de sentido, pânicos, identidades esfaceladas, certamente frutos de um tempo em que as relações “líquidas” não estabelecem conexões nutracêuticas e, com isto, o humano precise vestir, umas sobre as outras, armaduras de proteção, tornando-se cada vez mais isolado, mais frágil e, especialmente, mais anestesiado em seus sentidos.

A dessacralização das relações humanas pode ser vista como um fenômeno, observado na desconexão do humano do instante, com a natureza e com o mundo espiritual, resultante de uma falta de consciência de sua condição humana e planetária, interdependente e interexistente. Essa desconexão vem sendo substituída pelas intensas conexões tecnológicas de informação, que formam a marca global do Século XXI. Em meio a um mar de redes de informação, comunicação e tecnologia, o humano do instante vive a ilusão da separação, o isolamento, o abandono da natureza e o medo - a dessacralização de suas relações.

Sem um final que encerre, sem nenhuma conclusão a ser tirada, sem fechar nenhum pensamento, trago Pessoa:

“Multipliquei-me, para me sentir.
Para me sentir, precisei sentir tudo.
Transbordei, não fiz senão extravasar-me.
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente”.

HILDA NASCIMENTO


Sobre o poder do sofrimento | Por Hilda Nascimento

Cabe lembrar do Dalai Lama sempre que percebemos que alguém sofre. Se nos detivermos sem compaixão, o que aparecerá de imediato é o esforço que algumas pessoas fazem para permanecerem sendo infelizes. Se o olhar compassivo sobressair, tudo nos parecerá diferente pois, se estivéssemos naquele lugar, com aquele conjunto de crenças, valores, família, condições, faríamos da mesma forma.
O Projeto Minotauro (extensão da Biodança para acessar os medos humanos) lista, entre tantos outros, o MEDO DE SER FELIZ. Será possível?

O que quero refletir, neste texto, é sobre o enganoso bem estar deste mal estar. A queixa, explícita, é da vida não estar bem,  de haver uma gama de problemas sem solução, numa teia criada e compreendida pela própria pessoa, que sofre (realmente sofre), mas não sai dela. Aí, identifico três “zonas” que gostaria de pontuar:

A primeira, é a “zona de segurança”. Acho importante que as pessoas que convivem intimamente com um sofrimento que não passa,  reflitam sobre isto. É ruim, sim, mas (cá pra nós)... protege. Quem está ali, conhece os limites daquele estar mal, é íntimo das salas onde reinam as justificativas para viver (viver?) daquele jeito e dos cantos onde as verdades pessoais se escondem. Aquelas verdades que doem pra olhar e, certamente, são os pilares de toda estrutura infeliz. O ruim é conhecido, é familiar e, como prolifera paralisia de viver, impede novos passos e repete internamente a mesma assombrosa questão, cada vez que a pessoa é confrontada com suas questões e impulsionada a mudanças: “e se piorar”? Diante desta possibilidade, fragilizada, anêmica de vida que gere mais vida, a pessoa recua o passo, amarra o salto e permanece. Infeliz, mas segura.

A segunda reflexão nos alerta sobre a “zona de valor”.  Sei que parece mesmo um absurdo, mas o entorno valoriza muito quem sofre. As pessoas costumam incluir em seus diálogos expressões como:  - Conhece fulano? Pessoa maravilhosa! Sofriiida...  Ou então, diante de uma conquista: - Ele merece... já sofreu o bastante... Assim, o estado sofrer passa a agregar um valor à identidade social de quem sofre.  As pessoas, de alguma forma, admiram quem sofre. Provavelmente esteja aí, embutida, uma re-apresentação do sacrifício crístico visto de maneira rasa e desconectado da sua complexa simbologia. Purgar traz o testemunho de uma força que, nem sempre, as pessoas reconhecem em si (e nem nos outros) em estados de  bem aventurança, prazer ou alegria.  Em algum ponto não consciente, quem sofre se fortalece da sua própria possibilidade de sofrer. Retirado o foco do sofrimento, provavelmente a pergunta seria: - E agora? Viver de quê? Nesta zona, a pessoa pode se tornar quase inatingível (e inalcançável)em sua força, em seu sofrer, fazendo a renegação à vida ser a grande força nutridora da própria “sobre-vivência”.

A terceira é a “zona de conforto”. Esta cuida de colocar no colo aquele que sofre e, este colocar no colo ao qual me refiro, está distante de ser amor em sua legitimidade.  Há uma tendência do entorno se compadecer, solidarizar-se, o que é muito bonito, valoroso de fato, mas que beira um risco imenso: o de anestesiar a possibilidade da pessoa se dar conta de que PODE sair daquela situação.  O ônus será perder o colo, mas o bônus será a liberdade. Entretanto, como desejar liberdade se, o estado de infelicidade garante companhia? Felizes seremos sós?
Não tenho a intenção de trazer este delicado assunto revestido de frieza ou objetividade banal. Não. Quando ainda em rascunho, me perguntaram o que eu pretendia escrevendo algo assim.  Me dou conta de que provoco uma reflexão com a intenção de despertar o desejo de uma nova vivência, de sugerir aos que naufragam que existe um barco resgate em algum lugar do seu mar revolto e de lembrar a todos (também a mim) que a transitoriedade é característica fundamental da nossa existência. Portanto, tudo passa.

Em seu livro “UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES”,  Clarice Lispector nos lembra de que somos sós. Toda atual concepção do viver  nos informa que ninguém viverá a vida de ninguém ainda que o deseje. E também que todo o movimento vital está fundado nas escolhas que fazemos.  Não há como sair de um círculo vicioso, senão rompendo, se atrevendo, lançando mão da força de permanência  e convertendo-a em força de partida. Isto não se faz pedindo licença nem por favor.  E o fatal: ninguém pode fazer isto por ninguém. Ainda que o deseje, ainda que ame profunda e verdadeiramente.

Aqui não me coloco à disposição para instantaneidades, nem metas a serem atingidas, nem expectativas a atender ou desrespeito ao ritmo de cada um. Não. Aqui falo sobre a disposição para o “risco e abandono” próprio dos caminhares.  Não há como sair do lugar de outro jeito. Ou então não será o “nosso jeito”  será o de alguém. Mas... de quem?

Finalizando este assunto sem fim, desejo convocar a todos para escolherem a felicidade como bandeira para suas vidas. Que se espalhe sobre a terra uma legião disposta a fazer o diferente assim: sendo feliz. Porque: se tristeza está na moda e infelicidade leva direto pro céu, melhor ser um santo pecador  e, certamente,  apostar no inferno (rs).

HILDA NASCIMENTO